BREVE INTERPRETAÇÃO DO PAI-NOSSO – PARTE 1

Foi você mesmo, meu mestre guardado por Deus, a quem eu recebi, você que me assiste com suas cartas dignas de todo louvor, que está sempre presente e que não pode jamais estar ausente pelo Espírito, mas que, imitando a Deus, não recusa ajudar seus servidores na abundância de sua virtude e através da irradiação que Deus lhe deu por natureza. Por isso, admirando a grandeza de sua compaixão, eu fiz com que meu temor diante de você se misturasse com a afeição. E dos dois, do temor e da afeição, eu suscitei um único amor formado de pudor e bem-aventurança, a fim de que o temor desprovido de afeto não se tornasse aversão e que o afeto, por não estar unido ao temor, não se tornasse engano. Assim, o amor aparece como uma lei interior de ternura unindo tudo o que é aparentado por natureza: pela bem-aventurança ele domina a aversão, e pelo pudor afasta o engano. Sabendo bem que ele – refiro-me ao temor – religa ao amor divino mais do que tudo, o bem-aventurado David disse: “O temor ao Senhor é puro, ele permanece pelos séculos dos séculos[1]”. Ele sabia, com toda evidência, que este temor é diferente daquele que é causado pelo medo do castigo quando somos acusados de ter cometido faltas, pois é verdade que esta segunda forma de temor é afastada e apagada pela presença do amor, como o demonstra algures as palavras do grande evangelista João que diz “O amor afasta o temor[2]”, e que a primeira forma de temor caracteriza a lei da verdadeira ternura, guardando para sempre, pelo pudor, no coração dos santos, totalmente incorruptíveis, a lei e o modo do amor de Deus e o amor fraternal.

Assim é que eu também, como disse, misturei o afeto ao temor que tenho diante de meu mestre, e suscitei esta lei do amor até hoje. Por pudor, abstive-me de escrever, para não dar chance ao erro, mas, pela bem-aventurança, eu fui forçado a escrever, para que a recusa total em escrever não seja considerada como aversão. Pressionado a fazê-lo, eu escrevi, não o que eu penso, mas o que Deus quer e concede por graça para que nos aconteça o que é melhor para nós. Pois “os desígnios do Senhor, diz Davi, permanecem eternamente, e os pensamentos de seu coração de geração em geração[3]”. Sem dúvida, ele chama de “desígnio” de Deus a inefável kénose[4] do Filho único em vista da deificação de nossa natureza, esta kénose por meio da qual ele carrega em si o fim de todos os séculos. E ele chama de “pensamentos de seu coração” as razões da providência e do juízo, segundo as quais ele dirige com sabedoria, como gerações distintas, nossa vida presente e nossa vida futura, assinalando respectivamente a cada uma o modo de ação que lhe convém.

Mas se a obra do desígnio de Deus é a deificação de nossa natureza, e se o objetivo dos pensamentos divinos é levar nossa vida ao termo daquilo que pedimos, então é útil conhecer e praticar, e portanto escrever como se deve o poder da oração do Senhor. Ora, como, levado por Deus ao escrever a este servidor, meu mestre mencionou esta oração, tornei-a o tema de minhas palavras e pedi ao Senhor que nos ensinou esta prece que abrisse meu intelecto à compreensão dos mistérios presentes nela e me desse uma palavra na medida da claridade daquilo que esta oração significa. Pois ela engloba inteiramente o objetivo que mencionei, este objetivo misteriosamente oculto, ou, para falar com mais propriedade, proclamado manifestamente por aqueles cuja inteligência é forte.

As palavras da oração contêm, de fato, tudo o que o Verbo de Deus, por Sua própria kénose, cumpriu na carne[5]. Elas ensinam a se apropriar desses bens que, em verdade, no Espírito Santo, somente Deus Pai nos dispensa, pela mediação natural do Filho, pois o Senhor Jesus é “o mediador entre Deus e os homens[6]”, segundo o Apóstolo divino. Por Sua carne, Ele tornou manifesto aos homens o Pai ignorado[7]. E ao Pai, pelo Espírito, Ele conduziu os homens com Ele reconciliados[8], estes homens pelos quais e por cuja causa Ele Se tornou homem sem mudança ou transformação. Ele mesmo operou e ensinou aos homens muitos mistérios novos cuja razão não pode ainda ser medida em multidão e grandeza. Podemos enumerar sete deles, que são mais gerais do que os outros, e que, ao que parece, ele deu aos homens na eminência de Sua generosidade. O objetivo visado pela oração, como eu disse, contém misteriosamente a potência destes mistérios: a teologia, a filiação pela graça, a igualdade de honra com os anjos, a participação na vida eterna, o restabelecimento da natureza devolvida a si mesma na impassibilidade e no assentimento, a abolição da lei do pecado e a destruição da tirania do maligno que nos dominou com suas enganações.

Consideremos então a verdade aquilo que dissemos. Com efeito, o Verbo de Deus encarnado nos ensina a teologia, pois Ele nos mostra em Si mesmo o Pai e o Espírito Santo. Pois o Pai inteiro e o Espírito Santo inteiro estavam essencial e perfeitamente no Filho inteiro, mesmo encarnado, enquanto Eles próprios não eram encarnados, mas um queria a encarnação, por Sua benevolência, enquanto o outro a cumpria com o Filho que por Si só a operava, uma vez que o Verbo permaneceu em Seu próprio intelecto e em Sua própria vida, ao mesmo tempo em que não era compreendido na essência por nada outro do que o Pai e o Espírito, quando, por amor ao homem, cumpriu a união na hipóstase da carne.

Ele, o Verbo, deu a filiação, concedendo pelo Espírito, na graça, o nascimento que veio do alto sobrenaturalmente e a deificação correspondente, que estão guardados e conservados em Deus pela escolha daqueles que nascem. Esta escolha afeta a alma que pede uma disposição inata: ela adorna a beleza que a graça dá pela prática atenta dos mandamentos; e pela kénose das paixões, ela se apropria da divindade enquanto o Verbo de Deus, conforme a economia, esvazia voluntariamente a Si mesmo de Sua própria glória sem mistura, ao Se fazer verdadeiramente homem.

Ele tornou os homens dignos de receber a mesma honra que os anjos, não apenas por ter, após haver pacificado pelo sangue de Sua cruz o que está nos céus e na terra[9] e depois de haver batido a inércia das potências inimigas que enchem o espaço entre o céu e a terra, demonstrado que é única a assembléia das potências terrestres e celestes que recebem em partilha os dons divinos, uma vez que a natureza humana, na única e mesma vontade, celebra com alegria, com as potências do alto, a glória de Deus; mas também porque, depois de haver cumprido a economia de nossa salvação e de Se ter elevado com o corpo que havia assumido, uniu em Si o céu e a terra, religou o sensível ao inteligível, e mostrou que a natureza criada é uma, que ela forma um todo unido a si mesmo, até em suas partes extremas, pela virtude e o conhecimento da causa primeira. Assim, Ele quis significar misteriosamente, penso eu, por meio daquilo que Ele cumpriu, como a razão é a união do que havia sido separado, e como a irracionalidade é a divisão daquilo que havia sido unido. E nós aprendemos a nos apropriar da razão pela ação, a fim de nos unirmos não apenas aos homens pela virtude, mas também a Deus, pelo conhecimento, nos destacando dos seres.

O Verbo nos comunicou a vida divina, fazendo a Si próprio alimento, como Ele próprio sabia e como sabiam os que receberam d´Ele este sentido do intelecto, um sentido tal que, provando deste alimento eles souberam por um conhecimento verdadeiro que o Senhor é bom[10], e que, para os deificar, Ele transforma os que comem misturando-os a uma qualidade divina, pois Ele é e é chamado claramente de Pão de Vida e de poder[11].

Ele restabeleceu a natureza devolvendo-a a si mesma, não apenas porque, tornado homem, Ele manteve diante da natureza Sua vontade impassível, calma e imperturbável em Seu próprio fundamento natural, mesmo diante daqueles que O crucificavam, escolhendo por eles a morte ao invés da vida, como o demonstra o caráter voluntário da Paixão, confirmado pela disposição que levou Aquele que sofreu a Paixão a amar o homem; mas também porque Ele “aboliu a inimizade pregando na cruz a caução do pecado[12]”, por cuja causa a natureza guerreava implacavelmente contra si mesma e  porque, depois de haver chamado os que estavam próximos e os que estavam distantes – ou seja, os que estavam sob a Lei e os que não estavam submetidos a ela – e de haver destruído o muro de separação, ou seja, de ter dito o que era a Lei dos mandamentos em seus segredos, Ele criou os dois em um só homem novo, fazendo a paz e nos reconciliando em Si mesmo com o Pai[13] e uns com os outros, para que não tivéssemos mais em nós a vontade oposta  à razão da natureza e que fôssemos imutáveis em nossa vontade como o somos em nossa natureza.

Ele purificou a natureza da lei do pecado, porque não permitiu que o prazer preceda Sua encarnação por nós. Sua concepção foi feita sem semente, paradoxalmente, e Seu nascimento foi sobrenaturalmente feito sem corrupção. Com toda a evidência, o Deus que foi gerado deste modo mais alto do que a natureza encerrou em Sua mãe, com Seu nascimento, os laços da virgindade e libertou toda a natureza do poder da Lei que a dominava, naqueles que O desejam e O imitam em Sua morte voluntária fazendo morrer de encontro aos sentidos seus membros que estão sobre a terra. Pois o mistério da salvação é para aqueles que o desejam, não para os que o recebem.

Ele destruiu a tirania do maligno que nos dominou com suas enganações. Pois, projetando a carne como uma arma contra o maligno, Ele venceu a carne vencida em Adão, a fim de mostrar que esta carne, que havia tomado o fruto e dele recebido a morte, tomou Aquele que a havia dominado e destruiu sua vida pela morte natural; e para mostrar também que ela se tornou para Ele um veneno destinado a lhe fazer vomitar todos os que havia engolido, pois Ele deteve o poder da morte; assim ela se tornou para a raça dos homens uma vida que permite fermentar como uma massa toda a natureza para que a vida ressuscite, esta vida pela qual, justamente, o Verbo, que é Deus[14], Se fez homem (coisa nova e verdadeiramente estranha) e aceitou voluntariamente a morte na carne.

De tudo isto, como eu disse, encontraremos a demanda nas palavras da oração.

Com efeito, ela fala do Pai, do Nome do Pai e do Reino. Ela mostra, de resto, que quem reza é filho deste Pai na graça. Ela pede que aqueles que estão no céu e os que estão na terra provenham de uma única vontade. Ela prescreve pedir o pão épiousios[15]. Ela dá aos homens a lei da reconciliação: e, pelo fato de perdoar e ser perdoado, ela religa a natureza a si mesma para que ela não seja dividida pela diferença das vontades. Ela ensina a se esforçar, pela prece, a não cair em tentação, que é a lei do pecado. E ela exorta a que nos libertemos do maligno. Era preciso, com efeito, que Aquele que cumpriu Ele próprio os bens e os deu aos que acreditaram n´Ele e imitaram Sua conduta na carne, fosse também o que os ensinou como a discípulos, oferecendo-lhes os fundamentos desta vida, as palavras da oração, estas palavras por meio das quais Ele revelou os tesouros ocultos da sabedoria e do conhecimento[16] que permaneciam especificamente n´Ele, uma vez que conduziu com toda evidência para a fruição de Seus tesouros o desejo daqueles que pediram.

É por isso que, penso eu, o Verbo denominou oração este ensinamento que carrega em si o pedido dos dons que, pela graça, Deus concede aos homens. Assim, nossos Pais inspirados por Deus expuseram e definiram a oração dizendo que a prece é uma demanda daquilo que Deus concede naturalmente aos homens conforme lhe apetece. Do mesmo modo, eles expuseram que o voto é uma profissão, ou seja, uma promessa daquilo que os homens oferecem a Deus quando lhe prestam um culto legítimo. E eles estabeleceram que a Escritura dá testemunho disto de muitas maneiras. Ela diz: “Faça seus votos e ofereça-os ao Senhor nosso Deus[17]”, e: “Aquilo que eu prometi, eu Te oferecerei, Senhor[18]”. Isto quanto à promessa. Quanto à oração, ela diz: Senhor Omnipotente, Deus das Potências, se quiseres atender à Tua serva e dar um fruto ao Teu seio[19]”, e “Ezequias, rei de Judá, e o profeta Isaías, filho de Amós, oraram ao Senhor[20]”. E disse o Senhor aos Seus discípulos: “Quando vocês rezarem, digam: Pai nosso que estais nos céus[21]”. Assim, a promessa pode ser a guarda dos mandamentos decidida pela vontade daquele que faz o voto, e a prece pode ser a demanda que aquele que guardou os bens faz para ter parte nos bens que guardou. Ou antes, o voto pode ser o combate pela virtude, que Deus recebe com benevolência, como uma oferenda; e a prece é a recompensa da virtude, que Deus dá em retorno, cheia de alegria.

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[1]  Salmo XIX, 10.

[2]  I João IV, 18.

[3]  Salmo XXXIII, 11.

[4]  Kénose: vacuidade, despojamento de si.

[5]  Cf. Colossenses III, 13.

[6]  Cf. I Timóteo II, 5.

[7]  Cf. João XIV, 9.

[8]  Cf. Efésios II, 18.

[9]  Cf. Colossenses I, 20.

[10]  Salmo XXXIV, 9.

[11]  Cf. João VI, 48; Salmo LXXVII, 25.

[12]  Colossenses II, 14.

[13]  Cf. Efésios II, 14.

[14]  Cf. João I, 1.

[15]  Épiousious: conforme a derivação, pode significar o pão “que vem” ou o pão “supra-essencial”, que é mais do que o ser do mundo.

[16]  Cf. Colossenses II, 3.

[17]  Salmo LXXVI, 12.

[18]  Jonas II, 10.

[19]  I Samuel I, 10-11.

[20]  II Crônicas XXXII, 20.

[21]  Mateus VI, 9-10.

São Máximo, o Confessor
tradução de Tito Kehl

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