O quarto capítulo do estudo de Jean-Claude Larchet, Transtornos Mentais e Cura Espiritual, é dedicado à “Loucura de Origem Espiritual”. Larchet inicia o capítulo com estas palavras:
Embora, para os Padres da Igreja, uma categoria de doença mental ou forma de insanidade tivesse uma etiologia somática, e uma segunda categoria uma etiologia demoníaca, a terceira categoria é de origem espiritual. Enquanto a primeira tem como causa a nossa natureza (decaída) e a segunda os demônios, o livre-arbítrio do indivíduo é responsável pela terceira, mesmo que a atividade demoníaca e o nosso livre-arbítrio por vezes partilhem a responsabilidade nas duas primeiras situações.
“As doenças mentais de origem espiritual”, escreve Larchet, “não devem ser confundidas com as próprias doenças espirituais”. Para os Padres da Igreja, “uma parte importante dos transtornos hoje considerados puramente psíquicos tem, na verdade, a ver com o reino espiritual. Nesse sentido, a nosografia e o tratamento das doenças espirituais abrangem, mas vão além da psicopatologia”. Ao comparar a perspectiva psiquiátrica moderna com a dos Padres da Igreja, podem-se destacar os seguintes pontos.
1) Certos problemas examinados pela nosografia moderna padrão parecem estar relacionados ao que a nosologia patrística chamava de paixão do orgulho. A psiquiatria moderna, embora não desconheça o caráter patogênico dessa atitude, a dissociou de sua dimensão moral e espiritual, designando-a, na maioria das vezes, como uma “autovalorização” ou “hipertrofia do ego”. Essa atitude está presente em alto grau nas psicoses paranoides. Também é encontrada na histeria. Muitas das dificuldades em manter relacionamentos – um sintoma presente na maioria das neuroses – podem estar relacionadas a ela. (…)
2) A ansiedade e a angústia presentes na maioria das psicoses, bem como em todas as neuroses, podem ser relacionadas, em parte, ao que os Padres consideravam ser a paixão do medo e da tristeza.
3) A agressividade encontrada na maioria das neuroses e em certas psicoses pode ser relacionada à paixão da “raiva”, no sentido amplo que a definimos.
4) A debilidade, um sintoma comum a muitas doenças mentais, corresponde de perto a um dos componentes essenciais da acídia.
5) Os sintomas depressivos, encontrados em muitas neuroses e psicoses, podem ser diretamente relacionados à acídia e à tristeza.
6) Além desses sintomas, diversas síndromes parecem estar ligadas às paixões na nosologia espiritual.
7) As fobias neuróticas parecem ter alguma conexão com a paixão do medo; além disso, são geralmente definidas como “medos agonizantes”.
8) A neurose de ansiedade pode ser compreendida em relação à paixão da tristeza, mas também e sobretudo ao medo.
9) A melancolia psicótica pode estar, em certa medida, relacionada tanto à acídia quanto à tristeza, especialmente em sua forma extrema de “desespero”.
Sem dúvida, a relação mais próxima e direta pode ser estabelecida entre a acídia e a tristeza da nosologia patrística e as diferentes formas de depressão. Essa relação também não deixou de atrair a atenção de alguns psiquiatras que, recentemente, dedicaram diversos estudos a esse tema. E sua importância justifica que repitamos os pontos essenciais da análise que dedicamos a essas duas paixões, limitando-nos, porém, às suas dimensões e efeitos psíquicos.
Larchet começa com uma consideração da nosologia da tristeza, escrevendo: “A tristeza (lupe) parece ser um estado de alma que, além do significado simples da palavra, envolve desânimo, debilidade, peso psíquico e pesar, abatimento, angústia, opressão e depressão, muitas vezes acompanhados de ansiedade e até mesmo de angústia. Larchet observa as seguintes causas para a tristeza: a frustração de desejos, raiva, tristeza sem motivo e atividade demoníaca. Larchet então se volta para uma discussão da nosologia da acídia, que ele escreve: “é semelhante à tristeza, e a tal ponto isso ocorre que São Gregório o Grande, o inspirador da tradição ascética no Ocidente, une as duas paixões, acídia e tristeza, em uma só. A tradição ascética oriental, no entanto, distingue entre elas.”
Larchet começa com uma consideração da nosologia da tristeza, escrevendo: “É semelhante à tristeza, e a tal ponto é esse o caso que São Gregório o Grande, o inspirador da tradição ascética no Ocidente, une as duas paixões, acídia e tristeza, em uma só. A tradição ascética oriental, no entanto, distingue entre elas.”
O tratamento da tristeza, mais do que de outras paixões, “pressupõe a consciência de que se está doente e de que se deseja a cura”. A primeira causa possível da tristeza “é a frustração de um prazer existente ou antecipado, e mais precisamente a perda de algum bem sensível, a frustração de algum desejo ou a decepção com alguma esperança mundana”; um segundo caso de tristeza é a raiva, “quer ela decorra da tristeza ou seja consequência de alguma ofensa sofrida, frequentemente assumindo, nesse caso, a forma de rancor”. Tratar a acídia é ainda mais difícil, pois “ela tem a peculiaridade de apoderar-se de todas as faculdades da alma e inflamar quase todas as paixões”. O tratamento se dá por meio da resistência, da paciência, da esperança, da dor e das lágrimas, da lembrança da morte, do trabalho manual e, sobretudo, da oração.
blog ORA et LABORA
tradução de monja Rebeca (Pereira)





