HOMILIA NO DOMINGO DA GENEALOGIA DE CRISTO – ANTERIOR AO NATAL

Memória daqueles que serviram na preparação da natureza humana de Cristo

Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

Antecipamos o Natal de Cristo e, elevando nossos pensamentos, somos levados a Belém… Ouvimos, meus amigos, neste último domingo antes do Natal de Cristo, o chamado da Santa Igreja à profunda contemplação da essência da grande festa que se aproxima.

O evento que ocorreu há vinte séculos foi tão grandioso que jamais houve outro igual na história da Terra. “Um grande mistério de piedade: Deus Se revelou na carne.”

A pequena e desconhecida Belém, e nela, numa humilde gruta, a pobre “manjedoura dos animais mudos” tornou-se para o mundo inteiro o centro das atenções e o ponto de referência de uma nova era; pois nela repousava o Cristo Deus Incontível.

Deus — o Soberano do mundo — apareceu como um humilde Menino, em Quem, no momento do nascimento, poucos puderam ver a grandeza, a glória e o poder de Deus. Mas o mundo aguardava esse Menino desde o início de sua história, tendo recebido a promessa de Deus nas profecias concernentes ao aparecimento na Terra do Salvador e Redentor da humanidade: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades de Judá; porque de ti sairá o Governador que há de apascentar o Meu povo Israel” (Mateus 2:6). E assim, com o nascimento de Cristo, chegou ao fim todas as profecias a respeito d´Ele. E o que no Antigo Testamento estava oculto na névoa foi iluminado pelo aparecimento do Menino Divino e tornou-se visível.

Muitos bebês nasceram em Belém — tanto notáveis ​​quanto famosos; mas o mundo não viu em nenhum deles Aquele por meio de quem poderia ser salvo e na expectativa de quem definhava.

Tudo no mundo muda somente com o nascimento de Jesus Cristo, pois com Ele o tempo da lei terminou, e a graça transformou poderosamente tudo o que vive, enxugando as lágrimas do desespero.

Citarei uma analogia um tanto distante: todos nós reconhecemos inequivocamente a ação da graça divina em nossos corações e almas. Tudo muda em nós — nossos rostos brilham, nossos olhos irradiam alegria e luz, e uma paz repleta de graça acalma nossos corações. Isso não acontece apenas em nós. Quando a graça nos toca, ela transfigura tudo ao nosso redor — a natureza, contrariando suas próprias leis, responde ao que acontece conosco.

O mesmo, embora incomparavelmente mais manifesto, o mundo sentiu com o nascimento do Divino Menino Jesus. E não poderia ser de outra forma, meus queridos amigos, pois o Eterno apareceu no tempo, e o Incorpóreo apareceu na carne; e com Ele a eternidade entrou no mundo. E tudo o que vive foi iluminado pela luz incriada da Divindade e da eternidade. A Igreja canta: “O mistério nasce numa gruta, mas o céu, como lábios, Te declara a todos…”

Cristo nasceu, Deus e Homem, e o Seu caminho da Cruz começou com o Seu nascimento — a obra de salvar o mundo e a criação de um novo homem, filhos de Deus.

Mas a gruta de Belém, que abrigava a humilde grandeza do Filho de Deus e Filho do Homem, tornou-se o protótipo da Santa Igreja Ortodoxa, onde todos os dias, na celebração da Liturgia, na Proskomídia, como na manjedoura, o Divino Menino Jesus é colocado sobre a mesa da oblação e contém em Si toda a Sua vida, desde o nascimento até o grande sacrifício no Gólgota — o Cordeiro de Deus, Que tira o pecado do mundo (Jo 1,29).

Todos os anos e todos os dias o mundo revive o Mistério da vida de Cristo na Terra. Todos os dias, Cristo nasce, serve, morre e ressuscita, ressuscitando o mundo con´Sigo. E perante a eternidade, todos os “dias da carne” do Senhor Jesus Cristo são como um só momento, no qual a encarnação, a morte na cruz e a ressurreição estão unidas em um só.

Para Deus, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia; e esta é a eternidade, invadindo o tempo terreno. E nossas vidas também são um exemplo disso, pois fluem para a eternidade, dissipando o tempo. Basta olhar para trás em sua vida. Ela mal havia começado quando já estava rumando para o seu fim, e o oceano infinito da eternidade está pronto para nos engolir.

O coração humano também deve, no breve instante de sua vida, tornar-se uma imagem da gruta de Belém, onde Cristo — Deus e Homem — nasceu, cresceu, viveu e reina. E ao se abrir para receber Cristo, o Salvador, nossos corações são iluminados por Sua luz divina e se fortalecem com Seu poder divino. E as “feras” — nossas paixões humanas que habitam nossos corações — fogem para as trevas exteriores; e então podemos oferecer a Deus um coração puro como presente — nosso amor, co-reinando com Cristo e Deus.

Hoje, no limiar do Natal de Cristo, quando o tempo terreno se dividiu em dois como uma cortina de altar, e o mundo se transformou em “antes” e “depois” do Nascimento de Cristo, a Santa Igreja recorda com gratidão aqueles que viveram pela fé e pela expectativa, e que, por suas vidas e sua carne, se tornaram parentes do Deus-Homem Que apareceu no mundo. Afinal, Cristo é Deus Que Se uniu à humanidade, não um Homem recém-criado por Deus; contudo, Sua humanidade também descende da história da humanidade que viveu na terra antes do Natal de Cristo.

A humanidade gerou em seu ventre, em suas profundezas, Aquela Que Se tornou a Mãe de Deus, mais venerável que os Querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os Serafins.

Assim, a memória em oração daqueles que serviram na preparação da natureza humana de Cristo é agora evocada na Igreja: O livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão: Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judas e seus irmãos… ouvimos hoje as palavras do Evangelho (Mateus 1:1-2). E além, há uma longa lista de nomes e mais nomes. Por trás de cada nome, há uma pessoa específica que participou, por meio de sua vida, do nascimento de Cristo, o Salvador. De milênio em milênio, a carne e a humanidade de Cristo foram tecidas.

E não podemos deixar de notar, meus amigos, um pensamento reconfortante.

Nessa hierarquia de nomes humanos, preserva-se para nós a memória não apenas daqueles que alcançaram a santidade por suas vidas, mas também daqueles que passaram pelo pecado, viveram em meio à fraqueza humana e buscaram, em meio às trevas, a luz, a verdade e a santidade. E o homem nem sempre realizou seus anseios e sonhos, mas viveu pela fé, caminhou para Deus e desejou viver em Deus.

Cristo uniu-Se à humanidade, escolhendo nela não apenas os justos, e não apenas os santos. Ele próprio, provado pelo pecado, conheceu a medida da fraqueza e da fragilidade humana e, tendo sido semelhante ao homem em tudo, exceto no pecado, por meio de Seu divino amor, encarnou-Se a todos em Si Mesmo e redimiu a todos por meio de Si Mesmo.

Por Sua santidade humana, Cristo justificou a todos: tanto os que eram de Sua carne e sangue, quanto os que nasceram em Seu espírito. Tanto o antigo Israel, que viveu antes do nascimento de Cristo, quanto o novo Israel, nós que surgimos no mundo juntamente com o nascimento de Cristo sob a proteção da graça divina, estamos unidos pelos mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus. Fé, esperança e amor são os principais sentimentos. E são precisamente esses sentimentos que nos tornam familiares e próximos, independentemente do tempo e do espaço que separam as pessoas. Esses sentimentos podem ser chamados simplesmente de sede de Deus.

Os Santos Pais do Antigo Testamento, “sentados nas trevas e na sombra da morte”, realizaram milagres pela fé no cumprimento de sua expectativa: subjugaram reinos, praticaram a justiça… fecharam a boca de leões. Apagaram a violência do fogo… Foram apedrejados… (Dos quais o mundo não era digno:) vagaram pelos desertos, pelos montes, pelas cavernas e pelas covas da terra (Hebreus 11:33-34, 37, 38).

Não vou relembrar os trabalhos de fé dos patriarcas do Antigo Testamento. Apenas lembrarei a vocês, meus queridos amigos, que eles não se cansaram da expectativa e viveram pela paciência e esperança não um dia, nem um ano, nem cem anos, mas 5.508 anos. Quantas gerações caíram no esquecimento ao longo desses milhares de anos!

Mas essa expectativa era a sua necessidade interior, pois Deus estava com eles. E, como diz o ditado, “todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; viram-nas de longe, e creram nelas, e as acolheram, confessando que eram estrangeiros e peregrinos na terra” (Hebreus 11:13). Testemunhando com suas vidas a verdade da sua fé, buscaram e lutaram pelo que é melhor — isto é, pela Pátria Celestial, cujo Artista e Construtor é Deus.

E assim se cumpriu o tempo: Cristo Deus nasceu, e Deus inicia uma nova geração de Seus santos. E nós, pecadores, fazemos parte dessa geração pela graça do Senhor.

O Santo Apóstolo Paulo chama Jesus Cristo de o novo Adão, de quem vieram novos e santos descendentes, adornados com o Seu nome e predestinados à salvação eterna. Essa grande posteridade é composta por cristãos que receberam os Seus ensinamentos, nasceram da água e do Espírito em Seu Nome, foram alimentados com o Seu Corpo e Sangue Divinos no Sacramento da Sagrada Comunhão, nutridos e vivem no seio da Sua Igreja.

Nossos laços familiares com Cristo não são carnais, mas espirituais, e exigem uma afinidade contínua com Ele em nossos pensamentos, sentidos, desejos e aspirações. E tendo, em comparação com a humanidade do Antigo Testamento, uma vantagem maior — a proximidade filial com Deus, os dons da graça que fortalecem, iluminam e esclarecem o homem por completo, e uma fé inabalável na vida futura — devemos, contudo, estar atentos a nós mesmos para sermos um em espírito com Cristo, não apenas pelo nascimento, mas também por nossas vidas. Pois também carregamos em nós mesmos, assim como nossos antepassados ​​do Antigo Testamento, a fragilidade da natureza humana decaída. Mas não olhamos mais de um lado para o outro clamando por ajuda — sabemos que Deus está conosco! Conosco estão exemplos vivos de muitos, muitos santos de Deus, chamando-nos a segui-los no caminho da salvação.

Arquimandrita Ioann (Krestiankin)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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