Há uma ilusão que percorre o coração humano: a de que Deus escolhe os mais fortes, os mais preparados, os mais dignos aos olhos do mundo. Como se o chamado divino fosse um prêmio para os que já chegaram, e não um caminho para aqueles que estão dispostos a se entregar. Mas a experiência da Igreja, iluminada pelas Escrituras e confirmada pelos santos, revela exatamente o contrário.
Deus não começa pelos fortes. Ele começa pelos disponíveis. Desde o início, vemos que os critérios de Deus não seguem a lógica humana. Ele chama Abraão sem lhe dar um mapa. Escolhe Moisés, que se sente incapaz de falar. Levanta David, o menor entre seus irmãos. E, na plenitude dos tempos, chama simples pescadores para se tornarem colunas da Igreja.
O que todos eles tinham em comum? Não era perfeição. Era disposição. Na espiritualidade ortodoxa, compreendemos que o caminho para Deus não é a exibição de capacidades, mas o esvaziamento de si. É o abandono da própria vontade para abraçar a vontade divina. É o “sim” que não calcula, que não negocia, que não impõe condições.
Deus não precisa da nossa força. Ele deseja o nosso coração. A verdadeira força nasce depois, como fruto da obediência. O que parecia fraqueza se transforma em poder. O que era insegurança se torna coragem. Não porque o homem se tornou grande, mas porque Deus age naquele que se entrega.
Há uma grande diferença entre estar preparado e estar disponível. O preparado confia no que tem. O disponível confia em Deus. E é por isso que tantos resistem ao chamado. Porque ser disponível exige renúncia. Exige deixar planos, seguranças, certezas. Exige morrer para si mesmo — e essa é a cruz que poucos querem abraçar.
Mas é justamente nesse abandono que começa a verdadeira vida. Os santos da Igreja não foram homens e mulheres extraordinários por natureza. Tornaram-se extraordinários porque disseram “sim” sem reservas. Não esperaram estar prontos. Apenas responderam. E Deus fez o resto.
Hoje, o mundo continua procurando os fortes, os influentes, os preparados. Mas Deus continua olhando para outro lugar: para aquele que, em silêncio, diz no fundo da alma: “Eis-me aqui.” Esse é o verdadeiro chamado. Não para os perfeitos, mas para os disponíveis. Não para os que já sabem, mas para os que confiam.
Porque, no fim, não é o homem que realiza a obra. É Deus que age naquele que se oferece sem reservas.
+ Bispo Theodore El Ghandour








