No alto do Gólgota, enquanto o céu se obscurecia e a criação tremia diante do mistério da Cruz, um gesto brutal tornou-se, pela providência de Deus, o início de uma cura interior. Um soldado romano, um centurião endurecido pela guerra e pela obediência cega, aproximou-se do Corpo já sem vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e, com a lança, abriu o Seu lado, e imediatamente jorraram sangue e água (cf. Jo 19,34).
A Tradição da Igreja identifica esse homem como Longino. Não era um discípulo, ou um justo segundo os padrões da Lei, não era alguém preparado para reconhecer o Messias. Era, antes, um executor. E, no entanto, naquele momento, ele se torna testemunha de um dos maiores mistérios da nossa fé.
Os Santos Padres contemplam nesse episódio algo mais profundo do que um simples ato físico. O lado aberto de Cristo é a porta da vida, de onde nascem os Sacramentos, a Igreja, e a própria possibilidade da nossa salvação. O sangue e a água não são apenas sinais visíveis, mas revelam o amor que se derrama até o fim.
Segundo a piedade da Igreja, ao tocar o lado do Senhor, o centurião teria sido atingido por esse sangue e essa água, e seus olhos — até então obscurecidos, seja fisicamente ou espiritualmente — foram curados. Aquilo que era instrumento de morte tornou-se ocasião de iluminação. Ele, que havia participado da crucificação, passa a enxergar e, ao enxergar, crê.
É por isso que, em outro momento do Evangelho, ouvimos a confissão que brota de um coração tocado pela graça: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39). Essa é a jornada do centurião: da violência à reverência, da ignorância à fé, da dureza à conversão.
Mas essa história não pertence apenas ao passado. Quantas vezes também nós, com palavras, julgamentos, indiferença ou pecado, “ferimos” o Corpo de Cristo? Quantas vezes nos aproximamos d’Ele não com amor, mas com distração, frieza ou até resistência interior?
E, no entanto, o mesmo Senhor que foi ferido não responde com condenação, mas com misericórdia. Do Seu lado aberto continua a jorrar graça. O mesmo sangue e a mesma água continuam a nos tocar — no Batismo, na Eucaristia, na vida da Igreja.
A grande lição espiritual aqui é simples, mas exigente: não importa quão distante alguém esteja, nem quão endurecido esteja o coração. Um único encontro verdadeiro com Cristo pode transformar tudo. O centurião não começou com fé. Ele chegou à fé. E chegou não por mérito próprio, mas porque se deixou atingir — ainda que de forma inesperada — pela graça que brota da Cruz.
Hoje, nós somos chamados a fazer o mesmo caminho, mas com mais consciência. Não precisamos esperar um momento extremo. Podemos nos aproximar voluntariamente desse lado aberto: na oração sincera, no arrependimento, na participação viva nos mistérios da Igreja.
A pergunta que fica é direta: queremos apenas tocar Cristo de forma superficial, como quem cumpre um dever, ou queremos ser realmente transformados por Ele? Porque quem se deixa tocar pelo sangue e pela água que jorram do Senhor não permanece o mesmo. O centurião prova isso.
Aquele que abriu o lado de Cristo teve, por esse mesmo lado, o coração aberto para a fé.
+ Bispo Theodore El Ghandour







