Larchet inicia o segundo capítulo de seu livro Transtornos Mentais e Cura Espiritual, “Insanidade Devido a Problemas Somáticos”, com esta afirmação: “Os Padres não deixaram de reconhecer que certas formas de loucura ou insanidade tinham uma origem fisiológica e, ao fazê-lo, concordavam com as concepções médicas prevalecentes na época”. São Gregório de Nissa oferece uma explicação da relação entre mente e corpo usando uma metáfora comum:
Como todo o corpo é feito como um instrumento musical, assim como frequentemente acontece com aqueles que sabem tocar, mas são incapazes, devido à inadequação do instrumento, de demonstrar sua habilidade (pois aquilo que é destruído pelo tempo, ou quebrado por uma queda, ou tornado inútil pela ferrugem ou decomposição é mudo e ineficiente, mesmo que seja tocado por alguém que seja um excelente flautista); Assim também a mente, percorrendo todo o instrumento e tocando cada uma das partes de um modo correspondente às suas atividades intelectuais, de acordo com a sua natureza, produz o seu efeito próprio naquelas partes que se encontram em condição natural, mas permanece inoperante e ineficaz naquelas que são incapazes de admitir o movimento da sua arte; pois a mente está de alguma forma naturalmente adaptada a estar em estreita relação com aquilo que se encontra em condição natural, mas a ser estranha àquilo que está afastado da natureza. [E ainda], Cada órgão da constituição humana tem a sua própria atividade especial. O poder da alma pode permanecer eficaz, se o órgão em questão for mantido em condição natural e saudável.
Portanto, “quando os distúrbios psíquicos são devidos a problemas somáticos, a própria alma não é defeituosa, apenas a sua expressão e manifestação são afetadas”. É, escreve Larchet, “toda a alma (que inclui o espírito) que é afetada pelos distúrbios, mas é, repetimos, afetada apenas na sua atividade por meio do corpo. Apenas a possibilidade desta atividade é destruída ou modificada na própria alma: o corpo sozinho impede a realização normal da alma e distorce a sua expressão”.
Os sintomas psiquiátricos apresentados nesses casos “não são distúrbios da alma, exceto de um ponto de vista muito superficial. A insanidade que, em certos aspectos, dá nome a esses distúrbios, não é, estritamente falando, uma doença da alma, mas do corpo”. Duas consequências decorrem disso: primeiro, “pode-se e, de fato, deve-se basear o tratamento em fundamentos puramente fisiológicos, pois a alma em si não está envolvida, mas apenas o que é puramente somático”; segundo, “o tratamento deve visar a restaurar o órgão corporal ao seu estado normal, reconstituir a ordem da natureza de maneira que a alma permaneça intacta em sua essência, permitindo-lhe, assim, expressar-se normalmente, ou seja, sem manifestar dificuldades devido ao problema com seu órgão mediador”.
Mas, no tratamento da insanidade, é essencial determinar a etiologia correta; nem todas as manifestações de insanidade têm origem somática. Larchet escreve:
Pois, mesmo que uma medicina naturalista, materialista, organista ou mecanicista afirme que a insanidade é necessariamente causada por um distúrbio orgânico, a perspectiva patrística, embora admita que isso seja verdade em certos casos, como acabamos de ver, recusa-se a estender essa explicação a todos os casos; ela também reconhece outras causas possíveis, como veremos a seguir. O fato de o corpo, em casos de insanidade, estar sempre envolvido em algum grau não aponta necessariamente para seu papel causador ou determinante, mas mantém a relação estrita entre corpo e alma no ser humano composto. De acordo com a antropologia patrística, essa relação, como vimos, é ambivalente. O corpo condiciona a alma, que na totalidade do ser humano possui o poder de comando, de dar vida e movimento ao corpo e de torná-lo o órgão constante de seus diversos atos. Toda ação da alma se reflete e se manifesta no corpo. Assim, os distúrbios somáticos podem ter sua origem na ação natural do corpo, pela intervenção de elementos estranhos à alma, podendo inibir ou desorganizar o funcionamento da alma sem que esta seja de alguma forma perturbada. Mas é igualmente possível que o que está envolvido no plano do corpo tenha sua origem na própria alma, e são essas possibilidades que devemos definir.
blog ORA ET LABORA
tradução de monja Rebeca (Pereira)






