Bari e São Nicolau
Dirijamos nossos pensamentos para a pequena cidade de Bari, no sul da Itália. Somos recebidos por ruas antigas e pitorescas, com vasos de flores frescas. As grossas paredes de pedra das casas maciças mantêm o interior revigorantemente fresco. As portas estão escancaradas, com cortinas brancas como a neve balançando nas aberturas. Paz, tranquilidade e graça reinam ali. Das calçadas e paredes das casas, pode-se sentir o sopro da história da antiga cidade portuária, que surgiu no século III a.C.
Contudo, elas já estiveram em um local completamente diferente, e sua transladação é uma fascinante história quase policial.
Transladação das Relíquias de São Nicolau para Bari
Bari nem sempre foi uma cidade tranquila e pacífica. Na Idade Média, guerras frequentemente assolavam essa região. A cidade está convenientemente localizada à beira-mar, o que significa que sempre houve muitas pessoas ansiosas para conquistá-la. O porto pesqueiro de Bari teve que defender sua liberdade com armas e, portanto, todos os homens ali não eram apenas pescadores, mas também bravos soldados.
Em 1087, um grande navio mercante partiu do porto de Bari, levando consigo mercadores para negociar com outros países. Contudo, aquela viagem era diferente das demais: além de mercadorias, havia muitas armas nos porões. Atracados na cidade líciana de Mira, os marinheiros começaram a explorar a cidade, que estava repleta de gente. Naquele dia, os turcos estavam sepultando seu comandante militar, o que explicava a aglomeração. Os habitantes de Bari perceberam que, em tal ambiente, seu plano estava fadado ao fracasso e seguiram viagem para Antioquia.
Logo retornaram a Mira e, desta vez, tiveram sorte. A cidade estava vazia; apenas um punhado de monges estava na igreja onde as relíquias de São Nicolau eram guardadas. Mas eles estavam em segurança.
Hoje, é difícil para nós imaginarmos a moral e os costumes daquela época, mas a história fala por si. Os habitantes de Bari capturaram os monges e começaram a submetê-los a torturas severas. Um dos monges indicou o local no chão onde repousava o túmulo do santo.
Os marinheiros rapidamente quebraram o chão e encontraram um espaço vazio, de onde emanava um leve aroma de mirra. Precisavam se apressar antes que os moradores os impedissem. Um deles, o marinheiro Mateus, pulou para dentro e começou a distribuir as relíquias sagradas aos seus amigos. Contudo, ele pulou descuidadamente, danificando vários ossos de São Nicolau, o Taumaturgo. Os marinheiros mercantes colocaram às pressas as relíquias em uma caixa de madeira, levaram o ícone do santo consigo e correram de volta para o navio.
A comoção já havia sido notada pelos moradores, que correram em direção ao porto. A força estava do lado do povo de Bari, e os habitantes locais só podiam chorar amargamente e erguer as mãos para os céus. Sua dor era tão sincera que os marinheiros cederam um pouco e devolveram o ícone milagroso de São Nicolau aos habitantes de Mira, na Lícia. Eles retornaram a Bari como heróis.
Os habitantes de Bari acolheram solenemente as relíquias do taumaturgo e as depositaram na catedral. Mas essa não foi o fim da história.
Translado das Relíquias de São Nicolau para Veneza
Nove anos se passaram. A Primeira Cruzada começou e os habitantes de Veneza decidiram participar. Eles expressaram a esperança de não apenas libertar o Santo Sepulcro, mas também de trazer as relíquias de São Nicolau de Mira, na Lícia, para Veneza. Mas como isso seria possível? Afinal, todos sabiam que as relíquias haviam sido transferidas para Bari. O que os venezianos iriam procurar em Mira?
Havia uma antiga lenda que dizia que uma parte das relíquias de São Nicolau, em um relicário especial, ainda permanecia em algum lugar da basílica e que os habitantes de Bari não haviam conseguido encontrá-la. Então, os venezianos tomaram a iniciativa.
A frota veneziana chegou a Mira, na Lícia, invadiu a basílica e começou a procurar as relíquias, revirando tudo. Os guardas, aterrorizados, asseguraram aos cavaleiros que os marinheiros de Bari haviam levado as relíquias alguns anos antes, mas os venezianos não acreditaram neles e usaram a força. Os guardas, exaustos, mostraram-lhes um lugar na antiga capela da basílica.
Os cavaleiros quebraram o chão e encontraram um relicário de cobre com uma inscrição em grego: “O grande Bispo Nicolau, famoso por seus milagres em terra e no mar, repousa aqui”. Quando foi aberto, todo o espaço se encheu de uma fragrância suave.
Radiantes de alegria, os venezianos levaram as relíquias para a igreja na ilha do Lido, em Veneza. Elas ainda estão lá.
Exame Moderno
Agora, vamos voltar ao século XX. Em 1953, o bispo de Bari decidiu provar que era ali que as relíquias do santo estavam guardadas, já que Veneza disputava essa honra com Bari. Ele convidou Luigi Martino, professor de anatomia humana da Universidade de Bari, como especialista.
Os resultados do estudo surpreenderam o mundo científico. Primeiro, foi constatada a presença de mirra. Os ossos finos estavam cobertos por uma umidade perfumada. Além disso, foi oficialmente confirmado que se tratavam das autênticas relíquias de São Nicolau, e dos mesmos restos mortais que os habitantes de Bari haviam roubado de Mira no século XI. Você se lembra do marinheiro azarado Mateus, que se atirou no túmulo às pressas? O professor confirmou as fontes históricas, comprovando que muitos ossos foram danificados devido ao salto.
Luigi Martino dispôs cuidadosamente todos os restos mortais e descobriu que muitas partes estavam faltando. Todos imediatamente se lembraram de como os venezianos alegavam que as relíquias de São Nicolau estavam em sua posse. Mas esse conjunto de relíquias só foi examinado em 1992. O mesmo professor confirmou que os restos mortais venezianos complementavam perfeitamente os de Bari. Assim, todo o segredo veio à tona.
Agora é difícil para nós fazermos uma avaliação moral dos eventos que ocorreram há mais de nove séculos, e não há necessidade de fazê-lo. Para sermos justos, deve-se notar que o território da Turquia moderna, incluindo a antiga Mira, na Lícia, foi posteriormente conquistado pelos turcos seljúcidas, e muitos santuários cristãos estavam em perigo. Talvez os italianos tenham salvado as relíquias sagradas da destruição.
Muita coisa mudou desde então. Impérios poderosos desapareceram, novos países surgiram e muitas gerações se passaram. Mas até hoje, as antigas cidades italianas de Bari e Veneza compartilham seu santo padroeiro, e multidões de peregrinos acorrem diariamente aos santuários únicos de São Nicolau, pedindo sua ajuda. Peçamos também!
Santo Pai Nicolau, ora a Deus por nós!
Elena Belova
tradução de monja Rebeca (Pereira)







