‘Viram um homem cego de nascença’
A cura do cego de nascença é uma terrível repreensão para os fariseus, que não queriam aceitar as palavras de Cristo. Antes desse evento crucial, Cristo havia tido um longo diálogo com os escribas e fariseus, durante o qual lhes disse: “Digo-lhes a verdade: antes que Abraão existisse, Eu sou” (João 8, 58). Os judeus enfurecidos não entenderam as palavras de Cristo e pegaram pedras para atirar n´Ele (op. cit., 59). Para não atiçar ainda mais a ira deles, Jesus Se escondeu e saiu do templo (ibid.). Foi depois disso que Ele encontrou o cego de nascença e o curou, em parte para que a cura fosse uma resposta aos inimigos que o haviam menosprezado.
O cego de nascença
Os discípulos de Cristo pensavam que o próprio homem ou seus pais deviam ter pecado para que ele nascesse cego. Cristo, porém, exclui ambas as possibilidades. O homem nasceu cego para que a glória de Deus se manifestasse. O raciocínio dos discípulos era errôneo, pois como alguém poderia pecar antes mesmo de nascer? Somente os pagãos tinham tais doutrinas e dogmas sem sentido. O Senhor é bastante claro sobre isso. Todos nós somos pessoalmente responsáveis pelos nossos próprios pecados. É o pecado que cometemos que nos perturba. São Cirilo de Alexandria[1] escreve que é de grande benefício para as pessoas quando elas conhecem o verdadeiro ensinamento de Deus. Elas não caem em erro, nem interpretam os fatos de maneira equivocada.
A maneira como o cego foi curado
A maneira como Cristo curou o homem é digna de nota. Cristo poderia tê-lo curado com uma palavra, sem usar lama e esfregá-la em seus olhos. Primeiro, Ele queria inspirar fé. Então, por meio dessa ação, demonstrou Seu poder criador. Assim como um construtor pode terminar uma casa inacabada (usando materiais novos), da mesma forma, segundo São João Crisóstomo, no milagre do cego, Cristo “une o nosso corpo e o completa”. Ele criou Adão da terra e, com a terra, criou os olhos do cego. Então, no sábado, disse-lhe para ir lavar o rosto no tanque de Siloé. O cego obedeceu imediatamente. No caminho para o tanque, partindo do lugar onde Cristo lhe havia dito para ir, certamente encontraria muitas pessoas que lhe perguntariam para onde ia e por que tinha lama nos olhos. O Senhor queria que esse sinal fosse muito significativo. Após a cura, o homem retornaria pelo mesmo caminho e seu progresso se tornaria, de certa forma, uma espécie de procissão do milagre; ele se tornaria conhecido sem qualquer alarde. É claro que, com seus constantes questionamentos, os fariseus, sem querer, garantiram que todos ouvissem falar do milagre. De fato, como dizem os Padres da Igreja: “Deus faz o oposto do oposto”. O cego foi curado pela energia vivificante do Senhor.
O Siloé espiritual
O Senhor é a rocha espiritual e a piscina espiritual de Siloé, onde as pessoas são purificadas de seus pecados. Cristo é uma torrente abundante, refrescando e revigorando a todos nós. São Basílio o Grande sugere que, qualquer que seja nossa doença, devemos recorrer à Graça divina, assim como aos médicos. Um bispo afirma que a grande tragédia da humanidade é o nosso pecado. Não simplesmente o fato de termos pecado, mas o fato de o pecado permanecer. O conflito entre o cego e os fariseus não se trata de encontrar a verdade, mas do pecado. Os fariseus não estão realmente preocupados com o dia de descanso do sábado, mas com o fato de seu ego ter sido ferido. Nosso próprio egoísmo nos impede de aceitar as ações e os milagres de Deus. Vemos as pequenas coisas, mas não percebemos as grandes. Nossa boa vontade é limitada e nos recusamos a aceitar o amor de Deus por nós. No fundo, acreditamos apenas em nós mesmos e em nossos próprios dons.
Vamos desconstruir esse complexo de ego e reconhecer nossos erros. Permitamos que Deus aja em nós, como Ele sabe e da maneira que Ele deseja. Se nos tornarmos instrumentos através dos quais a glória de Deus possa se manifestar, então que façamos os maiores sacrifícios.
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[1] Também conhecido como Cirilo de Alexandria. Neste caso, ambos estão corretos. Ele era ‘o alexandrino’ porque era da cidade; ele também era ‘de Alexandria’, porque era o bispo da cidade.
Metropolita Ioïl (Frangkakos) de Edessa, Pela e Almopia
tradução de monja Rebeca (Pereira)







