COMENTÁRIO
Portanto, como ficou demonstrado que a oração é a demanda de bens que o Verbo encarnado concede, avancemos com confiança, aproximando-nos d’Aquele que nos ensina as palavras da prece e pondo cuidadosamente a nu pela contemplação, na medida do possível, o sentido de cada palavra, como o próprio Verbo costuma fazer para nosso bem dando a compreender o poder do pensamento daquele que fiz:
“Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Teu Nome,
venha a nós o Teu Reino[22]”.
Com estas palavras, o Senhor ensina aos que oram a iniciar como convém pela teologia e os ensina no mistério como existe a causa criadora dos seres, Ele que é, por essência, a causa dos seres. As palavras da oração apontam, com efeito, o Pai, o Nome do Pai e o Reino do Pai, para que aprendamos a partir da origem mesma a venerar, invocar e adorar a Trindade una. Pois o Nome de Deus Pai, este Nome que existe essencialmente, é o Filho Único. E o Reino de Deus Pai, este Reino que existe essencialmente, é o Espírito Santo. Aquilo que aqui Mateus chama de Reino, outro evangelista denomina algures de Espírito Santo, ao dizer: “Que venha o Espírito Santo e que Ele nos purifique[23]”. Com efeito, o Pai não adquiriu seu nome na seqüência, e tampouco nós concebemos o Reino como uma dignidade considerada depois dele. Ele não começou a ser, para começar também a ser Pai ou Rei. Mas Ele é sempre, e é igualmente sempre Pai e Rei, pois não precisou absolutamente começar a ser, nem começar a ser Pai ou Rei. Ora, se Ele que é sempre, é sempre Pai e Rei, então o Filho e o Espírito Santo sempre existiram na essência do Pai. Eles são naturalmente d´Ele e estão n´Ele, para além da causa e da razão, mas não depois d´Ele, como vindos a seguir a partir de uma causa. Pois a relação possui a faculdade de mostrar simultaneamente: ela não permite que sejam considerados um após outro aqueles dos quais ela é e é chamada de relação.
Portanto, ao iniciarmos nossa oração somos conduzidos a honrar a Trindade consubstancial e supra-essencial como causa criadora de nossa gênese. Além disso, aprendemos a anunciar para nós mesmos a graça da filiação, uma vez que somos considerados dignos de chamar de Pai, pela graça, Aquele que nos criou por natureza. Assim, reverenciando a invocação d’Aquele que nos engendrou pela graça, nos esforçamos para transparecer na vida que levamos as marcas d’Aquele que nos fez nascer: santificamos Seu Nome sobre a terra, o imitamos como a um Pai, nos mostramos filhos Seus por nossos atos e glorificamos naquilo que pensamos e fazemos o Filho do Pai por natureza, o qual opera esta filiação. Ora, nós santificamos o Nome do Pai pela graça nos céus mortificando, claramente, o desejo provocado pela matéria e nos purificando das paixões corruptoras, pois a santificação é a total imobilidade e a mortificação da concupiscência dos sentidos. Quando atingimos esta condição, apaziguamos os mugidos inconvenientes do ardor, pois não temos mais a concupiscência para excitá-lo e persuadi-lo a defender nossos prazeres: a concupiscência foi mortificada pela santidade conforme a razão. Pois o ardor que, por natureza, vinga a concupiscência, cessa de ser furioso quando a vê mortificada.
É assim com todo o direito que, pela rejeição do ardor e da concupiscência chega, seguindo-se à prece, o poder do Reino de Deus Pai para aqueles que, depois de despojados, são considerados dignos de dizer: “Venha a nós o Teu Reino”. Vale dizer, o Espírito Santo, pois, graças à razão e ao modo da mansidão, estes já se tornaram templos de Deus pelo Espírito[24]. De fato, foi dito: “Sobre quem repousarei Eu, senão sobre aquele que é manso e humilde e que teme Minhas palavras?[25]” Daí fica claro que o Reino de Deus Pai pertence aos humildes e aos mansos, conforme foi dito: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra[26]”. Não se trata desta terra colocada pela natureza no meio do universo que Deus prometeu como herança aos que O amam, se é verdade o que Ele disse: “Quando eles ressuscitarem, já não tomarão esposos e esposas, mas serão como os anjos nos céus[27]”, e também: “Venham, benditos de Meu Pai, herdem o Reino que vos foi preparado desde a fundação do mundo[28]”. Também foi dito a um outro que havia servido com benevolência: “Entre na alegria do Senhor[29]”. E segundo o Apóstolo divino: “Pois a trombeta soará, os que estão mortos em Cristo ressuscitarão primeiro, incorruptíveis. Depois nós, os vivos, que permanecemos, seremos arrebatados com eles para as nuvens, ao encontro do Senhor no espaço, e assim estaremos sempre com o Senhor[30]”.
Uma vez que são estas as promessas feitas aos que amam o Senhor, quem jamais poderá dizer – se for conduzido pelo Verbo e se desejar ser servidor do Verbo – que o céu, o Reino preparado desde a fundação do mundo, a jóia misteriosamente oculta do Senhor e, para os que são dignos, o fato de que permanecerão resolutamente e sem descontinuidade junto ao Senhor, são coisas semelhantes à terra? Agora, no entanto, penso poder afirmar que a terra consiste no estado e na potência firmes e imutáveis suscitados pela beleza da retidão dos mansos, pois ela está sempre com o Senhor, ela carrega uma alegria incessante, ela conquistou o Reino preparado desde a origem e foi tornada digna do lugar e da ordem do céu, tal qual uma terra cujo posto no meio do universo é a razão da virtude, segundo a qual o homem manso que está no meio permanece impassível entre o louvor e a difamação, nem inchado pelos elogios, nem entristecido pelas difamações. Pois depois de haver afastado o desejo destas coisas das quais ela é livre por natureza, a razão já não sente seus ataques quando elas a perturbam: ela descansou de sua agitação e transportou toda a potência da alma para o porto da liberdade divina desembaraçada de toda e qualquer ação, esta liberdade que o Senhor desejava transmitir aos seus discípulos. Ele disse: “Carregai Minha carga e aprendam co´Migo que sou manso e humilde de coração, e encontrareis o repouso de vossas almas[31]”. Ele chamou de repouso a potência do Reino divino, esta potência que suscita naqueles que são dignos uma soberania livre de qualquer servidão.
Ora, se a potência indestrutível do Reino em estado puro é dada aos humildes e aos mansos, quem seria a tal ponto sem amor e sem desejo dos bens divinos para não tender ao extremo para a humildade e a mansidão, a fim de se tornar a marca do Reino de Deus – na medida em que isto é possível ao homem – levando em si aquilo que, pela graça, lhe dá uma forma espiritual semelhante à de Cristo, o qual é naturalmente por essência o grande Rei? Quando adquirimos esta forma, diz o Apóstolo divino, “não há mais homem nem mulher[32]”, ou seja, nem ardor nem concupiscência. O ardor empurra tiranicamente o pensamento e o faz afastar-se da lei da natureza da reflexão. E a concupiscência desvia o desejo para aquilo que está depois da causa, ao invés de orientá-lo para a causa única e para a natureza única, que é a única desejável e impassível. Ao fazer isto, ela concede à carne mais honrarias do que ao espírito e encontra mais delícias no desfrutar do visível do que na glória e no esplendor do inteligível: pela doçura do prazer dos sentidos, ela afasta o intelecto da percepção divina inata dos inteligíveis.
Mas quando alcançamos uma forma semelhante à de Cristo, não resta mais do que a razão somente, a qual, por um acréscimo de virtude, se despoja até o fim da ternura e da afetividade pelo corpo, que são impassíveis, mas que também são naturais. A partir daí, o espírito domina perfeitamente a natureza e convence o intelecto a abandonar a filosofia moral e a se unir ao Verbo supra-essencial pela contemplação simples e indivisível, ao mesmo tempo em que contribui naturalmente para que o intelecto se separe facilmente das coisas que escoam no tempo. Uma vez ultrapassadas estas coisas, não cabe mais impor como um manto um caminho ético para aquele que se mostrou separado do sensível.
É isto o que quis dizer claramente o grande Elias quando, por suas ações, mostrou em imagens este mistério[33]. Quando ele foi arrebatado ao céu, ele deu seu manto a Eliseu (ou seja, a mortificação da carne, por meio da qual ele assegurou a magnificência da boa ordem moral) para que assistisse o espírito no combate contra as potências adversas e para bater a natureza instável que escoava – esta natureza cuja imagem é o Jordão – a fim de que não fosse impedido de passar para a terra santa o discípulo engolido por tudo o que há de confuso e escorregadio na tendência para as coisas materiais. Quanto a ele, avançou na direção de Deus, liberto, totalmente desembaraçado daquilo que o ligava aos seres, simples em seu desejo e sem nenhuma composição em sua vontade, para estabelecer sua morada junto d’Aquele que é simples por natureza, por intermédio das virtudes gerais unidas entre si, atreladas ao conhecimento como cavalos de fogo. Ele sabia, com efeito, que o discípulo de Cristo devia se afastar das disposições desiguais cujas diferenças estabelecem o caráter alienante, pois a paixão da concupiscência provoca um empanzinamento ao redor do coração e o movimento do ardor faz manifestamente ferver o sangue. Alcançando o movimento, a vida e o ser de Cristo[34], ele afastou de si as coisas desiguais e estrangeiras (pois já não trazia em si as disposições passionais, estas disposições contrárias de que falei, que são como homem e mulher) a fim de a razão não fosse submetida a estas coisas, alterada por suas mudanças instáveis, ela na qual foi naturalmente infundida a santidade da imagem divina para persuadir a alma a se transformar por sua vontade na semelhança de Deus e pertencer ao grande Reino que está em sua essência com Deus Pai de todas as coisas, como uma morada luminosa do Espírito Santo, morada que recebe, se podemos nos exprimir assim, o poder de conhecer a natureza divina, na medida em que isto é possível. Por este poder desaparece naturalmente a origem do inferior e subsiste naturalmente a origem do superior, a alma, semelhantemente a Deus, guardando intacta em si mesma pela graça de sua vocação a hipóstase dos bens que lhe foram dados. E por este poder, Cristo nasce sempre, como quer, misteriosamente, encarnando-se através daqueles a quem salva: Ele faz da alma grávida uma mãe virgem, que não traz, para dizê-lo em poucas palavras, como na relação entre homem e mulher, as marcas da natureza submetida à corrupção e à geração.
Que ninguém se espante de ver a corrupção vir antes da geração. De fato, se examinarmos sem paixão e com razão direita a natureza daquilo que nasce e daquilo que morre, veremos claramente que a geração extrai sua origem da corrupção e depois termina na corrupção. Ora, as paixões que são os sinais da corrupção – essas paixões de que falei – Cristo (ou seja, a vida e a razão de Cristo e segundo Cristo) não as tem, pois é verdade o que foi dito: “Pois em Jesus Cristo não existe homem nem mulher”, mostrando assim, com toda evidência, os sinais e as paixões da natureza submetida à corrupção e à geração. Existe apenas uma razão semelhante a Deus, suscitada pelo conhecimento divino, e um movimento único da vontade que escolhe apenas a virtude.
“Nem grego, nem judeu[35]”. Grego e judeu significam concepções diferentes, ou, para falar mais exatamente, opostas, da crença em Deus. Uma introduz com fartura uma multidão de origens e divide a origem única em energias e potências opostas: torna-se um culto politeísta em plena dimensão, tão numerosos são os deuses adorados, e risível, tantos e tão diversos são os modos de adoração. A outra introduz uma origem única, mas estreita e imperfeita, quase inconsistente, como que desprovida de razão e de vida. Indo em sentido contrário, ela cai num mal idêntico ao da primeira concepção: o ateísmo. Ela limita a uma só pessoa a origem única, que existe sem o Verbo e sem o Espírito, ou que foi suscitada pelo Verbo e o Espírito. Ela não enxerga que tipo de Deus é este Deus provado de Verbo e de Espírito, ou de que modo ele é Deus se tem parte no Verbo e no Espírito como acidentes, por uma participação próxima daquela dos seres racionais submetidos à geração.
Como eu disse, nenhuma destas concepções está em Cristo. Nele não existe mais do que uma concepção de verdadeira piedade e uma sólida lei de teologia mística, que recusa distender a divindade, como a primeira concepção, e que não aceita reduzi-la, como a segunda. Assim, não existe nem dissensão pela natural pluralidade, como entre os gregos, nem submissão à unidade da hipóstase, como entre os judeus, dentre os quais, privado do Verbo e do Espírito ou suscitado pelo Verbo e pelo Espírito, o divino não é venerado como Inteligência, Verbo e Espírito. A nós que, pela vocação da graça segundo a fé, fomos introduzidos no conhecimento da verdade, a concepção cristã ensina a saber que a natureza e a potência da divindade são únicas, e que, portanto, existe um só Deus, contemplado no Pai, no Filho e no Espírito Santo: Inteligência única, sem causa, existente por essência, que engendrou o Verbo único, sem começo, existente por essência, e que é fonte da vida eterna única, existente por essência, como Espírito Santo, Trindade na Unidade e Unidade na Trindade.
Não como um outro dentro de um outro, pois a Trindade não está contida na Unidade como um acidente está contido na essência, e, inversamente, a Unidade tampouco está com tida na Trindade como acidente, pois ela não possui qualidade própria.
Nem como um outro e um outro: pois a Unidade não difere da Trindade por uma diferença de natureza, uma vez que Sua natureza é simples e única.
Nem como um outro que se segue a outro: pois a Trindade não Se distingue da Unidade por um relaxamento da potência, nem a Unidade se distingue da Trindade por este mesmo relaxamento; Ela não difere dela também como algo de comum e de semelhança geral entre partes e que não pudesse ser contemplada senão por um pensamento único, pois Ela é uma essência que existe propriamente por Si mesma, e uma potência que possui em Si Sua própria força.
Nem como um outro a partir de um outro: pois a Trindade não provém da Unidade, pois Ela não é engendrada e gera a Si mesma.
Afirmamos e acreditamos que uma só coisa é em verdade Unidade e Trindade. Ela é Unidade em razão da essência. E é Trindade pelo modo de existência. Uma só coisa é inteiramente Unidade, sem ser partilhada pelas hipóstases; e ela mesma é inteiramente Trindade, sem que Se confunda com a Unidade. Assim, o politeísmo não é introduzido pela divisão, nem o ateísmo pela confusão. Fugindo a uma e outra, resplandece a concepção cristã. Chamo de concepção cristã a nova proclamação da verdade: “Nele não existe homem nem mulher”, ou seja, nem os sinais nem as paixões da natureza submetida à corrupção e à geração. “Não existe grego nem judeu”: não existem concepções opostas da divindade. “Não há circunciso nem incircunciso”, portanto não existem cultos correspondentes a estas concepções: um – o culto da circuncisão – através dos símbolos da Lei, considera que a criação visível é má e acusa o Criador de ser o autor dos males; o outro – o culto da incircuncisão – através das paixões, deifica a criação e subleva a criatura contra o Criador. Ambos desembocam no mesmo mal: o ultraje a Deus. “Não há bárbaro nem cita”, ou seja, não existe distensão da vontade que leva a natureza única a se voltar contra si própria, esta distensão por cuja causa introduziu-se entre os homens a lei contra a natureza que os leva a se destruírem mutuamente. “Não existe escravo nem homem livre”, ou seja, não há divisão da mesma natureza de encontro à vontade, pois a divisão traz consigo o desprezo por aquele que por natureza é digno da mesma honra; ela traz em si, como uma lei que a confirma, a tendência dos mestres despóticos de tiranizar a imagem de Deus. Mas “Cristo é tudo em todos[36]”, Ele que, por intermédio daquilo que ultrapassa a natureza e a lei, suscita no Espírito a formação do Reino sem começo, formação assinalada naturalmente pela marca da humildade e da doçura de coração, como foi demonstrado, e cuja reunião significa o homem perfeito criado segundo Cristo. Com efeito, todo homem humilde é também manso, e todo homem manso é humilde. Ele é humilde, porque sabe que o ser lhe foi emprestado; e ele é manso, porque sabe utilizar as potências da natureza que lhe foram dadas. Ele coloca estas potências a serviço da razão para engendrar a virtude. E ele reduz com perfeição sua atividade nos sentidos. É por isso que em seu intelecto ele está em permanente movimento para Deus, mas não produz nenhum movimento nos sentidos quando experimenta simultaneamente todas as coisas que afligem o corpo, nem imprime em sua alma traço algum de tristeza para substituir o estado de bem-aventurança que reside nela. Pois ele não considera que a dor dos sentidos seja uma privação do prazer. Ele só conhece um prazer: a vida em comum da alma com o Verbo, cuja privação sim é um tormento que não tem fim e que engloba naturalmente todos os séculos. É por isso que, abandonando este corpo e tudo o que é do corpo, ele se dirige intensamente para a vida em comum com Deus. De fato, ele considera como o único dano, ainda que fosse ele mestre de tudo o que há sobre a terra, perder a deificação pela graça, esta deificação que ele espera acima de tudo.
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[22] Mateus VI, 9-10.
[23] Lucas XI, 2, de acordo com determinados manuscritos.
[24] Cf. Efésios II, 21-22.
[25] Isaías LXVI, 2.
[26] Mateus V, 4.
[27] Mateus XXII, 30.
[28] Mateus XXV, 34.
[29] Mateus XXV, 21.
[30] I Tessalonicenses IV, 16-17.
[31] Mateus XI, 29.
[32] Gálatas III, 28.
[33] Cf. II Reis II.
[34] Cf. Atos XVII, 28.
[35] Gálatas III, 28; Colossenses III, 11.
[36] Para o conjunto destas citações, cf. Colossenses III, 11 e Gálatas III, 28.
São Máximo, o Confessor
tradução de Tito Kehl







