O Domingo da Samaritana é o nome dado ao quinto domingo após a Páscoa. A personagem principal da passagem do Evangelho lida na Liturgia deste dia é uma mulher da Samaria com quem Cristo conversa junto ao Poço de Jacob. A tradição da Igreja preserva seu nome: Fotina ou Fotini. Após sua conversa com o Salvador, ela se tornou cristã, posteriormente levou muitas pessoas a Deus e foi martirizada por sua fé. O que havia de incomum na conversa de Jesus com essa mulher, e como a imagem da mulher samaritana pode sugerir o que devemos fazer não apenas para adquirir a graça do Espírito Santo, mas também para nos tornarmos uma fonte dessa graça para os outros?
“Que ninguém coma o pão dos samaritanos, pois quem come o pão deles é como quem come porco.” Provérbios como este eram comuns entre os judeus na época de Cristo. Eles ilustravam vividamente um padrão triste: muitas vezes, a inimizade mais amarga surge entre aqueles que outrora foram muito próximos e queridos uns aos outros. De fato, judeus e samaritanos já foram um só povo. Todos eram descendentes daqueles que vieram do Egito para a Palestina com Moisés. Enquanto os judeus habitavam o sul da Terra Prometida, os ancestrais dos samaritanos viviam no norte. Sim, esses eram os judeus que formavam o Reino do Norte de Israel. No século VIII a.C., ele caiu sob o ataque do rei assírio Sargão II. Alguns judeus foram deportados, e os que permaneceram se misturaram com pagãos que haviam sido reassentados ali vindos de outros lugares. A fé no Deus Único não desapareceu. Contudo, sofreu mudanças significativas. Os samaritanos continuaram a honrar a Lei de Moisés e a ler seus livros sagrados, mas, ao mesmo tempo, sua vida religiosa absorveu várias ideias e rituais pagãos.
Por isso, os judeus desprezavam os samaritanos. Para eles, eram piores que infiéis, traidores e profanadores da fé. Os samaritanos retribuíam na mesma moeda. O único caminho da Galileia para Jerusalém era uma estrada que atravessava o território samaritano. Os peregrinos judeus que percorriam essa rota eram frequentemente alvo de ridículo, insultos e até mesmo espancamentos. Portanto, a mulher samaritana fica extremamente surpresa quando Cristo lhe pede água.
Este não é o único detalhe que chama a atenção. As leis patriarcais daquela época proibiam um homem de interagir com uma mulher a sós, ou mesmo de cumprimentá-la ou falar com ela na rua. Cristo ignora essa proibição. Por fim, há mais um fato notável. Diz-se que a mulher samaritana chegou ao poço à sexta hora — ou seja, ao meio-dia em nossos dias. Este não é um detalhe acidental. Na Palestina, as mulheres buscavam água juntas, em grupos. Geralmente, caminhavam de manhã cedo ou ao entardecer. Não estava tão quente. A samaritana caminhava sozinha, no calor do momento. Claramente, ela não queria interagir com ninguém. As próprias Escrituras explicam o porquê. Ela havia se casado cinco vezes. E agora vivia com um homem que nem sequer era seu marido. Naquela época, até mesmo um terceiro casamento era considerado algo fora do comum. Claramente, a mulher se sentia rejeitada e uma criminosa perante a lei e a sociedade. E é por isso que ela estava sozinha. Mas sua comunhão com Cristo era ainda mais incomum.
Uma inimiga, uma mulher, e alguém com reputação duvidosa, uma pária social. Era assim que os discípulos do Salvador poderiam tê-la visto, completamente surpresos por Ele estar falando com ela. O Mestre não poderia ter encontrado uma interlocutora mais digna? Afinal, Ele está cercado diariamente por pessoas respeitáveis que certamente não desperdiçariam o dom da água viva que Ele oferece a essa pessoa de reputação duvidosa. E, de fato, por que ela?
Felizmente, as noções humanas de decência e a visão de Deus sobre o assunto diferem significativamente. Muitas vezes, vemos e julgamos apenas pelas aparências externas. Deus, porém, vê o coração humano. E para Ele, basta que a mulher samaritana não dê desculpas. Ela tem a coragem de ser honesta tanto com Cristo quanto consigo mesma. Aparentemente, ela já aceitou há muito tempo toda a verdade sobre si mesma. Portanto, não há motivo para dissimular ou tergiversar. Ela já compreendeu profundamente que não pode mudar nada sozinha. Somente um milagre pode ajudá-la. É por isso que ela se apega com tanta tenacidade às palavras de Cristo sobre o Salvador e Messias que virá. O Senhor vê que a mulher samaritana está cheia de determinação. Para mudar sua situação de alguma forma, ela está pronta não apenas para acatar Suas palavras, mas também para agir. Porque nada poderia ser pior do que a sua situação. Finalmente, Ele vê que a mulher não é egoísta. Ela não se apropriará do dom que Ele está prestes a lhe conceder. Ela está pronta para compartilhá-lo com outros. Mesmo que essas pessoas lhe tenham causado muita dor. De fato, a primeira coisa que a mulher samaritana faz é correr até seus companheiros samaritanos na cidade. Ela prega sobre Cristo com tanto fervor que chega a esquecer seu cântaro. E sua pregação é tão fervorosa que as pessoas, apesar da reputação pouco lisonjeira dessa mulher, a seguem e encontram o Messias.
Uma honestidade implacável consigo mesmo e o reconhecimento das próprias fraquezas, a consciência de que me falta força interior para mudar radicalmente a situação, pois todo o poder pertence a Deus, e a disposição para cumprir os mandamentos que o Senhor me oferece nas páginas do Seu Evangelho — isto é, servir aos outros desinteressadamente em Nome de Cristo — é isso que atrai a graça do Espírito Santo a uma pessoa. Portanto, se nossa alma está sedenta e definhando, como numa tarde abafada no deserto, lembremo-nos da mulher samaritana. Talvez a sua imagem nos indique o caminho que devemos seguir para encontrar a fonte da água viva.
Sacerdote Dmitry Baritsky
tradução de monja Rebeca (Pereira)







