Qualquer encontro com Cristo causa espanto nas pessoas. Se você não se espantou, deveria se perguntar se realmente encontrou Cristo, se realmente sentiu a Sua presença. Esse espanto não é inexplicável, nem absurdo, mas sim compreensível e racional. É algo que ocorre quando o natural encontra o Sobrenatural, o relativo encontra o Absoluto e o transitório encontra o eterno.
Quando pessoas dominadas pelo medo da morte encontram o Senhor da Vida, quando a criatura contempla o seu Criador, a relação é incomensurável, surgem surpresas inesperadas. E essas surpresas tornam-se ainda mais comoventes quando o Senhor Se humilha diante da Sua criação, para servi-la. De fato, as surpresas aqui não se restringem à natureza geral das coisas, mas também se estendem aos seus detalhes particulares.
No encontro com a mulher samaritana, a primeira surpresa é o próprio diálogo que se desenvolve entre eles. Cristo dirige-Se à mulher samaritana e pede-lhe água para beber. Ela fica surpresa e pergunta: “Como é que, um judeu, está me pedindo água para beber, sendo que sou uma mulher samaritana? Judeus não se relacionam com samaritanos”.
A surpresa é dupla, ou melhor, múltipla. Como é possível que um judeu, Jesus, Se dirija a uma pessoa da Samaria? Mais ainda, por que Ele estaria conversando com uma mulher, especialmente uma com um passado conturbado, como ELe bem sabia? E, finalmente, como é que essa mulher revela a verdade mais profunda da mensagem messiânica?
Qualquer surpresa que experimentamos sempre se deve a um encontro com algo novo, à manifestação de alguma realidade, alguma pessoa, alguma verdade que desconhecíamos até então. Em outras palavras, deve-se a algum tipo de revelação. É isso também que notamos no caso do encontro que estamos analisando.
A mulher samaritana fica surpresa com a presença de um judeu, que rompe as barreiras da incomunicabilidade com seu povo e inicia uma conversa com ela. Ele lhe pede água para beber. Antes que ela possa se recuperar dessa surpresa, depara-se com outra, ainda maior. Ela ouve que a pessoa a quem pediram água está em posição de oferecer a própria “água viva”. Essa surpresa, porém, não foi causada por nenhuma nova revelação, mas pelo fato de tê-la intrigado. “Senhor”, diz ela, “o senhor nem sequer tem um balde, e o poço é muito fundo. De onde o senhor tirou essa água viva?”
“Água viva” significa água corrente. A água de um poço não corre. Portanto, não é “água viva”. Mas não é isso que intriga a mulher samaritana; ela ainda está pensando na água do poço. Sua mente não está em água corrente. E mesmo que estivesse, ela ainda não teria entendido o que Cristo estava dizendo. Por outro lado, quando disse “água viva”, Cristo não Se referia a uma água corrente que sacia a sede do corpo por um curto período, mas à água que cria dentro das pessoas uma fonte inesgotável de vida eterna. Água que elimina a morte.
Pensando ter compreendido as palavras de Cristo, a mulher samaritana pede-lhe que lhe dê essa água mágica, para que se livre da árdua tarefa de buscar água. “Senhor”, diz ela, “dá-me dessa água, para que eu não tenha sede e não precise vir aqui buscar água”. A mulher pensou ter encontrado uma solução fácil para o seu problema. Cristo havia lhe falado sobre água que brotava nas pessoas e se tornava uma fonte de vida eterna. Ela imaginou água natural, que beberia uma vez e depois nunca mais sentiria sede, nem precisaria ir ao poço buscar água.
Enquanto as pessoas se restringirem aos assuntos mundanos, não poderão compreender as verdades eternas e transcendentes. Podem se surpreender, ficar perplexas ou maravilhadas. Podem até esperar soluções mágicas. Mas permanecem presas ao mundo perceptível, limitadas pelo contato físico direto. Lidam com problemas rotineiros do dia a dia. Suas mentes não vão além disso. Seus sentidos espirituais não funcionam. Mesmo que ouçam falar de algo que transcende a sensação direta, algo além das coisas deste mundo, concebem isso em termos sensoriais e de maneira mundana. De fato, têm perguntas, vivenciam surpresas e recebem revelações, mas ainda assim funcionam dentro do espaço e do tempo. Pensam, compreendem e vivem subjugadas à lei da morte e da corrupção.
O obstáculo que impede e paralisa cada pensamento e ação das pessoas, cada surpresa que vivenciam ou revelação que lhes é concedida, é a barreira da morte. Nenhuma revelação, nenhuma invenção, nenhuma arte ou filosofia pode romper essa barreira. Tudo o que conhecemos ou está disponível para nós está “deste lado” dos limites da morte.
A morte não é transcendida pela lógica ou pela argumentação, pela ciência ou pela magia. Todas essas coisas servem a propósitos mundanos. A morte é transcendida por um milagre, pelo maior milagre de todos, a Ressurreição. É por isso que a ressurreição de Cristo é a revelação mais profunda, ou, para sermos mais precisos, a única revelação verdadeira, porque nos abre uma realidade completamente nova. É por isso que cada um dos milagres de Cristo é um sinal, isto é, uma seta que nos aponta ‘para além’ dos limites da morte e da corrupção, para a ressurreição e a eternidade.
Georges Mantzaridis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







