PATRIARCA DA GEÓRGIA ILIA II: UM GÊNIO ESTRATEGISTA MISSIONÁRIO DE NOSSO TEMPO – PARTE 3

Atraindo a elite científica, cultural e acadêmica

Desde o início de seu ministério, o Patriarca Ilia tinha plena consciência da importância da ciência para o desenvolvimento da sociedade georgiana moderna e, portanto, apoiou integral e ativamente o avanço do potencial científico da Geórgia, priorizando, ao mesmo tempo, a construção de pontes sólidas entre fé e ciência. Assim, com o tempo, foi reconhecido pela comunidade acadêmica como um interlocutor extremamente autêntico, sendo inclusive eleito membro honorário da Academia de Ciências da Geórgia. Sua participação frequente em conferências científicas conferiu um selo especial à sua posição e prestígio no mundo científico.

Ouçamos o que o falecido Patriarca Ilia II disse sobre a necessidade de reconhecer a importância da ciência para a sociedade georgiana: “A área da ciência é de importância decisiva para todos os países; são necessários enormes recursos e muito tempo para criar potencial científico, e será um erro irreparável se não aproveitarmos o potencial que já possuímos”. E eis como, em tom semelhante, ele refletiu sobre a atitude da Igreja em relação aos cientistas: “É tradição da Igreja Georgiana manter boas relações com os cientistas […]. Por exemplo, o presidente da Academia de Ciências da Geórgia nos visita quase todas as semanas, assim como professores. Discutimos não apenas pesquisas científicas, mas também as suas necessidades”.

Em sua concepção estratégica da missão interna, o Patriarca designou o trabalho com a elite cultural, científica e educacional da sociedade georgiana como uma das principais linhas de atuação. Como um brilhante estrategista missionário, ele compreendeu que, se esse segmento da sociedade fosse religiosamente esclarecido, seria mais fácil esclarecê-lo também o povo comum, a quem essa mesma elite se dedicava. Nesse sentido, ele renovou a prática de o Patriarca da Geórgia se reunir e discutir diversos temas com os círculos científicos, educacionais e culturais da sociedade georgiana todas as quintas-feiras no edifício do Patriarcado, em Tbilisi. Os principais temas dessas reuniões, naturalmente, estavam direta ou indiretamente relacionados a questões específicas da relação entre fé e ciência, mas, com o tempo, tornaram-se mais amplos e passaram a abranger dilemas espirituais. Além disso, como testemunham aqueles que conhecem o assunto, o Patriarca demonstrava plena compreensão pelos membros da comunidade científica, acadêmica e cultural que eram não crentes ou semi-crentes, apresentando uma atitude extremamente pastoral e condescendente para com eles.

Ele atraiu o mundo científico com a santidade de sua vida, a abertura ao diálogo e a necessidade evidente de a Igreja contribuir para o progresso geral da sociedade georgiana. Ao mesmo tempo, seu interesse pelas conquistas científicas foi um forte incentivo para que os círculos científicos o encontrassem como um interlocutor excepcional no mundo da espiritualidade. Além disso, ele era magneticamente atraente como interlocutor, tanto pelos interesses que demonstrava quanto pela amplitude de conhecimento e habilidades à sua disposição. O Patriarca Ilia era um multipotencial, pois, além de sua atividade espiritual específica, dedicava-se ativamente à caligrafia, à pintura de ícones e à composição musical. Tudo isso proporcionava às pessoas do mundo da cultura, em particular, um sentimento de afinidade com ele. Da mesma forma, pessoas da esfera acadêmica encontraram no Patriarca Ilia tanto um interlocutor quanto um aliado, pois ele enfatizava a importância da Igreja georgiana estabelecer instituições de ensino teológico e universidades com faculdades onde se estudavam ciências seculares (como a Universidade da Igreja de Santo André, o Primeiro Chamado, e a Universidade de Santa Rainha Tamar). Da mesma forma, dezenas de ginásios ortodoxos foram construídos por todo o país, assim como várias outras escolas. O Patriarca tinha plena consciência do que uma boa educação baseada no sistema de valores cristãos significava para a sociedade georgiana e trabalhou arduamente para isso.

Missão Externa

Embora o Patriarca Ilia II seja lembrado principalmente como um excelente estrategista da missão interna da Igreja, ele de modo algum negligenciou o campo da missão externa; pelo contrário, obteve resultados particularmente expressivos nessa área em seu trabalho com os habitantes da Adjara, uma república georgiana cujos ancestrais foram forçados a se converter ao Islã ao longo da história. A autoridade do Patriarca Ilia foi um fator crucial para motivar os adjarianos a retornarem à sua fé ortodoxa ancestral, da qual haviam sido convertidos à força, o que representou mais um feito comparável ao dos apóstolos.

O Metropolita Dimitriy (Shiolashvili) de Batumi e Laska fala de forma particularmente impressionante sobre o processo de retorno dos adjarianos ao Cristianismo ortodoxo durante o tempo do Patriarca Ilia II. Ele afirma que, em 1989, cerca de mil muçulmanos adjarianos foram batizados e que, dois anos depois, cinco mil muçulmanos e ateus foram batizados em Batumi. O Metropolita testemunha que o Patriarca disse na ocasião: “A Geórgia não deve converter Adjara ao Cristianismo, mas sim Adjara [nos reconduzir ao cristianismo]”.

No campo missionário entre os adjarianos, o Patriarca Elias mais uma vez demonstrou ser um brilhante estrategista missionário. Ele escolheu como sua principal tarefa levar os círculos intelectuais de Adjara à fé cristã, para que posteriormente se juntassem à pregação do Cristianismo ao seu povo. Assim, os adjarianos aceitaram em massa a Ortodoxia assim que viram que seus representantes mais instruídos haviam feito o mesmo. É muito importante ressaltar aqui que o Patriarca Ilia jamais recorreu a métodos proselitistas jesuítas. Sua atuação foi pura, aberta, sincera, discreta e baseada no testemunho da verdade, e tal abordagem é respeitada por todos, mesmo por aqueles que discordam dele. A este respeito, mencionemos o comovente episódio narrado pelo Metropolita Dimitri, quando um certo hodja da Alta Adjara, em sua simplicidade, perguntou se o Patriarca Ilia poderia, por acaso, ser o chefe tanto dos ortodoxos quanto dos muçulmanos daquela parte da Geórgia. Além disso, o Patriarca Ilia, devido à santidade de sua vida, também era respeitado por altos líderes islâmicos. A melhor confirmação disso é a posição do mufti dos muçulmanos caucasianos, que chamou o Patriarca georgiano Ilia de “pai” e “aksakal” [o homem mais sábio] de todo o Cáucaso.

Havia, contudo, também tentações na atividade missionária, precisamente quando se tratava de esclarecer alguns distritos caucasianos. Por exemplo, quando em uma parte dessa área específica o Patriarca se propôs a erradicar o costume pagão de sacrificar animais dentro da estrutura dos ritos cristãos, encontrou forte, até mesmo dura, resistência. Mesmo assim, apesar de tudo, ele não desistiu, o que também é uma característica do espírito apostólico.

Uma atividade importante da missão externa durante o Patriarca Ilia está relacionada à sua bênção para que a Sagrada Liturgia fosse celebrada na Geórgia em vários idiomas e para que pessoas não georgianas fossem educadas em escolas teológicas. No âmbito dessa iniciativa missionária, um projeto que poderia ser facilmente implementado em qualquer lugar do mundo é a ideia muito útil de que, nas capitais ortodoxas, existe um templo onde o culto é realizado em inglês – na Geórgia, essa igreja existe precisamente em Tbilisi.

Em termos da atividade da missão externa sob o omóforion do Patriarca Ilia II, é importante notar a dimensão da adesão intransigente às verdades dogmáticas e uma postura crítica claramente expressa em relação aos ensinamentos heterodoxos. O Patriarca Ilia, como mencionado, era aberto tanto a crentes quanto a não crentes e respeitava a contribuição de cada pessoa para a sociedade georgiana em um sentido civilizacional, mas, quando se tratava de professar a fé, sua expressão era extremamente precisa. Isso fica especialmente evidente em sua atitude em relação ao ecumenismo como um fenômeno que surgiu no território do cristianismo protestante. Em grande parte sob a influência de círculos monásticos, o Patriarca adotou, ao longo do tempo, uma postura fortemente crítica em relação ao movimento ecumênico e seus órgãos organizacionais, ideias e conceitos dominantes, o que foi explicitamente expresso na decisão do Concílio de 1998 da Igreja Ortodoxa Georgiana.

Ao adotar uma postura crítica em relação ao Ecumenismo, o Patriarca Ilia demonstrou preocupação não apenas com aqueles que estão fora do seio litúrgico da Igreja Ortodoxa, mas também com os cristãos ortodoxos, a fim de protegê-los das tendências sedutoras das correntes teológicas liberais. Nesse sentido, ele se mostrou fiel à abordagem de todos os grandes missionários e estrategistas das épocas anteriores, que foram extremamente engenhosos em seu trabalho para alcançar a atenção de cada pessoa e ganhá-la para Cristo, mas que nunca transigiram na fé. A razão para isso é simples: o objetivo principal da missão da Igreja não está no número de fiéis, mas na revelação da glória de Deus, que só se alcança por meio da fé correta e do modo de vida correto.

Gênios da Missão Contemporânea

Não seria exagero chamar o Patriarca Ilia II de gênio da missão ortodoxa de nosso tempo – sem dúvida, muitos livros, coletâneas e teses de doutorado serão escritos no futuro sobre a estratégia missionária do Patriarca Ilias, e todo livro didático sério na área de missiologia incluirá sua abordagem e contribuição para a missão da Igreja. Mas será que aprenderemos algo com o Grande Patriarca e aplicaremos isso em nosso próprio trabalho?

Embora sintamos uma enorme perda com a partida do grande Primeiro Hierarca da Geórgia, de uma forma mística também sentimos seu apoio, pois ganhamos mais um representante diante do Trono do Senhor. Surgirá um novo estrategista da grandeza de Ilia da Geórgia no período vindouro? Não podemos saber, mas devemos ter em mente que pessoas como ele não nascem, mas são enviadas por Deus, muitas vezes como fruto da oração fervorosa de alguém. A este respeito, não nos esqueçamos do papel paterno na vida do Patriarca Ilia II e perguntemo-nos: quantos pais ortodoxos hoje oram para que o fruto de seu ventre seja consagrado a Deus? Oremos, portanto, ao Senhor da colheita para que suscite novos mensageiros (cf. Mt 9,38), que, seguindo o exemplo do Patriarca Ilia, o Grande, cultivem incansavelmente o campo do Senhor.

Por fim, cabe mencionar que o texto foi concluído na festa da Anunciação, que este ano é celebrada na Semana Santa – mais especificamente, na Terça-feira Santa, dia em que o Patriarca Ilia II foi tonsurado monge. Que isso sirva de mais um lembrete da figura e da obra do Patriarca Ilia II – o Arauto do Evangelho de Cristo no período de sofrimento do povo georgiano. Resta esperar que seu exemplo de trabalho incansável na “noite ensolarada” inspire todos nós, cristãos ortodoxos, a dar nossa contribuição pessoal à missão da Igreja no mundo moderno.


Presbítero Dr. Oliver Subotić
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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