HOMILIA POR OCASIÃO DO DOMINGO DO CEGO DE NASCENÇA
Mas por que o Salvador o curou em particular? Por que esse milagre de Deus se manifestou nessa pessoa específica, e não em toda a multidão de pessoas ao seu redor, que eram igualmente desafortunadas, feridas ou doentes?
Cristo ressuscitou!
Talvez a história de hoje sobre a cura do cego seja especialmente importante para nós, para a nossa geração. Quando o Salvador passou perto do cego — que era conhecido em toda Jerusalém — sem lhe perguntar nada, nem mesmo sobre a sua fé, passou por ele e o curou. O cego tornou-se um homem que enxerga. Os fariseus começaram a interrogá-lo, perguntando-lhe quem havia realizado aquele grande bem — algo que eles próprios jamais teriam sido capazes de fazer.
Eles o repreenderam, acusando o Salvador de ter realizado aquele grande feito no dia de Deus — o sábado. Incapazes de encontrar uma única palavra para refutar a Verdade que resplandecia diante deles naquele milagre sem precedentes, os fariseus, contudo, não conseguiram se conter e, em sua inveja e ira, blasfemaram contra Deus e o Espírito Santo.
Alguns perguntam: “O que é blasfêmia contra o Espírito Santo?” Este terrível pecado é descrito na leitura do Evangelho de hoje: os fariseus veem o poder de Deus — manifestado na cura do cego de nascença — mas, mesmo assim, teimosamente negam esse poder. Dizem em tom de escárnio: “Deem glória a Deus! Sabemos que este homem é um pecador”. Mas o homem curado responde: “Sabemos que Deus não ouve pecadores; mas, se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse Ele ouve. Desde o princípio do mundo nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos de um cego de nascença. Se este homem não fosse de Deus, nada poderia fazer”. Então os fariseus o expulsaram da sinagoga e o separaram da comunidade dos israelitas.
Ele foi privado de todos os seus direitos. Daquele momento em diante, segundo a lei judaica, ninguém podia ter contato com ele, ajudá-lo ou viver com ele. Seus pais o repudiaram.
Pois meu pai e minha mãe me abandonaram, mas o Senhor me acolheu em Si (Salmo 26:12)… Naquele exato momento, o próprio Salvador o encontra e lhe diz: “Tu crês no Filho de Deus?” Aquele que recuperara a visão pergunta: “Quem é Ele, Senhor, para que eu creia n´Ele?” O Salvador então lhe diz algo muito semelhante ao que disse à mulher samaritana na semana passada: “Tu O viste, e é Ele quem fala contigo.” O cego de nascença não precisava de outra prova. Ele O adorou como Deus e disse: “Senhor, eu creio.”
Não é coincidência que, há uma semana, a Santa Igreja tenha enfatizado a mesma revelação do Salvador a uma mulher samaritana pecadora, mas de coração puro. Ambas as pessoas mencionadas nos Evangelhos viram a Deus.
Todos nós somos uma geração de pessoas que nasceram cegas. Nascemos, em sua maioria, sem fé no Senhor. Segundo um plano antigo, nossos olhos espirituais deveriam ter permanecido fechados até a nossa morte. E milhões e milhões de pessoas teriam ido para a eternidade sem conhecer a Deus, nem suas próprias almas, nem mesmo o mundo espiritual. Tudo foi feito para garantir que nós, nascidos cegos de pais que, de uma forma ou de outra, também nasceram cegos, permanecêssemos assim para sempre.
Mas Deus operou um milagre em nós. Sem nos perguntar se cremos ou não, sem nos atormentar com essa questão, mas, ao contrário, sabendo que essa fé não estava em nós, o Senhor nos ungiu com barro e dores como com mirra sagrada, e milhões e milhões de pessoas em nosso país foram curadas. Seus olhos espirituais foram abertos.
Nossos contemporâneos, cegos que foram curados, como o homem cego de nascença, foram submetidos a duras provações, interrogatórios e zombarias pelos fariseus desta época, e muitos de nós fomos excluídos da companhia de nossos amigos e parentes. O que aconteceu com o homem cego de nascença nos Evangelhos também aconteceu com muitos de nós.
Mas por que o Salvador o curou em particular? Por que esse milagre de Deus se manifestou nessa pessoa específica e não em toda a multidão de pessoas que estavam perto dele, igualmente desafortunadas, feridas ou doentes? Há duas semanas, lemos nos Evangelhos como o Salvador curou o paralítico. Aquele homem ansiou e esperou pela cura durante trinta e oito anos, mas o cego de nascença nem sequer tinha fé, pois não sabia em quem acreditar. Ele simplesmente não conseguia ver o Senhor; não via Aquele que lhe disse: “Vai, lava-te no tanque de Siloé”. O Salvador revelou Sua Divindade precisamente a este homem, porque viu sua corajosa confissão diante dos inimigos da Verdade, os inimigos de Deus.
Mesmo assim, por que apenas um homem foi curado e nenhum outro? Por que o Salvador passou pela multidão de miseráveis, pobres, aleijados e paralíticos, escolheu um deles e o curou? Por que, entre os milhões e bilhões de cegos de nascença, apenas um pequeno grupo alcança a visão espiritual? Por que, entre as centenas de nações diferentes que vivem no mundo, apenas algumas confessam a fé ortodoxa salvadora?
Humanamente falando, isso não é justo. Humanamente falando: o que tornava os outros cegos piores do que este? E os outros paralíticos que jaziam junto ao tanque de Siloé — o que os tornava piores do que aquele paralítico que foi curado? Por que você e eu (e cada um de nós conhece o nosso próprio valor: não tão elevado) somos melhores do que os milhões de nossos irmãos e irmãs neste mundo, que não foram iluminados pela luz da fé?
Mesmo durante a vida terrena do Salvador, quando Ele caminhava sobre a Terra, Ele escolheu dentre muitos apenas aqueles que Ele escolheu. O mesmo acontece agora. Mesmo dentre todas as nações juntas, o Senhor escolhe somente aqueles que Ele escolhe.
Então, quem são, afinal, aqueles que o Salvador escolhe?
Antes de Seus sofrimentos, na Última Ceia, Ele disse aos Seus discípulos: “Eu vos escolhi dentre o mundo” (João 15:19). Mais tarde, em Sua oração sacerdotal, Ele diz ao Pai: “Pai santo, guarda em Teu Nome aqueles que Me deste” (João 17:11). Quem são eles? Pessoas ricas e importantes? Claro que não. Somente os pobres? Novamente, errado. Entre os escolhidos de Deus havia pessoas de todas as classes sociais. Ou talvez fossem pessoas ricas em outra coisa — razão e sabedoria? Nada disso. Havia pessoas sábias que reconheciam a fragilidade de suas mentes, e havia pessoas totalmente ignorantes, até mesmo tolos santos, aos quais revelações extraordinárias eram repentinamente enviadas. Talvez fossem pessoas ricas em pecados, pois o Senhor foi enviado para salvar pecadores? Mas sabemos que todos são pecadores diante de Deus. Ou talvez fossem pessoas ricas em fé? Sim, o Senhor exigia fé das pessoas. Mas Ele curou o cego de nascença sem a fé deste. Curou o paralítico, por quem o teto da casa foi aberto e rompido, e que foi baixado à Sua presença (cf. Mc 2,4), somente por causa da fé daqueles que o haviam trazido. Mas também sabemos que os demônios creem e tremem… Então, quem o Senhor escolhe para Sua herança?
O Apóstolo diz em uma de suas epístolas: “Vivo, porém, já não eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20). Estes são os que o Salvador escolhe: aqueles que podem negar a si mesmos e se tornarem morada de Deus. Pelo cuidado insondável de Deus pela humanidade, somente pessoas assim são escolhidas, mesmo que sejam fracas de coração como o paralítico que traiu o Salvador há duas semanas. Até ele poderia dizer, ainda que apenas uma vez na vida: “Vejam, Cristo vive em mim”. Ele poderia ter se tornado o templo de Deus. Judas também foi templo de Deus em algum momento! Mas Deus entregará à corrupção aqueles que corrompem o Seu templo…
Eu vivo; contudo, já não eu, mas Cristo vive em mim. Qualquer pessoa escolhida por Deus pode dizer o mesmo. O “velho homem” é destruído, e Cristo nasce nele.
Contudo, Cristo vive em nós de uma maneira que não é mera especulação — não apenas em nossas mentes. Há muitos cristãos crentes com Cristo em seus pensamentos: protestantes, católicos e aqueles que simplesmente dizem: sim, eu creio em Cristo, mas não pertenço à Igreja. Há pessoas que filosofam sobre Cristo, que fazem suposições fantasiosas sobre Ele e querem ouvir falar d´Ele; Mas a vida de Cristo não está neles. Eles estão fora do Corpo de Cristo, fora da Igreja de Cristo. Portanto, muitas pessoas que ouviram falar de Cristo vivem, no entanto, fora do Seu corpo, fora da Sua Divindade.
É claro que não falamos disso para nos orgulharmos. A Santa Igreja fala dos escolhidos como a grande misericórdia de Deus para com os pecadores, mas também como uma grande responsabilidade. Porque os escolhidos, infelizmente, também podem ser como Judas; podem se tornar apóstatas, em quem Cristo outrora viveu, mas que depois traem e crucificam o seu Salvador.
A nossa visão consiste em começarmos a nos ver como cheios de pecados e capazes de todo o mal e traição. A nossa visão consiste em vermos o mundo como ele realmente é: mergulhado no mal. A nossa visão consiste em começarmos a ver e apreciar neste mundo apenas a grande misericórdia de Deus para conosco e para com toda a humanidade cega. Mas se não vemos tudo isso, significa que apenas pensamos que vemos, mas na verdade permanecemos em nossa cegueira — da qual o Senhor nos livre!
Cristo ressuscitou!
Metropolita Tikhon (Shevkunov) de Simferopol e Criméia
tradução de monja Rebeca (Pereira)








