VEMOS PORQUE DEUS NOS VÊ

Em 2 de maio de 1999, foi celebrado o rito de canonização da bem-aventurada Anciã Matrona, asceta da piedade do século XX e consoladora nacional nos anos ateístas tão tristes para a Igreja, perante uma grande multidão de fiéis. Esta bem-aventurada adoradora de Cristo brilha com uma luz especial em meio à grande multidão de santos russos que se encontram diante do Trono de Deus. Desde o nascimento, ela era cega, mas possuía uma visão espiritual abençoada — o dom da clarividência.

Será que compreendemos o que significa ser cego de nascença, viver para sempre em trevas impenetráveis? É impossível escapar disso — nada nem ninguém, e só existe escuridão sem fim, além da qual se estende a escuridão eterna após a morte. Matronushka não era apenas cega, mas sequer tinha olhos. Suas órbitas oculares estavam firmemente cobertas por pálpebras fechadas, como as daquele pássaro branco que sua mãe vira em um sonho antes de seu nascimento.[1]

Na sexta semana da Páscoa, no Domingo do Cego, ouvimos a explicação do Senhor sobre o significado dos sofrimentos da Bem-Aventurada Matrona. Quem pecou — ele ou seus pais? perguntam os discípulos do Senhor, ansiosos, sobre o homem cego de nascença (Jo 9,2). Todos os problemas estão associados ao pecado; até mesmo terremotos, inundações e secas são consequências de nossos pecados, e existe uma misteriosa lei da justiça, segundo a qual a punição pelo pecado alcança a terceira e quarta geração, mas a misericórdia de Deus sobre um santo se estende por mil gerações. Contudo, esta lei é sempre oculta e misteriosa, e devemos ter cuidado ao tirar conclusões precipitadas. Não é sem razão que o Eclesiastes lamenta que tantas vezes os justos sofram aflições, enquanto os ímpios prosperam. Este é um ponto crucial para muitos, não apenas para os ateus profissionais de outrora, que negavam a existência de Deus por causa do terrível sofrimento e das injustiças no mundo, embora na própria indignação deles se possa, por vezes, ver uma cegueira benevolente — um anseio inconsciente por Deus; o nosso desejo de perfeição e de uma justiça superior já é a luz de Deus dentro de nós.

“Nem este homem pecou, ​​nem seus pais; mas foi para que as obras de Deus se manifestassem nele, diz o Senhor” (João 9:3). Isso não significa que alguém nasça sem pecado, mas que Deus é infinitamente misericordioso. A história do Justo Job, o Paciente, é um testemunho deste mistério. O mesmo se aplica plenamente à Bem-Aventurada Matrona. A mais alta providência de Deus é a comunhão com Ele, e isso se relaciona com o caminho do homem desde o seu nascimento. “Deus o castigou” — e as pessoas indiferentes ao seu redor o julgam imediatamente, sem perceber que o Senhor o visitou, ou seja, olhou para ele com um amor especial. Como diz o Bem-Aventurado Agostinho, vemos porque Deus nos vê. Deus nos vê e quer que O vejamos.

Um jovem gravemente doente me contou como, em sua infância, era um menino piedoso, que frequentava a igreja assiduamente, e como lhe foi concedida a graça, a misericórdia do Senhor. Mas então uma tragédia lhe aconteceu: ele caiu de uma árvore e ficou permanentemente paralisado. No início, foi insuportavelmente terrível — ele era grande e forte, e a vergonha e a raiva fervilhavam dentro dele. Durante meses, ele blasfemou contra Deus. Então, por meio da oração, ele compreendeu o que lhe havia acontecido. Certa vez, ele disse para si mesmo: “Antes deste acidente, eu sabia que Deus me amava, então o que mudou agora?”. E gradualmente, começou a entender tudo. Ficou completamente claro para ele que Deus o havia tocado pessoalmente e que Ele queria lhe dizer algo por meio dessa doença. Ele orou para entrar na mente de Deus, em Sua providência para com ele, e para ver que seu sofrimento não era em vão. Os pecados em que vivia começaram a ser revelados a ele. Ele precisava reconhecê-los — foi isso que o afastou de Deus. Talvez alguém pergunte que pecados especiais um menino poderia ter? Mas sabemos que, ao se aproximarem da luz de Cristo, os santos foram ainda mais capazes de enxergar sua própria pecaminosidade. Às vezes, ele dizia ao Senhor: “Se eu, sendo curado, voltar a me afastar de Ti, prefiro não ser curado”, e por isso nem mesmo a morte o assustava. No fim, isso não é um mal verdadeiro, mas nos dá a possibilidade de ir para Deus.

Se soubéssemos, diz São Serafim de Sarov, o que significa ver a Deus, concordaríamos em atravessar qualquer escuridão para chegar até Ele. Os sofrimentos podem ser diferentes, mas o pior é o medo de perder para sempre a luz divina por não sentir mais nenhuma conexão com Deus. Muitos pensam que o caminho para Deus é só luz, paz e alegria; mas Deus, tendo-nos concedido a luz, prova a alma. Uma coisa é aceitar a Deus em Sua revelação pessoal, com alegria e exultação, e outra é seguir a direção de Deus, até que a alma aprenda a responder humildemente à Sua vontade. A luz brilhante que abriu este mundo maravilhoso se apaga, apesar de todos os nossos esforços para manter a fidelidade ao Senhor — e tudo o que resta é a fé. Essa provação pode ser longa, às vezes intercalada com breves consolações, após as quais a alma pode mergulhar em uma escuridão ainda maior.

Em alguns casos, essa escuridão pode estar ligada a circunstâncias externas adversas: uma ruptura familiar, doenças, falência total nos negócios ou acidentes. E aqui surge a tentação de explicar nossa escuridão por meio de dificuldades externas. Devemos penetrar muito mais fundo do que a tristeza da existência terrena se quisermos vencer a escuridão de nossas almas. Somente assim se revelará a escuridão do abandono de Deus em Cristo crucificado, sem a qual não haveria a luz da Ressurreição. Somente por esse caminho é possível a verdadeira iluminação da alma em sua capacidade de permanecer com o Senhor, por mais insuportáveis ​​que sejam as circunstâncias externas, e em sua capacidade de compaixão por todos aqueles que se encontram na escuridão e na sombra da morte.

Aos dezessete anos, Matrona perdeu a capacidade de andar: suas pernas ficaram subitamente paralisadas. Ela permaneceu “sedentária” até o fim de seus dias. E seu período sentada — em várias casas, apartamentos e porões, onde encontrava refúgio — continuou por cinquenta anos. Ela nunca reclamou de sua enfermidade, mas suportou mansamente essa pesada cruz que Deus lhe dera. Quando se mudou para Moscou, começou a vagar entre familiares e amigos. Às vezes, tinha que ficar com pessoas que a tratavam com hostilidade. Era difícil encontrar moradia em Moscou, e ela não tinha escolha. Ela morou em quase todos os lugares sem registro,[2] várias vezes evitando milagrosamente a prisão.

Vivemos em tempos especiais, e as pessoas são dadas a conhecer tristezas especiais: a escuridão eterna, isto é, o mal mais vil que ameaça secretamente a alma, até que ela seja completamente libertada do pecado no final, está completa e abertamente presente hoje no mundo exterior. A noite está chegando; “Está mais tarde do que parece”, como se diz. Milhões de pessoas nascem cegas. Será culpa deles ou de seus pais que nasçam e vivam toda a sua vida na escuridão da impiedade? Hoje, tudo é feito para que essa terrível cegueira seja considerada “natural” para o homem.

No Evangelho do cego, Cristo não destaca a ligação entre pecado e sofrimento, entre pecado e cegueira, como costuma fazer. Ele diz que isso aconteceu para que a glória de Deus se manifestasse nele. O que devemos fazer? Como devemos suplicar a Deus, ser a presença de Cristo no mundo, para que a glória de Deus seja revelada aos homens? Quando a vida nos desfere golpes duros, devemos mostrar ao mundo como um cristão pode viver e, se necessário, morrer.

Encontramos essa história na vida da Bem- Aventurada Matrona: Certo dia, um policial veio buscar Matrona, e ela lhe disse: “Vá, vá depressa! Há uma tragédia em sua casa! Sou cega e não consigo ir a lugar nenhum. Fico sentada na cama; não quero ir a lugar nenhum.” Ele a ouviu, voltou para casa e encontrou sua esposa gravemente queimada no fogão, mas conseguiu levá-la ao hospital. No dia seguinte, ao chegar ao trabalho, perguntaram-lhe: “Então, o senhor prendeu a senhora cega?” E ele respondeu: “Jamais a prenderei. Se a cega não tivesse me avisado, eu teria perdido minha esposa, mas, em vez disso, consegui levá-la ao hospital.”

Durante o dia, Matronushka recebia até quarenta pessoas. As pessoas vinham com seus problemas e dores espirituais e físicas. Ela não recusava ninguém, exceto aqueles que vinham com más intenções. Outros viam em Matushka uma “curandeira popular” capaz de remover danos ou maldições, mas, após conversarem com ela, compreendiam que diante deles estava uma pessoa piedosa e se voltavam para a Igreja, para os seus Sacramentos salvadores. Ela ajudava os outros desinteressadamente, sem receber nada em troca. Cada dia de sua vida trazia uma torrente de tristeza e pesar daqueles que a procuravam.

Ninguém pode compreender, e ninguém pode ver sem luz — somente a luz cura, somente o amor. Enquanto Eu estiver no mundo, sou a luz do mundo, diz Cristo (João 9:5), e devemos ser, segundo a Sua palavra, segundo o Seu dom, a luz do mundo, para que os outros possam compreender. Contudo, nenhum de nós pode se tornar luz até que tenhamos atravessado a nossa própria escuridão, tentando vencê-la, até o fim, até a escuridão da cruz, a escuridão de todos os cegos ao longo dos séculos, até a escuridão da Cruz de Cristo, e isso significa até a luz da Sua Cruz e Ressurreição.

Um olhar de Cristo cura, se você conseguir olhar nos olhos d´Ele! E o teu irmão, o teu próximo — como ele é belo, se tão somente o pudesses ver! Se tão somente o pudesses ver e reconhecer a Face santa de Cristo em cada rosto humano!

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[1] A família de Santa Matrona era muito pobre e não tinha certeza se conseguiria cuidar de outra criança. Sua mãe decidiu deixá-la em um orfanato para ser cuidada por outros, mas então teve um sonho no qual viu sua filha ainda não nascida como um pássaro branco com rosto humano e olhos fechados, que veio de cima e pousou em sua mão direita. A mulher interpretou o sonho como um sinal e decidiu ficar com a criança, que nasceu cega, mas era muito amada por sua família.

[2] Todo cidadão soviético tinha que ser registrado em um endereço e tinha o direito de morar apenas na cidade onde estava registrado. As pessoas eram frequentemente presas simplesmente por morarem em uma cidade, geralmente Moscou ou São Petersburgo, sem estarem registradas nela. A mesma lei está em vigor hoje, mas não é aplicada com o mesmo rigor.


Arcipreste Alexander Shargunov
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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