Hoje ouvimos a história do homem que nasceu cego. Não sabemos por experiência o que é a cegueira física, mas podemos imaginar como esse homem estava aprisionado em si mesmo, como todo o mundo ao seu redor existia apenas como um som distante, algo que ele não conseguia visualizar, imaginar. Ele era um prisioneiro dentro do próprio corpo. Podia viver de imaginações, podia inventar um mundo ao seu redor, podia, pelo tato e pela audição, aproximar-se do que realmente o cercava; mas a realidade total e plena só lhe escapava.
Não somos fisicamente cegos, mas quantos de nós estamos aprisionados em nós mesmos! Quem de nós pode dizer que é tão aberto que consegue perceber o mundo em toda a sua amplitude, mas também em sua profundidade? Encontramos pessoas e as vemos com nossos olhos; mas raramente acontece de, além da aparência externa, das feições, das roupas, vermos algo da profundidade da pessoa? Quão raramente olhamos nos olhos de alguém e mergulhamos em compreensão! Estamos rodeados de pessoas e cada pessoa é única para Deus, mas será que as pessoas são únicas para nós? Não são as pessoas que nos rodeiam apenas “pessoas”, com nomes, sobrenomes e apelidos, que reconhecemos pela aparência, mas que desconhecemos profundamente?
Esta é a nossa condição: somos cegos, surdos, insensíveis ao mundo exterior e, no entanto, somos chamados a decifrar significados. Quando encontramos alguém, devemos abordar essa pessoa como um mistério, algo que só podemos descobrir através de uma comunhão profunda, entrando numa relação, talvez silenciosa, talvez em palavras, mas tão profunda que possamos conhecer-nos uns aos outros não exatamente como Deus nos conhece, mas à luz de Deus que ilumina a todos e a cada um de nós.
E mais do que isso: podemos fazer, cada um dentro das suas forças, dentro dos seus dons, o que Cristo fez: abriu os olhos deste homem. O que viu este homem? A primeira coisa que viu foi a face do Filho de Deus encarnado; por outras palavras, viu o amor encarnado. Quando seus olhos encontraram os de Cristo, ele encontrou a compaixão de Deus, a ternura de Deus, a preocupação e a compreensão sinceras de Deus. Da mesma forma, tantas pessoas poderiam começar a ver, se ao nos encontrarem encontrassem pessoas em cujos olhos, em cujos rostos pudessem ver o brilho de um amor sincero e sóbrio, um amor que não é sentimental, mas que vê, um amor que pode ver e compreender. E então, o quanto poderíamos ser para as pessoas ao nosso redor uma revelação de todos os significados que este mundo contém e guarda através da arte, da beleza, da ciência, de todos os meios pelos quais a beleza é percebida e proclamada entre os seres humanos?
Mas estamos fazendo isso? Nossa preocupação é transmitir a amplitude e a profundidade, a beleza e o significado das coisas a cada pessoa que encontramos? Não estamos mais preocupados em receber do que em dar? E, no entanto, São Paulo, que sabia o que significava receber e dar, disse: “Há mais felicidade em dar do que em receber”. E, no entanto, quanto ele havia recebido! Ele havia recebido o conhecimento de Deus em sua própria experiência; Ele havia recebido ensinamentos, conhecimento e experiência no Antigo Testamento, e então Cristo se revelou a ele: o que ele não recebeu! E, no entanto, ele se alegrava mais em dar do que em receber, porque não queria ser o dono de toda a riqueza que lhe fora concedida; ele queria compartilhá-la, dá-la, iluminar e inspirar outras vidas além da sua.
Reflitamos sobre quão ricos, quão ricamente dotados somos, quanto nos foi dado ver e ouvir. E percebamos, ao mesmo tempo, quão tragicamente aprisionados estamos dentro de nós mesmos, a menos que derrubemos essa barreira para dar, tão generosamente, tão ricamente, tão abundantemente quanto nos foi dado. E então, de fato, nossa alegria será completa, conforme a promessa de Cristo. E ninguém, nada jamais poderá nos tirar isso. Amém!
Metropolita Anthony (Bloom) de Sourozh
tradução de monja Rebeca (Pereira)







