PÁSCOA E SEMANA LUMINOSA: COMO VIVENCIAR A FESTA SEM ANULAR OS ESFORÇOS DA GRANDE QUARESMA

O famoso cineasta soviético Ivan Pyryev, que realizou filmes baseados nos romances “O Idiota” e “Os Irmãos Karamazov”, de Fiódor Dostoiévski, contou a seguinte história sobre sua infância…

Ele nasceu em uma família de Velhos Crentes. Seus parentes costumavam ir à sua casa no Domingo do Perdão, antes da Grande Quaresma. Eles faziam o sinal da cruz solenemente, ajoelhavam-se uns diante dos outros, prostravam-se no chão e pediam perdão uns aos outros com as palavras: “Perdoa-me por amor a Cristo”. Depois, iam juntos à igreja para o culto. Mais tarde, de volta para casa, sentavam-se à mesa. E ali começava a segunda parte — a sombria — do encontro. Seus parentes ficavam terrivelmente bêbados, e então havia uma briga. E, ao final do Domingo do Perdão, seus parentes, amargurados uns com os outros, voltavam para suas aldeias. Durante uma dessas brigas, o pai de Pyryev foi morto.

Estou contando essa história para dizer que, em nossas almas eslavas, amplas e multifacetadas, grandes sentimentos de piedade cristã muitas vezes se misturam com a bebedeira pagã. Esta última irrompe especialmente como vapor de um bule fervendo durante as festas.

Digamos que um homem se conteve longa e honestamente durante a Grande Quaresma. Ele tentou levar uma vida mais ou menos piedosa e arrependida. Então, depois da Páscoa, ele recebeu o “sinal verde” e parou de se humilhar. A espiral se endireitou com uma poderosa energia cinética. O resultado — no pior dos casos: indigestão, hospitalização ou excessos alimentares durante toda a Semana Luminosa da Páscoa. E em poucos dias, ele anula todas as conquistas da Quaresma. Por que isso acontece?

Porque ele frequentemente tem uma atitude incorreta em relação à Quaresma, pensando nela como algo regulatório e mecânico: Não coma isso, cumpra aquilo, e assim por diante. E então, não tentando mudar sua natureza espiritual interna, corrigi-la, invocando a ajuda de Deus, ele tenta refrear suas paixões com sua própria força de vontade, mas não as erradicando das profundezas do seu coração, e sim as contendo em algum lugar na superfície. Portanto, nas festas — Páscoa ou o Natal de Cristo — ele solta as rédeas do cavalo do seu corpo e, sem mais se conter, parte em disparada para algum lugar. Via de regra, o dono do cavalo, isto é, o próprio homem, não tem ideia de onde esse desejo há tanto tempo reprimido o levará.

Em seu livro Minha Vida em Cristo, o santo e justo João de Kronstadt escreveu: “As festas devem ter um impacto em nossas vidas, devem reavivar e reacender nossa fé (coração) nas bênçãos futuras e nutrir uma moral piedosa e virtuosa. As festas são frequentemente vividas em pecado, pois são recebidas com uma falta irracional de fé, um coração frio, muitas vezes despreparado para sentir essas grandes bênçãos de Deus, que Ele concede por meio de uma pessoa ou evento celebrado e conhecido.”

As festas devem ter um impacto em nossas vidas. Por meio delas, o Senhor transforma e cura nossa natureza espiritual. Esse é o propósito da festa. Precisamos responder a esse chamado do Altíssimo e não retornar à preguiça, à embriaguez e à gula. Isso não significa, é claro, não deixar o corpo descansar. Isso também é necessário — especialmente na Semana Luminosa da Páscoa. Mas todas as coisas boas devem ser feitas com moderação. Não significa sair da igreja após o serviço pascal e esquecer o caminho que leva à igreja. Vamos apenas comer, beber e nos divertir. Não, a vida em Cristo continua, assim como a luta contra o diabo, contra as nossas paixões. Afinal, pelo contrário, Satanás começa a nos pegar quando relaxamos.

“Glória a Deus, eu participei da Ceia do Senhor”, pensa ele.

Mas os demônios já estão à espreita, prontos para derrubá-lo.

“Glória a Deus, eu cheguei à Ressurreição de Cristo. Agora vou me divertir!”, pensa o jejuador.

Mas Satanás já está esperando que ele quebre o jejum de uma forma que anule todo o seu esforço e trabalho.

Portanto, queridos irmãos e irmãs, tenhamos diante de nós não objetivos carnais, mas espirituais. É importante, na Semana Luminosa da Páscoa, não nos deixarmos levar pela decadência, mas, com a ajuda de Deus, continuarmos a persistente e difícil ascensão rumo ao Reino dos Céus.

Para aqueles que desejam participar dos Serviços Divinos na Semana Luminosa da Páscoa e comungar aos Santos Mistérios de Cristo, gostaria de dizer algumas palavras sobre a preparação para a Eucaristia neste período. Não fazemos jejum de alimentos — isso é proibido pela Igreja. Observamos apenas o jejum eucarístico: da meia-noite até o momento da comunhão. Em vez dos cânones de preparação, lemos o cânone da Santa Páscoa, e em vez das orações da manhã e da noite, as Horas Pascais. Esta ordem para a Sagrada Comunhão não é omitida — é obrigatória também para aqueles que se preparam para a Eucaristia durante a Semana Luminosa da Páscoa.

Que não anulemos, queridos irmãos e irmãs, nossos grandes esforços e trabalhos quaresmais. O essencial é transformar o nosso coração, unir-nos em alma ao nosso Senhor Jesus Cristo através das festas, incluindo a luminosa Ressurreição de Cristo. Devemos pedir a Deus que nos ajude, a nós, os insensatos, a permanecer na luz da Sua Divindade e a não cair na lama da embriaguez e da gula.

Devemos quebrar o jejum, descansar, estar com os nossos entes queridos e partilhar com eles a alegria pascal — mas também lembrar que a PRINCIPAL conquista da Páscoa é a nossa alma ressuscitada e renovada. Não a deixemos novamente afundar na imundície das paixões.


Sacerdote Andrei Chizhenko
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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