Breves Comentários de uma Perspectiva Espiritual
A comemoração de Santa Maria Madalena traz à tona, de forma geral, o papel das mulheres na Igreja Ortodoxa. A Ortodoxia tem uma longa história de mulheres em pé de igualdade com os apóstolos, servindo ao lado dos homens como missionárias, esposas de sacerdotes e monjas. Santa Maria Madalena foi uma das primeiras a saber da Ressurreição de Cristo, e o Senhor até lhe disse: “Vá e anuncie aos apóstolos!”. Há inúmeras mulheres virtuosas, conhecidas e desconhecidas, em nossa Igreja, que muitas vezes são erroneamente caracterizadas como “dominadas pelos homens”. O presente tratado do Arcebispo Crisóstomo na revista Vida Ortodoxa pode lançar alguma luz sobre nossa compreensão da relação entre os papéis das mulheres e dos homens no serviço à Igreja.
Quem lê as palavras sublimes dos Padres da Igreja Ortodoxa é imediatamente impactado por uma série de impressões profundas. Primeiro, emana de suas palavras certa sensação, pela qual tudo o que está escrito parece intuitivamente verdadeiro — como se uma corda interior fosse tocada no leitor, ressoando harmoniosamente com o tom do que os Padres escreveram. Depois, quanto mais se lê sobre os Padres, mais se sente, apesar das notáveis diferenças em seus estilos de escrita, modos de expressão e temas de atenção, que eles estão fazendo uma única declaração, dizendo a mesma coisa; embora o conteúdo dessa declaração seja elusivo e aqueça mais o coração do que estimule o mero intelecto. E, finalmente, embora às vezes haja hipérbole aparente (uma impressão que nos ocorre porque muitas vezes somos frios ao impulso do zelo santo), e embora não se encontre nos Padres a falta de compromisso e o distanciamento dos absolutos morais que hoje chamamos tão erroneamente de “objetividade”, os Padres revelam um senso de moderação. Em meio à sua preocupação com a verdade pura e a veracidade inquestionável, transmitem um conhecimento que não se inclina nem para a “direita” nem para a “esquerda”, perfeitamente equilibrado por aquele equilíbrio místico e universal que é a própria verdade.
São precisamente essas características dos escritos patrísticos que definem o sutil alicerce da vida ortodoxa: a espiritualidade. Transpostos da palavra escrita para a vida pessoal, descrevem a pessoa santa. Elevados da imagem à experiência, retratam a vida interior de cada cristão. Os Padres compartilharam, em todos os sentidos, a plenitude da vida ortodoxa, e é essa plenitude que permeia seus escritos. Expressam a experiência para a qual cada um de nós é chamado, e interiormente percebemos isso, se formos atentos e moderados em nossas próprias opiniões. É essa espiritualidade, infelizmente, que está ausente na discussão sobre o papel da mulher na Igreja Ortodoxa hoje. Assim, a discussão tornou-se extrema (imoderada), secular e mundana — desvinculada da vida interior e da experiência espiritual. Surgiram partidos de oposição, visões diametralmente opostas, facções em guerra e antagonistas intemperantes, estes últimos expressando questões espirituais profundas na arena de emoções e disposições contraespirituais.
Vejamos a reação geral entre os pensadores ortodoxos à discussão moderna sobre o papel da mulher na Igreja. Por um lado, temos a visão muito “tradicional”, que expressa uma atitude conservadora em relação ao papel social da mulher em geral. Muitas vezes li e ouvi imagens de mulheres que estão em quase total consonância com a antiga expressão alemã “Kinder und Kuche” — mulheres essencialmente para gerar filhos e cozinhar. Em grego, pensamos na noção de “oikokyrosyne”, a mulher da casa. Argumenta-se, a partir desse ponto de vista, que as mulheres possuem uma “natureza” essencial que as torna apropriadamente pertencentes ao lar. Os assuntos domésticos são fundamentalmente e de alguma forma adequados ao gênero feminino. Percebe-se, nos defensores mais radicais dessa visão, a noção de que os papéis sociais das mulheres são talvez dogmáticos, que as mulheres são universalmente relegadas, por um mandamento divino, ao lar e às suas responsabilidades.
Por outro lado, encontramos ampla evidência, em todos os meios de comunicação da sociedade americana, de que as mulheres estão dispostas a sacrificar qualquer noção de sua identidade separada e única para romper os laços dos papéis sociais, supostamente criados pelos homens, que as restringem em suas ações e comportamentos. Não é incomum que as mulheres neguem até mesmo suas diferenças fisiológicas em relação aos homens e defendam a forma mais extrema de “igualdade sexual”. No frenesi desse processo de negação, paradoxalmente, elas muitas vezes reivindicam para si o direito às mesmas características abusivas que os homens ostensivamente exibem ao exercer sua autoridade preconceituosa sobre as mulheres. E, frequentemente, do ponto de vista psicológico, a intemperança dessas mulheres as leva a crises de identidade sexual, resultando em comportamentos tão abomináveis que dispensam maiores comentários.
Ao ministrar palestras em diversas paróquias ortodoxas, fiquei chocado (e, obviamente, entristecido) com a crescente popularidade de visões feministas extremistas entre as mulheres ortodoxas. Já ouvi São Paulo, em relação às suas declarações sobre o papel da mulher na Igreja, ser descrito em termos retóricos modernos que nenhum cristão ortodoxo, muito menos um devoto, jamais teria usado no passado. Algumas dessas mesmas mulheres me perguntaram, sem rodeios, como eu poderia me sentir digno do sacerdócio e, ao mesmo tempo, ter a audácia de defender a ideia de que as mulheres são indignas. Não seria isso, me perguntaram, uma arrogância incompatível com a humildade do sacerdócio? Em outra ocasião, uma mulher me declarou que, como ser humano e como cristã, tinha todo o direito ao sacerdócio. Ela se referiu aos Santos Padres da Igreja (que, ao contrário do que ela pensava, incluem as Santas Madres da Ortodoxia) como um bando de “machistas” que tentaram manter o poder em seus cargos por meio da constante depreciação das mulheres! (Se eu ofender o leitor com a repetição desses sentimentos, é um mal necessário. O verdadeiro apologista cristão deve estar ciente, por mais dolorosos que sejam os fatos, do conteúdo e da gravidade daquilo que pretende combater.)
De fato, ambos os argumentos referentes às mulheres são falhos. Em primeiro lugar, não há nada de verdadeiramente “tradicional” em atribuir certa “natureza” às mulheres. É verdade que muitos dos grandes Padres ascéticos alertam os monges sobre as artimanhas de Eva presentes no caráter feminino, mas a contrapartida disso é a submissão da contraparte masculina de Adão nos monges pecadores. Contudo, em nenhum sentido atribuímos aos homens certa “natureza”, como tal, que defina seus papéis sociais. Na verdade, essas imagens são destinadas a monges e monjas e são, em vez de declarações de culpa por este ou aquele pecado ou tentação contra um ou outro dos sexos, conselhos práticos na busca da vida angélica que, afinal, transcende a “natureza” humana. Além disso, quando nós, ortodoxos, falamos de homens e mulheres caídos, falamos, em comparação com os ocidentais heterodoxos, em termos relativos. De São Máximo, o Confessor, a São Serafim de Sarov, os Padres da Igreja enfatizaram que, embora sejamos marcados pelo pecado ancestral (pela maldição ancestral, etc.), jamais perdemos a imagem divina. Não seria assim, argumenta São Serafim, o que dizer dos grandes e divinos Profetas? De onde provém a sua santidade? Foi Cristo quem nos restaurou (potencialmente) à nossa natureza plena e verdadeira. Ele cumpriu o que ainda estava latente em nós, o que ilumina todo homem que vem ao mundo. Quanto à “natureza” caída, ela não é uma característica fixa e universal do homem. É típica de seu estado decaído.
A própria mensagem da Ortodoxia, portanto, é que homens e mulheres são chamados a se afastarem das “naturezas” errôneas que assumiram, a se afastarem do trabalho e da dor, à deificação, à união com Deus, pela graça de Cristo. A própria tarefa da Igreja no mundo é preservar essa noção de salvação, proteger o receptáculo no qual repousa esse grande e sagrado potencial. Se, então, a Igreja exalta a mulher como mãe, é para elevar sua natureza, para enfatizar seu papel social único. Mas, se ela escolher ser chamada à “natureza” superior da santidade, a Santa Igreja a honra ainda mais. Nessa vocação superior, ela dá à luz Cristo, como fez a Bem-Aventurada Theotokos, carregando “asomatos” (“de maneira incorpórea”), como diz São Máximo, Deus dentro de si. E esse potencial não é exclusivo das mulheres, mas também dos homens. A maternidade espiritual do ser humano é um papel tanto masculino quanto feminino.
Assim, não devemos falar com muita ousadia sobre as mulheres na sociedade. Se “Kinder und Kuche” (Crianças e Bolo) forem nossos lemas, descreditamos aquelas mulheres santas que transcenderam a natureza humana. Desonramos as Santas Mães e as santas da Igreja. Impomos às mulheres um papel que jamais deve ser superestimado ou colocado acima da vocação espiritual superior do homem e da mulher. Além disso, em certo sentido, deixamos de compreender que o papel terreno das mulheres na Igreja Ortodoxa, como evidenciado pelas imperatrizes bizantinas que são santas na Santa Igreja, não é dogmático e imutável. Há, como sempre, exceções, paradoxos e circunstâncias únicas que uma visão rígida jamais poderá abarcar. De fato, a liberdade de cumprir o papel para o qual Deus nos chama jamais deve ser comprometida por aqueles papéis que preservamos como salutares para a correta ordenação da sociedade.
Orthodox Life, Vol. 31, No. 1 (Jan-Feb, 1981)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







