A IGREJA E AS IGREJAS: DIVISÕES E RECONCILIAÇÃO
O Credo Niceno-Constantinopolitano fala de uma só Igreja. No entanto, existem muitas confissões cristãs no mundo que se autodenominam igrejas. Não é incomum que essas confissões recusem a Sagrada Comunhão umas às outras e até mesmo sejam mutuamente hostis. Essas coisas destroem a unidade da Igreja? Não é verdade que uma Igreja anteriormente única se desintegrou em várias denominações e perdeu sua unidade?
Para começar, deve-se salientar que, segundo a Eclesiologia Ortodoxa, a Igreja, por sua própria natureza, é indivisível e assim permanecerá até o fim dos tempos. As divisões e cismas resultantes da heresia não implicaram o desmembramento da Igreja, mas sim o afastamento dos hereges do organismo único da Igreja e a perda da comunhão com ela. Como mencionado acima, a heresia se caracteriza pela forma como se opõe conscientemente à doutrina universal da Igreja.
A Ortodoxia não concorda com a “teoria dos ramos”, segundo a qual todas as denominações cristãs existentes são ramos da mesma árvore. A unidade da Igreja é condicionada pela unidade em torno da Eucaristia: fora da comunhão eucarística não pode haver unidade. Rezamos na Liturgia de São Basílio o Grande: “E une todos nós uns aos outros, para que nos tornemos participantes do mesmo Pão e Cálice na comunhão do Espírito Santo”. Pertencer à Igreja se expressa não apenas na unidade dogmática com Ela, mas também na unidade da Eucaristia. É precisamente como ramos desmembrados que a Igreja considera os grupos cristãos que se opuseram à doutrina aceita pela Igreja por meio de heresia.
Isso significa necessariamente que os ortodoxos devem considerar todas as confissões cristãs não ortodoxas como assembléias heréticas ou ramos secos cortados do tronco? Para alguns teólogos ortodoxos, esse certamente é o caso. No entanto, a posição oficial da maioria das Igrejas Ortodoxas é, em regra, muito mais aberta em relação a outras confissões cristãs, especialmente aquelas cuja eclesiologia é idêntica ou próxima à dos ortodoxos: a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas Orientais (pré-calcedônias).
A Igreja primitiva adotou uma postura rigorosa em relação aos hereges: os cânones da Igreja não apenas os proibiam de participar da Eucaristia, como também proibiam as pessoas de rezar com hereges. No entanto, devemos lembrar que as heresias dos primeiros séculos cristãos (Arianismo, Sabelianismo e mMonofisismo Euticiano) rejeitavam os próprios fundamentos da fé cristã: a divindade de Cristo, a igualdade das Pessoas da Trindade, a plenitude das naturezas divina e humana de Cristo. Isso não pode ser dito da maioria das confissões cristãs atuais, pois elas aceitam os dogmas básicos da Igreja. Os cristãos ortodoxos, portanto, devem fazer uma distinção entre não ortodoxia e heresia. São Filareto de Moscou acreditava que colocar o Catolicismo e o Arianismo em pé de igualdade é “rigoroso e contraproducente”. Ainda mais contraproducente é aplicar o que foi dito pelos Concílios Ecumênicos sobre a excomunhão de hereges aos cristãos não ortodoxos contemporâneos.
Ao lidar com a difícil questão das divisões cristãs, os ortodoxos podem desejar ter em mente que somente Deus sabe onde estão os limites da Igreja. Como disse Santo Agostinho, “muitos daqueles que na terra se consideravam estranhos à Igreja descobrirão, no dia do Juízo, que são seus cidadãos; e muitos daqueles que se consideravam membros da Igreja, infelizmente, serão considerados estranhos a ela”. Declarar que fora da Igreja Ortodoxa não há e não pode haver a graça de Deus seria limitar a onipotência de Deus, confiná-Lo a uma estrutura fora da qual Ele não tem o direito de agir.
Metropolita Hilarion (Alfeyev)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








