Homens pobres que amam festas e que acolhem festivais públicos com entusiasmo e elegância, mesmo que não tenham o suficiente em casa para a festividade planejada, ao reunirem todo tipo de luxo com parentes e amigos, garantem que nada lhes faltará para as suas necessidades. Sinto-me na mesma situação hoje. Não tendo nada de grande importância a contribuir por conta própria para o culto iminente, refugiar-me-ei no cântico sagrado que acabamos de cantar. Usando-o como ponto de partida, cumprirei minha dívida para com o texto bíblico, tecendo nele, por minha parte, louvores que talvez pertençam à gratidão que o pobre escravo expressa ao seu senhor. David disse agora mesmo, e nós dissemos com ele: “Louvem o Senhor, todas as nações, rendei-Lhe louvor, todos os povos”. Ele convida todos os seres humanos nascidos de Adão para o hino, sem omitir ninguém do convite, mas ocidentais, orientais, aqueles de todos os lados, todos os vizinhos do extremo norte e habitantes do sul, a todos ele se dirige no salmo. Em outros lugares, ele se dirige seletivamente a alguns, seja convidando os devotos ou incitando as crianças a cantar um hino; mas neste lugar, ele reúne nações e povos com sua harpa. Pois quando (como o apóstolo coloca) “o padrão deste mundo” tiver passado (1 Coríntios 7:31), e Cristo for manifestado a todos como Rei e Deus, tendo convencido toda alma incrédula e refreado toda língua blasfema, e quando ele detiver a vaidade grega, o erro judaico e a língua incurável — doença das heresias —, então, sim, então, todas as nações e os povos ancestrais se curvarão e oferecerão a homenagem da rendição, e haverá uma harmonia surpreendente de expressões de glória, os devotos cantando como de costume e os ímpios suplicando como devem. Então, verdadeiramente, o hino da vitória será cantado em uníssono por todos, tanto os conquistados quanto os vencedores. Então, também aquele responsável pela confusão, o escravo inútil que fingiu ter a posição de seu Senhor, será visto por todos enquanto é arrastado por anjos para o castigo, e todos os ministros e auxiliares em sua malícia serão submetidos às devidas e justas penas. Um rei e juiz universal aparecerá, um Senhor reconhecido por todos. O silêncio será imposto, assim como quando, com o governador sentado na tribuna, o arauto dá o sinal de silêncio e os povos aguçam os olhos e os ouvidos enquanto esperam para ouvir o discurso público. Portanto, “louvem o Senhor, todas as nações, rendei-Lhe louvor, povos”. Louvai-O como poderoso, rendei-Lhe louvor como bondoso; Para os caídos e mortos, Ele trouxe de volta à vida; para o vaso quebrado, Ele o renovou; para a desagradável condição dos restos mortais nos túmulos, Ele amorosamente transformou-os em algo vivo e incorruptível; e para a alma que deixou seu corpo há milhares de anos, Ele a trouxe de volta, como de um longo exílio, para seu próprio lar, em nada alienada pelo tempo e pelo esquecimento do instrumento que lhe pertence, mas entrando nele mais rápido do que um pássaro que mergulha em seu ninho.
Falemos das coisas próprias da festa, para que possamos celebrá-la de maneira correspondente e naturalmente adequada ao seu tema. Pois o que é inapropriado e irrelevante, além de não ser de forma alguma útil, é perturbador e grotesco não apenas em discursos sobre religião e piedade, mas também em assuntos externos de sabedoria mundana. Que orador é tão estúpido e supremamente ridículo que, ao ser convidado para uma festa de casamento, evitaria palavras agradáveis que captam com sensibilidade o espírito de felicidade da reunião, e recitaria cânticos fúnebres tristes e lamentaria casamentos infelizes por causa da tragédia? Ou, inversamente, quando chamado para fazer o que é costumeiro para um morto, esqueceria a perda e conversaria alegremente com a companhia que está mergulhada em tristeza? Se na vida terrena a ordem e o conhecimento são bons, certamente são muito mais apropriados nas grandes e celestiais coisas.
Cristo, então, ressuscitou hoje, o Deus, o insuportável, o imortal (espere um momento, gentio, e contenha-se do riso precipitado até ouvir tudo), não tendo sofrido por necessidade, nem sido compelido a descer do céu, nem experimentado a ressurreição como um benefício inesperado além de suas esperanças, mas conhecendo o fim de todas as coisas e, nesse conhecimento, fazendo o princípio. Com olhos divinos, Ele tinha conhecimento do que estava por vir e viu, antes de Sua descida do céu, o tumulto das nações, a obstinação de Israel, Pilatos sentado diante d´Ele, Caifás rasgando suas vestes, a multidão rebelde fervendo, Judas traindo, Pedro lutando por Ele e, logo depois, transfigurado pela ressurreição na glória da incorrupção; E Ele tinha todo o futuro gravado em Seu conhecimento, mas não adiou Sua bondade para com a humanidade nem postergou a providência. Mas assim como aqueles que veem um homem fraco sendo arrastado por uma torrente, e embora saibam que também podem ser presos na lama e sofrer o impacto das pedras trazidas pela água, por compaixão por aquele em perigo não hesitam em mergulhar, assim também o nosso bondoso Salvador aceitou de bom grado insultos e humilhações para salvar aquele que perecia por causa do engano. Ele desceu à vida terrena, pois conhecia de antemão a Sua gloriosa ascensão; permitiu que a Sua parte humana morresse, pois também previa a ressurreição. Pois não assumiu um risco perigoso como um homem comum, apostando o resultado na incerteza do futuro, mas, como Deus, direcionou o que estava por vir para um fim determinado e conhecido.
São Gregório de Nissa
tradução de monja Rebeca (Pereira)







