Antigamente, eu pensava que, se uma pessoa visse um santo, ficaria imediatamente maravilhada, como eu ficava quando via um homem de Deus. Um exemplo seria o Ancião [agora Santo] Paísios, com quem mantivemos contato próximo por tantos anos. As pessoas iam até ele e mudavam só de vê-lo, sem que ele lhes dissesse uma palavra sequer. Outras, porém, iam, e ele tentava convencê-las, mas não fazia diferença alguma. Aliás, muitas se escandalizavam e iam embora, chamando-o de vários nomes desagradáveis, alegando que ele era um feiticeiro ou um faquir, ou que tinha ido à Índia aprender técnicas hindus. Cada um o entendia à sua maneira, porque cada um absorvia o que ele já tinha dentro de si. Por outro lado, víamos pessoas com almas maduras, afastadas da Igreja, mas que tinham receptividade e pureza. Elas realmente compreendiam que a graça de Deus habitava no Ancião. O mesmo acontecia com Cristo. Quando perguntou aos Seus discípulos o que as pessoas diziam d´Ele, colocou-os numa situação difícil. Eles não responderam que alguns O consideravam possuído, um feiticeiro, um bêbado ou um vigarista. Mas disseram que alguns O chamavam de Jeremias, Elias ou algum outro profeta, e que O tinham em altíssima consideração. Então, perguntou o que eles próprios pensavam d´Ele. Pedro respondeu imediatamente que acreditavam que Ele era o Filho do Deus vivo. Cristo, então, disse-lhe que ele era bem-aventurado, pois não havia dito isso com base em informações de terceiros, mas porque o Pai celestial lhe havia revelado. Foi por isso que Cristo disse que edificaria a Sua Igreja sobre aquela rocha, ou seja, sobre aquela confissão, e que os poderes das trevas jamais prevaleceriam contra ela.
Portanto, devemos saber que, desde o momento em que Cristo apareceu, sofreu, foi crucificado, sepultado e ressuscitou por nós, isso vem acontecendo na alma das pessoas. Ao mesmo tempo, o julgamento das pessoas ao redor de Cristo também continua. Este é o julgamento de outras pessoas; em outras palavras, a visão que elas têm do Senhor. Essa visão é a base sobre a qual as pessoas são julgadas. O julgamento será este: se aceitaremos ou não Cristo como Deus encarnado e nosso único Salvador.
No quadragésimo dia após a sua Ressurreição, o Senhor deixou este mundo em corpo e ascendeu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. Naturalmente, este não é um lugar específico. Ou seja, não há um assento ao lado do Pai no qual Cristo esteja sentado. Nem o céu é uma região geográfica; é o reino onde Deus está. As coisas foram expressas nesses termos para que pudéssemos entender que Cristo partiu e levou consigo nossa natureza humana quando ascendeu, visto que ele era tanto Deus quanto homem. Como Deus, Ele sempre esteve com o Pai e jamais Se separou d’Ele, nem por um instante. Tanto quando estava na Terra quanto quando estava no Hades como Deus, Ele tinha o Pai con´Sigo. O fato de ter levado consigo também a natureza humana é precisamente o resultado de tudo o que o precedeu: a paixão, a cruz, o túmulo e a ressurreição. A natureza humana de Cristo ascendeu com Ele, e com ela ascendeu toda a natureza humana deificada. Portanto, este evento da Ascensão, da nossa deificação, diz respeito à totalidade da pessoa humana. É a glorificação do corpo humano. Isso demonstra o quanto Deus nos honrou. A noção de que, dentro da Igreja e de seus ensinamentos, o corpo humano é desprezado e que só se fala do espírito e das virtudes é simplesmente errada.
Muito pelo contrário. É a Igreja e a Ortodoxia que tratam especificamente da glorificação do corpo humano. Em nenhum outro lugar vemos, sequer teoricamente, a glorificação do corpo humano como é percebida na Teologia Ortodoxa. É isso que significa a Ascensão de Cristo. Nada do que Cristo fez foi feito para Si mesmo. A Ascensão de Cristo não significa apenas que Cristo retornou “para casa” após Sua presença na Terra. Esse não é o propósito da Ascensão. O propósito foi nos mostrar para onde estamos indo e para onde iremos, o ponto para o qual Cristo nos elevou. Devemos lembrar que, antes de sofrer naquela noite no Getsêmani, quando orou ao Pai, Cristo orou por nós. Ele disse: “Pai, quero que os que Me deste estejam co´Migo onde Eu estou, para que vejam a Minha glória que Me deste”. Em outras palavras, Cristo pediu ao Pai que, ao longo dos séculos, em Seu reinado eterno, estivéssemos exatamente onde Ele está. E onde está Cristo? Na glória de Deus Pai, como Seu igual. Essa posição lhe pertence por natureza, mas nos é concedida pela graça. Sabemos que, se Cristo está à direita do Pai, então nós também estamos, contemplando e, pela graça, participando dessa glória e da deificação da nossa hipóstase humana.
Certamente, essas não são coisas fáceis de compreender, mas têm um significado tremendo para o nosso dia a dia. Lembro-me de um jovem que tinha um pecado carnal específico, crônico e que lhe causava grande angústia. Ele não conseguia controlá-lo de forma alguma. Se tentasse, recaía imediatamente, e toda a história se repetia por anos a fio. Ele consultou muitos confessores, e todos tentaram lhe dizer que aquilo estava errado e cada um fez o possível para ajudá-lo. Mas o pecado persistia. Naturalmente, não se trata apenas do pecado em si, que pode ser removido pelo arrependimento e pela humildade. Trata-se também do fato de que o pecado é uma doença que corrói a alma. Esse era o caso desse jovem. Muitas pessoas invocaram diversos argumentos de médicos, filósofos, psicólogos e psiquiatras, afirmando que esse pecado é prejudicial à saúde. Na minha época (e talvez ainda existam livros assim), havia aqueles que afirmavam que um pecado e os eventos a ele associados prejudicavam os olhos, o cérebro e assim por diante. Tentavam fazer com que as pessoas evitassem algo, não porque fosse um pecado e interrompesse seu relacionamento com Cristo, mas porque havia consequências para sua saúde e sua vida. Assim como algumas pessoas defendem o jejum dizendo que ele reduz o colesterol e outros problemas de saúde. Fazem uma análise médica, como se os Padres da Igreja fossem nutricionistas. Mas ainda assim jejuaríamos, mesmo que isso resultasse em níveis mais altos de colesterol ou triglicerídeos. Não é por isso que jejuamos.
Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)






