Apatia
Quando a insanidade passa a ser vista como “apenas mais um tijolo no muro” e esse muro desmorona, e quando o prazer já não pode mais ser encontrado no sexo, nas drogas e na violência, um estado miserável toma cativo o coração e a alma: a apatia. A apatia é a recusa deliberada de alcançar verdades mais elevadas.
Já não podemos mais confiar no último recurso da “religião” como a desejada “saída” do caminho da destruição. Fomos enganados vezes demais e feridos. Fomos espancados até a morte por todas as diferentes crenças e já não temos interesse na religião “organizada”, pois agora vemos que toda religião “organizada” é apenas mais uma instituição terrena que acaba buscando poder. E, ao buscar poder, muitas vidas foram devastadas. Nós os vimos nos desprezar e os ouvimos nos pregar que, se não nos juntarmos à sua organização, certamente queimaremos no inferno.
Ouvimos sua mensagem de hipocrisia e já não estamos interessados. Alguns pregam pobreza para viver no luxo e na riqueza às custas dos outros; alguns dizem praticar a paz, mas contrabandeiam metralhadoras; alguns acreditam na conversão pela força, enquanto os apóstatas devem ser mortos.
As muitas religiões nos feriram e nos deixaram em completa apatia, e agora nos resta dizer: “Desculpe, meu carma atropelou seu dogma!”. Assim, já não levantamos a cabeça quando mais um circo de “religião” passa por nossa cidade, mas continuamos cabisbaixos. Enquanto todas as diferentes “fés” proclamam ser o único caminho e que o resto do mundo está condenado, agora vemos mais claramente que todas as diferentes “religiões” possuem fragmentos de verdade em maior ou menor grau… Sentados na sala de espera, perguntamo-nos se a verdade sobreviveu a uma guerra assim.
O homem moderno da apatia não tem meios de se comunicar com seu Criador. Ele nem sequer quer ouvir a palavra “Deus”. Ele se irrita só de ouvir essa palavra. Quando a escuta, tudo o que consegue pensar são evangelistas de TV com Cadillacs; e então muda de canal. Pelo menos a TV tira sua mente da sensação de vazio interior. E mesmo que ele não encontre um canal com um programa que estimule sua mente, ainda assim pode mudar de canal. E, se encontrar mais um programa sem sentido, pode mudar de canal novamente. Nenhum programa consegue mais satisfazer a mente jovem; antes, é a antecipação daquele breve momento de esperança experimentado entre um canal e outro que o atrai de volta à tela.
O efeito de uma imagem artificialmente sedutora, que na verdade hipnotiza e entorpece os sentidos, molda o homem moderno e o transforma em um receptor vazio para os pensamentos de “libertação”. Até sentimos que a TV projeta a superficialidade dos valores do mundo e corrompe a mente, e desprezamos a máquina. Ainda assim, continuamos a mudar de canal.
Um homem associado por muitos anos à publicidade de sucesso, Jerry Mander, fez um estudo pessoal sobre os efeitos da televisão. Ele disse que a forma como a imagem televisiva é criada é visual, no “olho da mente”; uma câmera real não a mostraria. O propósito é implantar a imagem diretamente na memória para que ela se torne indistinguível de uma experiência da vida real. Como, então, distinguir a verdade da falsidade e a ilusão de um evento real? A imagem televisiva é deliberadamente feita para mostrar “ação”, “conflito”, “excitação” e a aparência de vida. Tais imagens glamorosas colorem a imaginação e os ideais, especialmente dos jovens e impressionáveis. Aqueles que desejam viver em uma percepção verdadeira da vida são estimulados pela máquina da TV a viver de outra forma e, em certo sentido, são submetidos a uma lavagem cerebral pela profanação da imagem do niilismo.
E quanto àqueles que desejam deliberadamente alcançar verdades mais elevadas? O que será deles no fim? Se sobreviverem ao tédio da “era moderna”, rejeitarem os “santos” do niilismo e lutarem contra a “bem-aventurança da ignorância”, há ainda mais um obstáculo a ser superado: a apatia leva à simpatia — simpatia pelo diabo.
O Oculto
Já que “Deus está morto” e está “sangrando até a morte sob nossas facas”, alguém deve tomar Seu lugar como “mestre”. Em um mundo vazio de experiência mística, alguns buscam uma porta para outro mundo, mas não apenas por meio das insanidades — buscam contato direto. O mundo do oculto parece possuir a chave para essa porta. Para alguns, a chave é o sexo, as drogas ou a violência; para outros, o satanismo. Depois de vasculharmos as cinzas das modas ocultistas de “faz de conta”, veremos duas grandes categorias do oculto: o “soft-core” e o “hard-core”.
O oculto soft-core é basicamente o renascimento fashion do paganismo — culto à natureza e exploração dos poderes naturais pouco conhecidos da alma, como telepatia mental, leitura de auras, tarô, levitação etc. As pessoas são atraídas a isso não por uma rebelião consciente contra Deus, mas por curiosidade e vaidade (o desejo de adquirir poderes especiais ou percepções que as elevem acima das “massas comuns”).
O oculto hard-core é a adoração deliberada de Satanás. Tais pessoas de fato se chamam satanistas. Trata-se de uma rebelião consciente contra Deus, pois não se pode crer em Satanás sem crer em Deus. E não em qualquer Deus, mas especificamente no Deus “cristão”. É a crença de que Deus é o “tirano” do universo e de que Satanás é o melhor amigo do homem, que quer lhe dar liberdade e fazê-lo feliz ajudando-o a obter tudo o que deseja neste mundo. É aqui que as palavras de Dostoiévski e Nietzsche soam verdadeiras até o sacrifício animal e humano. Quando um homem ou uma mulher é iniciado no sétimo grau do satanismo, ele jura que seu princípio será: “Nada é verdade, e tudo é permitido.” Nestes tempos de aniquilação além da desolação, quando a destruição é a “norma”, é óbvio quem é o “mestre”, já que Satanás não pode criar, apenas destruir.
O principal problema com ambos os tipos de ocultismo como “fé” é que eles não têm compreensão do que existe por trás da cortina deste mundo. Na ignorância, brincam com o outro mundo sem qualquer distinção entre os poderes bons e maus que ali existem. O resultado dessa ignorância é que a pessoa que “brinca” com a metafísica, via de regra, acaba acessando o lado maligno, mesmo que essa não tenha sido sua intenção original.
A seguir está o relato de um jovem punk que cresceu em um lar destruído e encontrou uma fuga no ocultismo:
Eu vivia em minhas próprias fantasias e realidades que eu mesmo havia criado. Passei de um garoto “normal” para um punk com um moicano azul e coturnos. Por causa da minha individualidade, fui baleado, esfaqueado e espancado. Um dia, um amigo me convidou para uma espécie de festa. Essa festa consistia em alguns amigos da escola e duas mulheres mais velhas. Foi descrita para mim como amigos sentados conversando, bebendo refrigerante, comendo salgadinhos e jogando jogos.
As duas mulheres mais velhas eram bruxas, e a festa era uma reunião de um coven. Fui então iniciado na prática da Wicca. Caso você não saiba, a Wicca é uma antiga forma de magia druídica dominada pelo feminino. É por isso que eu era chamado de bruxa, e não de bruxo. Progredi bastante rápido e me tornei um praticante. Minha mente afundou em um tipo estranho de delírio e demência. Para mim, era evidente que a insanidade era a experiência suprema. Se você morre, tudo acaba. Se você enlouquece, atravessa a morte sem morrer. Essa era a minha filosofia. Eu me esforçava por isso dia e noite. Minha prática de feitiçaria me levou a muitos lugares novos, principalmente por meio de viagens astrais. Era uma expansão natural do meu mundo de fantasia. Eu era todo-poderoso e tudo me reverenciava nesse mundo que eu havia criado. A sensação de poder é o que mantém alguém na feitiçaria. No mundo real, eu não era nada; na feitiçaria, eu era alguma coisa. Eu me sentia invencível. Eu estava errado.
Certa noite acordei por causa de um forte chamado da bexiga. Era uma daquelas vezes em que você fica deitado na cama, alternando o olhar entre o relógio e a porta, tentando decidir se consegue aguentar até a manhã sem molhar a cama. Decidi me levantar e ir ao banheiro. Então percebi que todo o meu corpo estava paralisado do pescoço para baixo. Na Wicca não há drogas nem álcool. Se alguém fosse pego usando essas coisas, seria expulso do coven. Eu sabia que não havia nada em meu organismo que pudesse causar aquilo. A única explicação a que cheguei foi que algo espiritual estava me atacando. Saí do meu corpo e fiquei suspenso acima dele. Então entrei em choque. Sentados ao meu redor e me segurando estavam cerca de quinze demônios rindo histericamente. Um deles se virou para mim e falou. Disse que eu era o maior idiota que ele havia conhecido em muito tempo. Disse que eu havia sido ensinado sobre o que era certo, mas segui o caminho errado, e agora estava tão fundo nisso que iria para o inferno e não havia saída. Em seguida, ele passou a fazer um acordo comigo. Dois deles vieram até o meu corpo astral e me viraram. Quando fui virado, encontrei-me no inferno. Não há como descrever o que vi, senti e cheirei. Nunca esquecerei. Os rostos.
Eles me devolveram ao meu quarto e me deram o ultimato. Eu poderia me matar e me tornar como eles, passando a atormentar em vez de ser atormentado, ou morrer e ir para o inferno de qualquer forma. Eu escolhi o suicídio. Pouco antes de me deixarem retornar ao meu corpo, eu disse em voz baixa: “Jesus, se Tu estás aí, ajuda-me.” Houve um grande clarão de luz e eles desapareceram. Eu me sentei e comecei a amaldiçoar Deus. Por que Ele me deixou passar por essas coisas? Eu O amaldiçoei por cerca de uma hora enquanto limpava o vômito que meu corpo expeliu durante a experiência. Foi então que, pela primeira vez, ouvi a voz de Deus. Ele disse apenas uma frase simples que me parou imediatamente: “Tudo o que Eu queria era que você pedisse.”
St. Herman of Alaska Brotherhood
Tradução do Diácono André Souza






