PALESTRA SOBRE A ASCENSÃO DO SENHOR – PARTE 4

Foi isto que o Salvador disse no Evangelho: “Mas daquele dia e hora ninguém sabe” (Mt 24:36). E quando os discípulos Lhe perguntaram: “Senhor, restaurarás neste tempo o reino a Israel?”, Ele respondeu: “Não vos compete saber os tempos ou as épocas que o Pai reservou para a Sua própria autoridade. Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis Minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1:6-8).

Ele estava falando-lhes sobre outro reino, o espiritual, por meio de parábolas. Mas mesmo após a Sua Ressurreição, os discípulos não estavam convencidos de que Ele era Deus e Homem. Portanto, Ele teve que falar-lhes com clemência e comer com eles. Então Cristo lhes disse: “Toda a autoridade Me foi dada no céu e na terra” (Mt 28:18). Para os Santos… João e Tiago, e outros discípulos mais próximos a Ele, acreditavam que Cristo estabeleceria um reino terreno e colocaria os doze apóstolos em doze tronos para serem ministros e governarem o mundo. Mas não foi para isso que Cristo veio. Diante de Pilatos, Ele disse: “O Meu Reino não é deste mundo” (João 18:36). Ou seja, “Eu sou o Rei, o Altíssimo acima do reino mais alto, acima do céu e acima do inferno. Portanto, o Meu Reino não é daqui”.

Cristo veio para estabelecer o reino espiritual que o Arcanjo Gabriel havia predito na Anunciação à Santíssima Mãe de Deus, dizendo: “Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor Deus Lhe dará o trono de David, Seu pai, e reinará para sempre sobre a casa de Jacob, e o Seu Reino não terá fim” (Lucas 1:32-33).

O Reino do Salvador, como declarado no Credo, não terá fim — nem neste mundo, nem para sempre. Ele lhes disse isto sobre o Seu Reino: “Do alto sereis revestidos de poder” (Lc 24:49). Isto é, sereis revestidos do poder do Espírito Santo. Falareis em todas as línguas debaixo do céu e pregareis o Evangelho a todo o mundo. “Eu vos envio sem cajado, mas pastoreareis o mundo inteiro; Eu vos envio sem alforje, mas herdareis todas as riquezas”, escreve Santo Efrém, o Sírio. “Recebereis poder do alto, pregareis em Meu Nome por toda a terra e lançareis o fundamento do Meu Reino espiritual, que não terá fim — nem nesta era, nem na próxima.”

Foi isso que Cristo lhes disse. E em outra ocasião, Ele disse: “Mas daquele dia e hora [quando chegar o fim] ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente o Pai” (Mt 24:36).

Mas como é possível que o Filho não soubesse de algo se Ele é consubstancial ao Pai? É verdade que Cristo também tinha uma alma humana, e Sua alma estava unida ao Seu corpo como fogo e ferro. Mas se os profetas tinham tanta sabedoria espiritual a ponto de conhecerem o futuro na carne, como poderia Cristo não saber quando seria o fim do mundo? Eis o que Santo André e Santo Máximo, o Confessor, dizem sobre isso: “Pois nem mesmo o Filho que assumiu a natureza humana — isto é, a natureza simples que carregamos — sabe”. Assim como nós não sabemos o que acontecerá amanhã, Cristo, enquanto homem, também não o sabia.

E a outra razão pela qual Cristo disse que nem mesmo o Filho sabia disso foi a seguinte: quando o anticristo vier, ele se fará passar pelo Filho de Deus, e as pessoas começarão a dizer: “Este é o fim, porque não há chuva e só há problemas e sofrimento”. E que os fiéis não se deixem enganar pelo anticristo, que declarará ser o Filho de Deus e saber quando virá o fim do mundo, mas que digam: “Sabemos pelas Sagradas Escrituras que nem mesmo o Filho sabe quando virá o fim do mundo, então como você sabe disso?” (segundo Santo André). É por isso que o Filho disse que não sabia — não porque Ele não soubesse, pois isso seria impossível, já que Ele é a Sabedoria e a Palavra de Deus.

Meus irmãos, porém, ao refletirmos sobre o fim do mundo, reflitamos também sobre o nosso próprio fim. Não devemos nos importar com quando o mundo acabará. Talvez daqui a 100 anos, ou talvez daqui a mil — quando Deus quiser. É melhor pensarmos no nosso próprio fim. Para mim, o meu fim é o fim do mundo. Se eu morrer daqui a uma hora, por que me importaria que outras pessoas vivessem depois de mim? Se eu for enterrado amanhã, o mundo acabará para mim e eu irei para a eternidade. O que me restará? O que eu coloquei na minha mochila!

Quando você vai fazer uma trilha, leva provisões: cebolas, um pão redondo, uma garrafa de vinho, sapatos, um cinto, um chapéu e um casaco de pele de carneiro para se proteger do frio. Você coloca tudo isso na sua mochila. E quando para para descansar, o que tira da mochila? O que você colocou lá antes, certo? É isso que você encontrará nela. E encontraremos um copo d’água que oferecemos a alguém em nome do Senhor, uma palavra gentil, uma esmola dada a alguém, etc. Se ajudamos nosso irmão; se oramos por aqueles que nos afligem, para que Deus tenha misericórdia deles em vez de puni-los; se não mencionamos o nome do diabo; se oramos, jejuamos, vigiamos e lemos as Sagradas Escrituras; se ajudamos os sofredores e indigentes; se vestimos os nus e abrigamos um estrangeiro, então encontraremos tudo isso na jornada eterna, porque colocamos tudo isso em nossa “bolsa”.

Como disse um filósofo grego, o tempo entre o nascimento e a morte é um instante breve. Quem viu o nascimento, inevitavelmente verá a morte. Uma vez que nascemos, certamente morreremos. Iniciamos nossa jornada no nascimento e só chegamos à morte. Disso temos certeza. O sol aparece ao amanhecer, nasce ao meio-dia e se põe ao pôr do sol — nossa vida é a mesma. “Nascemos”, seguimos em frente sem demora e entramos na morte. Lembremo-nos sempre disso!

Todos nós morremos (Eclesiástico 25:27), diz Jesus, filho de Sirac. Todos nós morremos, mas simplesmente não sabemos qual caminho nos aguarda. É por isso que Cristo disse: “Estejam atentos, vigiem e orem, porque vocês não sabem quando chegará a hora” (Marcos 13:33; cf. Mateus 24:42). Eu sei que vou morrer, mas não sei quando. Esta é uma pergunta grande e terrível. Talvez agora, talvez daqui a uma hora… O que levarei comigo? Meu anjo da guarda, que me exortou a fazer o bem, e minhas ações, boas e más, é isso que me acompanhará através dos “pedágios” aéreos, até Cristo e o Juízo Final.

Portanto, meus irmãos, há um grupo inteiro de vocês aqui, e eu não sei de onde vêm, mas tenho certeza de que seus anjos da guarda os trouxeram até aqui. Vocês ouviram este sermão; eu queria lhes dizer algo que vocês pudessem compartilhar com outros. Bem-aventurado e três vezes bem-aventurado é o cristão que, a cada hora e a cada dia, coloca algo em sua “bolsa” para a era vindoura! O que ele coloca lá são suas boas ações. Assim, quando passarmos pelos “pedágios” aéreos e quando os demônios vierem mostrar nossas palavras, ações e pensamentos, poderemos responder: “Sim, eu fiz o mal, mas confessei ao meu Pai-Confessor”.

Se alguém se confessa a um sacerdote, o Espírito Santo apaga todo o mal que fez. E diremos no Juízo Final: “Sim, pratiquei o mal, mas também dei esmolas, fiz prostrações, jejuei, confessei meus pecados, mostrei misericórdia aos pobres, ajudei, falei bem e perdoei aqueles que pecaram contra mim”. Tragamos também isso, para que tanto o bem quanto o mal possam ser pesados. Bem-aventurado e três vezes bem-aventurado aquele que se prepara para a jornada celestial.

O que Cristo diz sobre isso? “Entra em acordo depressa com o teu adversário, enquanto ainda estás a caminho com ele” (Mt 5:25). Quem é esse “adversário”? Nossa consciência. Se você faz algo ruim, se peca com palavras, sua consciência o repreende por dizer coisas ruins sobre outra pessoa. Se você bateu em alguém, mentiu, roubou algo, amaldiçoou alguém, pegou algo de outra pessoa, você se sente culpado todas as vezes. A consciência revela tudo o que você fez. A consciência é a voz de Deus nas pessoas. É o adversário que já está nos acusando, e se fizermos as pazes com ele, é bom. Porque, reconciliando-nos com esse adversário, reconciliamo-nos com Deus, pois essa é a Sua voz. E podemos fazer as pazes com ele se confessarmos, nos arrependermos do que fizemos de errado e resolvermos não repetir o erro, mas praticar boas obras e guardá-las para o futuro — é assim que fazemos as pazes com o adversário.

O Senhor diz: “Entra em acordo depressa com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele”. O “caminho” é a vida presente, porque caminhamos continuamente por ele. Milhões de milhões de pessoas — todos nós caminhamos por ele do nascimento à sepultura. E o que diz o Espírito Santo em Kathisma 17? “Bem-aventurados os irrepreensíveis no caminho, que andam na lei do Senhor” (Salmo 118:1). Ouvis a quem o Espírito Santo abençoa? Aqueles que caminham neste caminho — isto é, do nascimento à sepultura, “irrepreensíveis” — isto é, sem pecados: aqueles que andam no caminho do Senhor. “Bem-aventurado o homem que teme ao Senhor, que se deleita muito nos Seus mandamentos” (Salmo 111:1). Aquele que teme a Deus no caminho desta vida teme pensar, dizer e fazer coisas más. Aquele que teme a Deus possui toda a sabedoria. Pois o Rei Salomão disse: “O temor do Senhor é a instrução da sabedoria” (Provérbios 15:33). E o Rei David chama isso de princípio da sabedoria (Salmo 110:10). E Jesus, filho de Sirac, diz: “O temor do Senhor é a coroa da sabedoria” (Eclesiástico 1:18).

Aquele que teme a Deus está acima de todos os sábios desta era. E São João Crisóstomo diz: “Vai, homem, a um túmulo, fica lá por um instante e pensa naquele que ali está sepultado! Sabe que amanhã serás como ele”. Aprenderás mais com os túmulos do que com todas as escolas filosóficas do mundo. A pessoa mais sábia do mundo é aquela que pensa na morte. Por quê? Jesus, filho de Sirac, diz: “Em todas as tuas obras, lembra-te do teu fim, e nunca pecarás” (Eclesiástico 7:39).

Se tivermos em mente que vamos morrer, então, naturalmente, ponderamos nossas palavras, pensamentos e ações, e não precisamos temer as pessoas. Sabemos que Deus está em toda parte e conhece nossos pensamentos, e por temor a Ele praticamos boas ações. Três vezes bem-aventurados aqueles que, nesta curta vida, cuidam de suas almas e se reconciliam com Deus.

Adão viveu 930 anos e, antes de sua morte, um anjo lhe perguntou: “Adão, como lhe pareceu a vida?”

“Mestre, foi como se eu tivesse entrado por uma porta e saído por outra.”

Nossos setenta anos são como uma teia de aranha. E há algo mais frágil do que uma teia de aranha? Os dias da nossa vida chegam a setenta anos; e, se pela força chegassem a oitenta, a sua força seria trabalho e enfado (Salmo 89:10). Você já ouviu isso no Saltério. Nossa vida passa muito depressa — nossa jornada é muito curta. Portanto, três vezes bem-aventurados aqueles que, em nossa curta jornada, acumulam provisões para a sua jornada rumo ao céu. Amém!


Ancião Cleopas (Ilie)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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