O EVANGELHO DO CEGO PODE SER USADO PARA APOIAR A CRENÇA NA REENCARNAÇÃO?

Pergunta:

Podemos analisar a história do cego no Evangelho de São João como mais um testemunho da existência, no Cristianismo primitivo, da crença na reencarnação. Jesus passa por um homem que era “cego de nascença”. Os discípulos perguntam: “Mestre, quem pecou, ​​este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?” Jesus respondeu: “Nem este homem nem seus pais pecaram; mas foi para que as obras de Deus se manifestassem nele”. A frase mais importante aqui é a pergunta dos discípulos: “Quem pecou, ​​este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?” Como devemos entender a primeira explicação, de que o homem sofreu por seus próprios pecados? Ao incluir isso nos Evangelhos, o autor nos mostra que aceita a reencarnação como uma explicação lógica para o fato de as pessoas nascerem com diferentes problemas. Ele não teria dado atenção à questão dos pecados como razão para a cegueira se não acreditasse que o homem não tivesse tido vidas anteriores nas quais pecou.

Resposta:

A ideia de reencarnação contradiz completamente o ensinamento bíblico. E, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo, assim também Cristo, oferecendo-Se uma só vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação (Hebreus 9:27-28). A ênfase nesta citação recai sobre as palavras que, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, estão no cerne teológico do ensinamento sobre a vida e a morte humanas: morrer uma só vez. Em todos os livros das Sagradas Escrituras, encontramos a representação do homem como imagem e semelhança de Deus, da singularidade e da natureza irrepetível de cada indivíduo humano. A crença de que uma alma pode reencarnar e tornar-se um ser humano diferente é totalmente incompatível com isso.

Mas o homem morre e se consome; sim, o homem expira, e onde está ele? (Job 16:22). Mas os meus dias estão contados, e o seu fim está próximo; e irei pelo caminho pelo qual não voltarei (Job 16:22).

Se o autor deste livro bíblico diz que, após a morte, irá “por um caminho pelo qual não voltará”, o que isso tem em comum com o ensinamento de que, após a morte, a pessoa recebe um novo corpo para viver outra vida?

O justo Job expressa esse pensamento muitas vezes: Pois o mar se consome com o tempo, e o rio seca e desaparece. E o homem que jaz morto certamente não ressuscitará até que o céu se dissolva, e não despertará do seu sono. Porque oh, se me tivesses guardado na sepultura e me tivesses escondido até que a tua ira cessasse, e me tivesses determinado um tempo em que te lembrasses de mim! Porque, se um homem morrer, tornará a viver, tendo cumprido os dias da sua vida? Esperarei eu até que eu exista novamente! (Job 14:11-14).

Tem-se a impressão de que os adeptos ocidentais modernos da ideia de reencarnação perderam tão completamente as suas raízes cristãs que nunca leram a Bíblia na íntegra; conhecem apenas as passagens que lhes interessam e nas quais procuram em vão provas das suas falsas ideias.

Porque o homem já foi para a sua morada eterna, e os pranteadores já percorreram as praças; antes que se solte o cordão de prata, ou se desfaça o ouro fino, ou se quebre o cântaro junto à fonte, ou se gire a roda na cisterna; antes que também o pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus, que o deu (Eclesiastes 12:5-7).

Este conceito teológico é bastante claro: imediatamente após a morte, o homem vai para outro mundo (para a sua morada eterna), e não para outro corpo.

As Sagradas Escrituras afirmam categoricamente que a alma deixa o corpo após a morte e permanece num estado incorpóreo.

Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Mas, se vivo na carne, este é o fruto do meu trabalho; contudo, não sei o que escolher. Porque estou pressionado entre os dois: quero partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor; porém, para vós é mais necessário permanecer na carne (Filipenses 1:21-24). A explicação dada na carta citada acima, referente ao Evangelho da cura do cego de nascença, é um exemplo típico de diletantismo. A autora desta carta aventurou-se num domínio que desconhece; ou seja, não está familiarizada com as realidades da vida no Antigo Testamento. Os discípulos perguntaram ao seu Mestre se o homem ou os seus pais haviam pecado, porque naquela época existia entre os rabinos a opinião de que uma criança podia ter sentimentos bons ou maus desde a sua concepção no ventre materno e, portanto, era capaz de pecar. Essas opiniões refletiam-se na literatura rabínica. No Midrash Ga-Gadol, para Gênesis 25:32, diz-se que Esaú nasceu primeiro porque, ainda no ventre materno, ameaçou Jacob, dizendo que mataria a mãe deles se não lhe cedesse o primeiro lugar. Essas ideias podem parecer-nos bastante estranhas, mas eis o que é importante nelas: circulavam na sociedade judaica e eram o que os discípulos de Jesus tinham em mente quando lhe fizeram a pergunta.

Aqueles que acreditam na reencarnação também tomam como exemplo a passagem dos Evangelhos onde os judeus perguntam ao grande profeta João Batista: “És tu Elias?” E ele responde: “Não sou. És tu aquele profeta?” E ele respondeu: “Não” (João 1:21). O óbvio absurdo de tomar isso como prova da reencarnação da alma pode ser visto, de fato, no fato de que o profeta Elias, com sua fervorosa paixão, foi levado vivo para o Céu, o que significa que ele não morreu e que nunca deixou seu corpo. Nos Evangelhos, afirma-se explicitamente sobre São João Batista: “Ele irá adiante d´Ele no espírito e poder de Elias” (Lucas 1:17), e não em alguma reencarnação mítica. Surgiram também questionamentos porque os judeus daquela época consideravam que os antigos profetas poderiam ser ressuscitados pelo Senhor e aparecer entre o povo. “E apoderou-se de todos de temor; e glorificavam a Deus, dizendo: Levantou-Se entre nós um grande profeta, e que Deus visitou o seu povo” (Lucas 7:16). Herodes, o tetrarca, pensava que o Salvador era João Batista ressuscitado, e alguns pensavam que Elias havia aparecido; e… outros, que um dos antigos profetas havia ressuscitado (Lc 9:8).

Para refutar completamente qualquer tentativa de encontrar a ideia de reencarnação na Bíblia Sagrada, temos a parábola de Lázaro e o homem rico:

“E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; também o rico morreu, e foi sepultado. E no inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio” (Lucas 16:22-23).

Aqui não há reencarnação. Ambos morreram e se encontraram no mundo além da sepultura: “E, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hebreus 9:27).

O ensinamento da reencarnação não tem qualquer fundamento. Não há exemplos no mundo em que o homem vive que possam comprovar a veracidade das leis do karma. Esse ensinamento não se coaduna com a ética cristã, nem com o senso comum, nem com a ciência. Qualquer confiança em “lembranças de vidas passadas” é descartada pelo campo da psicologia, que estudou suficientemente a síndrome das falsas lembranças.

Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores (1 Timóteo 4:1).


Hieromonge Job (Gumerov) responde
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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