Verdade
Passmos pelo fogo e pela água em nossa rebelião contra o mundo. Lutamos contra seus caminhos perversos por meio de nossa música, arte e filosofia de vida. Fomos lançados nas trevas e agora estamos à sombra da morte. A juventude do Apocalipse deve se levantar; devemos encarar o inimigo e vencê-lo.
O primeiro passo que devemos dar é reconhecer o inimigo pelo que ele é e olhá-lo nos olhos. Estamos lutando contra a máquina do Niilismo. O profeta louco do Niilismo, Friedrich Nietzsche, definiu o Niilismo em sua forma absoluta: “Que não há verdade; que não há ‘coisa em si’. Somente isto é Niilismo, e do tipo mais extremo.” É a esse fim do Niilismo que o mundo chegou hoje. Este é o abismo das trevas; pois sem verdade não há luz.
A afirmação “não há verdade” é, em si mesma, uma afirmação metafísica. Ela não é feita a partir do conhecimento sensível e não pode ser provada. Antes, é uma confissão de fé na falsidade.
Que “não existe um estado absoluto das coisas” é, em si, uma afirmação absoluta com sua própria pretensão de verdade. Ao reivindicar sua própria verdade absoluta de que não há verdade absoluta, o Niilismo se contradiz e prova sua total falsidade.
Em tal filosofia niilista, ou mais precisamente, fé na falsidade, resta apenas uma vaga “esperança” em uma “verdade relativa”. Contudo, se olharmos para o critério moderno de verdade do homem — a ciência — o conceito de “verdade relativa” é aniquilado. Se não houvesse princípios absolutos de verdade desde o início, não haveria critério algum pelo qual classificar algo como conhecimento ou verdade.
A ciência revelou muito sobre como o mundo físico é governado. Apesar de suas descobertas, porém, as questões mais fundamentais permanecem sem resposta: como a vida começou e como o universo foi criado continuam sendo um mistério. A “teoria do Big Bang” não chega ao cerne da questão, pois pressupõe um mundo de matéria. De onde vieram as partículas elementares? É uma lei científica da natureza que a matéria não pode ser criada nem destruída. Este é o paradoxo da ciência: aqui estamos nós, mas como chegamos aqui? Por que existe algo em vez de nada? Se a matéria não pode ser criada nem destruída, então, desde sua criação, o universo só pode ter mudado. Sua criação deve ter sido sobrenatural. Aqui o homem e suas ciências encontram seu limite, e começa a ciência da metafísica. Agora devemos questionar tudo o que tomamos como garantido. Se a ciência não pode responder às questões mais profundas sobre nossa existência, quem responderá?
Os cientistas contemporâneos estão sem qualquer apelo final. Possuem grande inteligência, mas estão completamente perdidos em um labirinto de teorias sobre existência, vida e morte, a tal ponto que tudo o que podem fazer é formular perguntas de maneira profunda. Um dos cientistas e pensadores mais avançados e populares, Stephen Hawking, chega a perguntar:
“Se descobrirmos uma teoria completa, ela deverá, com o tempo, ser compreensível em princípio amplo por todos, não apenas por alguns cientistas. Então filósofos, cientistas e pessoas comuns poderão participar da discussão sobre a questão do porquê; de por que nós e o universo existimos. Se encontrarmos a resposta para isso, será o triunfo final da razão humana — pois então conheceremos a mente de Deus.”
Olhando para a ciência e para a natureza, só conseguimos ver as verdades da física reveladas no universo. Princípios como a gravidade ou as Leis do Movimento de Newton são “leis” ou “verdades” absolutas que não são mutáveis. As multidões de fenômenos que ocorrem no universo não são “relativas”, mas resultados definidos de leis ou “verdades” específicas da natureza.
Ao examinar os princípios da natureza que governam o mundo físico, duas coisas se tornam claras: (1) o universo é sustentado por um princípio invisível de verdade; (2) o homem, que faz parte do universo, está totalmente sujeito a essas realidades invisíveis da verdade.
O ponto é que a ideia de “verdade relativa” diz respeito apenas ao entendimento humano da vida, e nada tem a ver com a verdade em si. O homem diz a si mesmo: “Tudo é relativo”, quando não consegue compreender ou não quer despender a energia necessária para entender o mundo ao seu redor. Ele confunde as mudanças do mundo material com os princípios invisíveis de verdade que governam o mundo material. A ideia de “verdade relativa” é uma fuga da questão da verdade. Em última análise, ao proclamar a “verdade relativa”, o homem fica preso a uma mentira que revela a falsidade dentro de si mesmo e nada tem a ver com a questão da verdade absoluta.
No fim, a “verdade relativa” é uma autocontradição, assim como sua mãe, o Niilismo, e é na verdade apenas outra forma de Niilismo disfarçado. Além disso, quem quer que, consciente ou inconscientemente, escolha acreditar no Niilismo o faz não por raciocínio lógico, mas por um ato cego da vontade, em um ato de fé. O Niilismo é a fé da falsidade. Não é apenas pela prova lógica que rejeitamos o Niilismo; rejeitamo-lo também pelos frutos dessa árvore doente — a insanidade e a morte.
A juventude de hoje é uma geração sem raízes, flutuando no lodo da corrupção em um mundo niilista. No entanto, dentro de cada um de nós foi plantada uma semente de verdade que reconhece o lodo de falsidade ao redor. É essa imagem da verdade dentro de nós que acende a rebelião contra o mar de mentiras no qual estamos nos afogando.
A verdade não pode criar raízes na falsidade. Quando essa centelha de verdade morre dentro de nós, nossa rebelião se transforma em um duplo negativo: o ódio não pode expulsar o ódio. Até que nossa rebelião esteja enraizada na verdade, ela não terá sucesso em conquistar o mundo que nos oprime. Se continuarmos a nos rebelar em um espírito de ganância, ira e ódio, derrotaremos a nós mesmos; nos tornaremos, para nós mesmos, exatamente aquele espírito de destruição contra o qual estamos lutando.
Estamos lutando contra o pai da mentira — aquele que permanece quando a verdade está ausente. Estamos lutando contra o Niilismo, o Espírito do Anticristo, cujos frutos produzem loucura, suicídio, escravidão, assassinato e destruição. É essa perversidade espiritual que matou Deus no coração da humanidade.
Mas Deus não está morto. É apenas a alma do homem moderno que está morta. Deus espera de braços abertos para abraçar Seus filhos. Neste momento, a Verdade Perfeita chama todas as vítimas desta era moderna de Niilismo: Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos darei descanso. Apenas buscai-Me.
A Busca
A questão da verdade é uma questão de vida ou morte. É a pergunta que está no fundo de todo coração. Desde o início dos tempos, os filósofos discutem essa questão mais do que qualquer outra. A questão da verdade é, em si, o núcleo de toda filosofia, ciência e religião. Sobre a questão da verdade repousa o sentido da vida e da morte.
A negação do Niilismo e de sua destruição não é, por si só, uma prova completa da verdade. Como percebemos a verdade? A verdade é real ou apenas uma ideia abstrata? Podemos conhecer a verdade? Como a verdade é revelada?
Um prenúncio da revelação da verdade ocorreu na China antiga, onde viveu um sábio chamado Lao Tsé (cerca de 500 a.C.). Ele dedicou sua vida ao estudo da natureza humana e do mundo natural. Após uma vida inteira de contemplação sobre o mistério da vida, Lao Tsé chegou à filosofia do Tao. Tao significa “caminho” ou “via da vida”. Em seu livro, o Tao Te Ching, Lao Tsé escreve de forma poética sobre suas observações de certas verdades da vida reveladas na natureza humana e no mundo natural. Essas observações poéticas revelam a filosofia de um universo sustentado por uma força invisível.
Toca o vazio último;
Permanece firme e em silêncio.
Todas as coisas agem juntas.
Eu as observei retornando
E vi como florescem
E retornam novamente, cada uma às suas raízes.
Isto, eu digo, é a quietude,
Um retorno às próprias raízes;
Ou, melhor ainda, um retorno
À vontade de Deus,
Que é, como vi, a constância.
O conhecimento da constância
Eu chamo de iluminação e digo
Que não conhecê-la
É cegueira que produz o mal.
Mas quando conheces
O que é a eternidade,
Tu tens estatura.
E estatura significa justiça,
E justiça é realeza,
E realeza é divina.
E a divindade é o Caminho,
Que é final.
Então, ainda que morras,
Não perecerás.
Ao expressar fragmentos de verdade, Lao Tsé revela a verdade maior que governa toda a criação. Este é o início de uma compreensão da verdade como um Deus único, invisível e absoluto.
Cem anos depois de Lao Tsé surgiu o filósofo grego Sócrates. Em um mundo dominado por crenças pagãs em múltiplos deuses, Sócrates ensinou a filosofia de um universo sustentado por uma única verdade, uma sabedoria invisível. Em grego, essa compreensão da verdade é expressa pela palavra Logos, que se traduz como “palavra” ou “palavra da verdade”.
Totalmente dedicado ao caminho da sabedoria e da virtude, Sócrates viveu uma vida ascética de abstinência e meditação filosófica, e ensinou uma doutrina de renúncia e da busca da única verdade. Sócrates foi seguido por muitos discípulos que imitaram seu estilo de vida. Por causa de seu modo de vida radical e de sua grande influência entre os jovens, o mundo pagão da Grécia foi agitado, e Sócrates, como um verdadeiro rebelde contra a falsidade, foi perseguido por suas crenças e por sua forma de viver. Por fim, foi levado a julgamento. Foi-lhe dada a escolha entre renunciar à sua filosofia e confessar ideias tolas sobre os deuses pagãos, ou então ser condenado à morte. Sócrates escolheu a morte.
A Alma
Desde o início dos tempos — das antigas religiões dos indígenas da América do Norte aos filósofos gregos da Antiguidade — o homem acreditou na imortalidade da alma.
A alma se revela na constituição interior do homem. O homem pode perceber a natureza imortal de sua alma pelos atributos invisíveis que existem dentro dele:
(1) a consciência, uma voz interior que o guia nas decisões da vida;
(2) a mente, a capacidade de raciocinar com a qual o homem é dotado;
(3) o livre-arbítrio. No dom do livre-arbítrio, todos os atributos invisíveis se unem. A vontade é a ação do espírito. O homem usa sua consciência, sua mente e seu coração para decidir o que deseja fazer. Pelo livre-arbítrio o homem possui liberdade: liberdade para criar ou destruir; liberdade para viver ou morrer; liberdade para amar ou odiar.
(4) o coração. A capacidade do homem para sentimentos espirituais como fé, esperança e amor revela sua natureza imaterial.
Por fim, o homem tem consciência do seu ser; ele reconhece sua existência e seu livre-arbítrio. E assim, se estudar as qualidades invisíveis dentro de si, poderá perceber uma natureza espiritual e imortal — a alma.
Em Lao Tsé e em Sócrates vemos a alma humana estendendo-se para alcançar a verdade eterna. No Tao e no Logos, a filosofia humana atinge seu ápice e, ainda assim, a alma não se satisfaz: a percepção de que o mundo criado é governado por uma força invisível e eterna, perfeita e além da compreensão humana. Essa força é a Fonte e a Causa da vida. Esta é a percepção de Deus — o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.
A Existência de Deus
A verdade de Deus não pode ser percebida apenas pela mente. Como Deus é imaterial, não pode haver prova científica ou matemática de Sua existência. A fé em Deus exige um ato de vontade para crer. É por isso que a existência de Deus jamais será plenamente provada ou refutada. O homem é forçado a usar a faculdade espiritual da fé. Isso está de acordo com a infinita sabedoria de Deus — o homem é levado a usar sua natureza espiritual para perceber Deus, que é Espírito. E o que é fé? Fé é amor.
A fé pode ser descrita como o esforço unificado da mente (razão), do coração (sentimento) e do livre-arbítrio para compreender aquilo que é inacessível à mente por si só. O místico russo João de Kronstadt, que viveu na virada do século, certa vez afirmou:
A fé é a certeza da verdade espiritual, Daquele que É, ou de Deus; da existência do mundo espiritual com todas as suas propriedades, do mesmo modo que estamos certos do mundo material com todas as coisas que lhe pertencem.
Na fé, que é amor, começamos a nos aproximar do Criador. De fato, a perfeição de propósito no mundo físico revela a sabedoria da Causa da criação. Ao observar a criação do Criador — o mundo natural — a Mente por trás do universo é revelada. Por que as aves voam para o sul no inverno? O que faz o girassol seguir o caminho do sol, absorvendo seus raios vivificantes? Quem faz surgir uma árvore inteira a partir de uma pequena semente lançada na terra? A beleza da criação proclama a Beleza do Criador, que está além da compreensão. A natureza é a tela do Mestre Artista. Montanhas, mares, rios e todas as criaturas vivas glorificam Aquele que as formou.
A alma, por natureza, busca a verdade, busca Deus — e ao olhar para a criação, a alma pode perceber uma beleza e uma sabedoria que revelam os atributos da verdade e do Criador. Este é um modo pelo qual o homem pode perceber Deus. Mas a busca não termina com a percepção de Deus; ela continua à medida que a alma começa a conhecer Deus.
O grande Atanásio do Egito, do século IV, descreve esse primeiro passo do entendimento do Criador:
Pois de que serviria a existência à criatura se ela não pudesse conhecer o seu Criador? Como poderiam os homens ser seres racionais se não tivessem conhecimento do Verbo e da Razão do Criador, por meio de quem receberam o seu ser? Eles não seriam melhores do que os animais se não tivessem conhecimento senão das coisas terrenas; e por que Deus os teria criado, se não tivesse pretendido que O conhecessem?
Então a humanidade começa a esperar uma revelação direta de Deus, sabendo que o entendimento humano é imperfeito e limitado. Somente então Deus revelará a plenitude da verdade.
St. Herman of Alaska Brotherhood
Tradução do Diácono André Souza







