O OCEANO INESGOTÁVEL DO AMOR DIVINO DE CRISTO

UMA HOMILIA NA FESTA DE SÃO JOÃO, O TEÓLOGO

Hoje celebramos o grande Apóstolo João, o Teólogo, tantas vezes chamado no Evangelho de “o discípulo a quem Jesus amava”. Se Jesus o amava por seu amor ardente por Ele, então ele goza de uma ousadia especial diante d´Ele, porque o amor dá ousadia diante do amado, como o próprio Apóstolo diz: “No amor não há medo; antes, o perfeito amor expulsa o medo… Nisto é aperfeiçoado o amor em nós, para que tenhamos confiança no dia do juízo” (1 Jo 4,18.17).

João é o apóstolo que, pelo poder do seu amor, salvou o jovem que se tornara líder de um bando de ladrões. E se ele, enquanto ainda vivia na Terra, pelo seu amor livrou pessoas da destruição iminente e as conduziu a Cristo, então tanto maior é a ousadia e o poder salvador do amor do Apóstolo após a sua morte. E se a oração comum de um cristão, repleta de amor por um irmão transgressor, tem grande poder: “Se”, diz o santo Apóstolo em sua epístola, “alguém vir seu irmão cometer um pecado que não é para morte, ore por ele, e Deus lhe dará vida” (1 Jo 5,16); então, que poder tem a oração do amado Apóstolo de Cristo? Não é sem razão que a santa Igreja nos inspira a clamar-lhe: “Amado Apóstolo de Cristo nosso Deus, apressa-te em libertar um povo indefeso. Aquele que te permitiu reclinar-te em Seu peito, te recebe quando te prostras diante d´Ele”. Não é sem razão que a santa Igreja nos chama “a bendizer o sempre memorável João, que foi trasladado da Terra sem deixar a Terra”, com o espírito de seu amor, oração e forte auxílio. Onde sopra o espírito do amor, é fácil e livre respirar. Portanto, aproximemo-nos destemidamente do santo Apóstolo, embora nos seja temeroso aproximar-nos dele em nossos pecados com os quais tanto ofendemos a Deus; dificilmente conseguimos entrar em comunhão com a hoste dos santos, que são tão diferentes de nós.

O que o santo Apóstolo, que recebeu tamanha ousadia de amor de Cristo Deus, nos ensina com suas palavras e os atos de sua vida? Não é como encontrar Deus, como entrar em comunhão bendita com Ele e como encontrar nessa comunhão tudo o que a alma buscou em vão na Terra, mas não encontrou, vagando por caminhos distantes de Deus? Quando o grande Profeta e Precursor do Senhor apareceu na Terra pregando sobre Cristo, o santo Apóstolo João O seguiu imediatamente e tornou-se Seu discípulo, para aprender sobre a vinda de Cristo Deus ao mundo. E quando o santo Precursor apontou para Cristo, João O seguiu imediatamente e caminhou firmemente por toda a sua vida.

O que ajudou São João a encontrar Deus tão cedo e a segui-Lo persistentemente por toda a sua vida? Amor a Deus e pureza de coração. Todo ser humano já possui, naturalmente, amor a Deus. Assim como uma planta é atraída pela luz do sol, a alma do homem é atraída pelo amor ao sol espiritual, a Deus, de quem recebeu não apenas a sua existência, mas também a sua imagem. Semelhante atrai semelhante.

Observe o vapor ou as gotas de água, como tendem a se fundir em nuvens, riachos ou lagos, até se unirem em um só oceano. Não anseiam as almas humanas por se fundirem com o oceano do amor divino? Mas quanto mais rapidamente as gotas de água se unem em riachos e alcançam o oceano, menos obstáculos encontram no caminho; quanto mais o caminho se inclina para baixo, mais rapidamente as almas humanas se unem ao oceano da existência e do amor divino; quanto mais as próprias almas se inclinam para Deus, menos paixões se apresentam no caminho para Deus como barreiras intransponíveis. O santo apóstolo João tinha uma atração tão forte por Deus, uma propensão tão grande para a comunhão com Cristo; a alma do Apóstolo foi tão atraída pelo amor a Cristo quando Ele apareceu, tão livre de qualquer paixão que impedisse o caminho para Cristo, seu coração era tão puro — pois o verdadeiro amor é puro — e ele foi o primeiro a cumprir aquilo que foi ensinado aos filhos da Santa Igreja: Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida — não vem do Pai, mas do mundo (1 Jo 2,15-16).

Somente um coração puro pode conhecer a Deus e encontrá-Lo em breve, como o próprio Senhor disse: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. Um coração puro reflete Deus em si mesmo, como um olho puro ou um espelho puro, e não pode deixar de ver a Deus. Mas, em um homem caído, esse espelho está manchado e quebrado. É por isso que aqueles cujos corações não são puros, estão obscurecidos e poluídos pelas paixões da vida, não veem a Deus, ou praticamente não o veem de forma alguma. Quantas vezes essas pessoas buscam a Deus durante toda a vida, munidas da ciência, mas não conseguem encontrá-Lo; e assim as palavras do Salmista se cumprem com elas: “Disse o insensato no seu coração: Não há Deus”. As paixões obscurecem os olhos do coração e impedem o conhecimento de Deus. Pois quantas vezes a preguiça, a paixão pelos prazeres e outras paixões impedem um homem de ser atraído pela sabedoria terrena, assim como um cientista muitas vezes perde sua imparcialidade em sua pesquisa quando se entrega a algum tipo de paixão. Não é, então, ainda mais necessário dizer isso sobre o conhecimento de Deus? Somente um coração puro pode conhecer a Deus. Com que frequência as pessoas que se deixam levar pelas paixões não querem conhecer a Deus: “Para quê?”, perguntam. Essas pessoas, que pensam ser melhor estudar os mitos e lendas mais ridículos dos homens, muitas vezes consideram supérfluo estudar o Evangelho de Cristo, escrito por apóstolos e profetas inspirados por Deus. Não querem saber o que aconteceu à Igreja de Deus nos tempos passados ​​e o que acontecerá nos tempos vindouros. São como aqueles marinheiros que, ao verem um furo no barco, não se importam porque ainda não veem água debaixo dos pés. Quando comem o fruto de uma árvore, não querem saber onde ou como ela cresce.

Por outro lado, aquele que ama a Deus com um coração puro recebe conhecimento d´Ele (1 Coríntios 8:3); muitas vezes conhece a Deus tanto quanto, ou até mais do que, um teólogo erudito. Afinal, o conhecimento de Deus está implantado como um instinto na natureza humana. Observe um animal ou um inseto, que manifesta grande conhecimento e sabedoria infalíveis desde os primeiros dias de vida, por natureza e não por aprendizado, como uma abelha construindo um favo de mel ou extraindo o mel. Da mesma forma, um coração puro carrega o conhecimento de Deus dentro de si. É somente ouvindo a voz da consciência, os impulsos naturais da própria alma, não corrompidos pelas paixões, que o conhecimento de Deus se revela ao homem. Por isso o Senhor disse: “Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

O amor ajuda a multiplicar o conhecimento. Ele nos torna tão atentos aos nossos entes queridos, que nos ajuda a perceber os mínimos detalhes de suas vidas, as menores características de seu caráter, e nos liga intimamente ao próprio espírito da pessoa amada. O amor a Deus não nos ajuda a conhecê-Lo mais do que muito estudo de teologia? Ele nos torna semelhantes a Deus, e então, semelhante conhece semelhante com mais facilidade. Por isso, foi dado a um apóstolo de coração puro, cheio de amor, tornar-se “Teólogo” e extrair a “profundidade da sabedoria” do seio de Jesus, juntamente com o amor bendito por Cristo que ardia dentro dele. Seu ensinamento sobre Deus Verbo é o início da teologia que foi revelada nos Concílios Ecumênicos pelos mais eruditos pastores e mestres da Igreja, que falaram sobre a Trindade, sua essência e hipóstases, das duas naturezas em Cristo, unidas, sem confusão, indivisíveis, imutáveis, inseparáveis, e assim por diante.

Procuremos amar a Cristo com um coração puro. Nossa alma é atraída por Ele, pois é cristã por natureza (diz Tertuliano), e somente quando distorcida pelas paixões é que tenta se afastar d´Ele. O amor torna o homem sábio, repleto de um conhecimento mais profundo do que qualquer conhecimento científico ou filosófico. Ele preenche a alma com uma doce bem-aventurança que não se encontra em nenhum lugar da Terra, pois só pode ser extraída do oceano inesgotável do amor divino de Cristo. Amém.


Hieromártir Tadeu (Uspensky)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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