PALESTRA SOBRE A ASCENSÃO DO SENHOR – PARTE 3

Enquanto os apóstolos e evangelistas estiveram com Cristo, não O conheceram perfeitamente. São Pedro disse que acreditava, mas depois negou, pois não tinha certeza absoluta. Certo dia, chegaram a uma aldeia na Samaria e não foram recebidos, porque o Seu semblante era como se estivesse indo para Jerusalém. Os discípulos disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu e os consuma, como Elias fez?” Mas o Salvador respondeu-lhes mansamente: “Não sabeis de que espírito sois” (Lc 9:53-55).

Eles não sabiam que estavam com Deus, conversando com Ele, sentando-se à mesma mesa e caminhando com Ele. Por isso, Ele lhes diz: “Porque o Filho do Homem veio salvar o que se havia perdido” (Mt 18:11).

E em outra ocasião, os filhos de Zebedeu resolveram dizer: “Concede-nos que nos assentemos, um à Tua direita e o outro à Tua esquerda, na Tua glória” (Mc 10:37). Em outra ocasião, São Pedro discutiu com os outros sobre quem era o maior. E um dia São Filipe perguntou-lhe: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”. E Jesus respondeu: “Há tanto tempo estou convosco, e ainda não me conheces, Filipe? Quem Me vê, vê o Pai” (Jo 14:8).

Percebe? Os discípulos não conheciam o seu Mestre, não conheciam Cristo — o Salvador do mundo que realizou tantos milagres. Ele ressuscitou os mortos, multiplicou os pães e expulsou demônios, mas eles ainda não sabiam que Ele era o verdadeiro Deus.

Quem lhes revelou o mistério da vinda de Deus à Terra e da encarnação de Deus Verbo? O Espírito Santo. Pois Jesus disse: “Quando vier o Espírito da verdade, Ele os guiará a toda a verdade” (João 16:13).

Vocês sabem o que Cristo fez? Foi como se um grande rei, o mais glorioso do mundo, tivesse vindo e escondido sua coroa, seu manto e todas as insígnias de seu poder real, indo viver com um camponês em alguma aldeia, chegando lá como um homem pobre onde ninguém o conhecia, com os moradores locais zombando dele e o desonrando. Cristo não foi desonrado pelos judeus? Não lhe disseram que Ele era um “samaritano”, que estava “possuído por um demônio” e que “expulsava demônios pelo poder de Belzebu”?

No entanto, depois de algum tempo, o rei teria colocado sua coroa, cetro e manto e lhes dito: “Este sou eu! Vivi com vocês como um escravo, mas sou o rei de todo o mundo”. Quanta vergonha, remorso e arrependimento devem ter sentido as pessoas que espancaram o rei quando ele era escravo, mas não o reconheceram!

Os discípulos vivenciaram a mesma coisa hoje. Choraram e uma grande angústia tomou conta de seus corações: “Ele é Deus, e nós caminhamos com Ele — e tantas vezes respondemos com ousadia, não acreditamos em Seus milagres e quisemos fazer algo diferente do que Lhe agradava!” E os discípulos se arrependeram, porque agora sabiam verdadeiramente que Ele era o próprio Deus.

Afinal, o Salvador lhes havia dito: “Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu” (João 3:13). Pois somente Ele ascendeu ao céu; os outros, como eu lhes disse, não ascenderam ao céu, mas “como se tivessem ido ao céu”. Ouçam o que o santo Rei e Profeta David disse: “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus, e a Tua glória acima de toda a terra” (Salmo 107:6).

Portanto, hoje Jesus Cristo ascendeu acima de todos os céus, e eu lhes mostrei as razões pelas quais Ele ascendeu:

Primeiramente, para nos enviar o Espírito Santo;

Em segundo lugar, para cumprir a missão que nos foi designada;

E em terceiro lugar, para nos elevar da morte para a vida, do inferno para o céu e do pecado para a virtude. Para nos tornar não anjos, mas deuses pela graça.

Assim, o homem, criado à Sua imagem e semelhança, ascende até onde lhe é possível. Se ele crê e sobe os degraus da ascensão espiritual, que mencionei, ele também se torna deus — mas pela graça, não pela natureza. Pois vocês ouvem o que diz São Basílio o Grande? “Deus fez o homem rei sobre toda a terra e o fez deus sobre toda a Sua criação.”

Vocês ouvem? O homem é o rei da terra e deus sobre toda a criação de Deus! Era isso que Ele queria que fôssemos. Mas o homem se mistura com as feras, torna-se como elas, acostuma-se à vida bestial e se torna pior que os demônios. E é isso que causa a queda que nos derruba — o pecado. E o que nos eleva é a graça de Deus, que eleva as almas.

Não foram apenas Enoc e Elias, não foram apenas alguns patriarcas e profetas que ascenderam; simultaneamente à Ascensão de Cristo, todos os santos e todos aqueles que Cristo havia tirado do inferno também ascenderam. Não para o céu, mas para o Paraíso, porque somente Cristo entrou no céu. E após o Juízo Final, todos os salvos entrarão no céu. Pois o Evangelho proclama: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). Não diz: “Deles é o Paraíso”. Pois está escrito que “Onde o pecado abundou, a graça superabundou” (Rm 5,20). Adão foi expulso do Jardim do Éden, mas a vinda de Cristo contra Satanás dá maior glória à família de Adão. Ele não a traz de volta ao paraíso; todos os santos e justos de Deus permanecem no Paraíso somente até o Juízo Final; e após o Juízo Final, Deus não levará os santos para o Paraíso, mas para o céu.

Assim, o homem foi expulso do Paraíso, mas se pela graça de Cristo ele lutar e for salvo, então sua morada será no céu — no Reino dos Céus.

Assim, a graça de Deus, dada à natureza humana, abundou. E São João Damasceno pergunta: Para quê? Para o corpo! Mas por que Ele não teve misericórdia dos demônios? Afinal, eles caíram do céu e se tornaram demônios. Caíram sem corpos, e o que é a morte para o homem é a queda para os anjos. Os anjos não podem se redimir após a queda, mas o homem — graças ao corpo — recebe o arrependimento até a morte, até o último suspiro.

Se ele se arrepende, Deus o aceita e pode transformar um homem demoníaco em um anjo e deus pela graça, e elevá-lo ao céu. Afinal, por causa da fraqueza do corpo, Deus foi crucificado, veio e se revestiu de carne para exaltar a nossa natureza — não à altura dos anjos, não à dos querubins, mas à direita do Pai. A natureza humana está assentada no trono da Divindade, onde Jesus Cristo está. E isso apesar de Satanás. Pois o que Deus disse?

“Expulsastes o homem do Paraíso? Mas eu deificarei a natureza humana, a levarei para o céu, revesti-me da sua natureza e a farei sentar-me no trono com o Pai, e vereis a flor — que colhestes no Paraíso e pisastes — sentada no trono da Divindade!”

Esta é a obra de Deus e a Sua vingança pela inveja de Satanás.

Meus irmãos, quando Adão tinha 700 anos, como diz a Crônica do monge bizantino Georges Kedrenos, já idoso (Adão viveu 930 anos, como dizem as Escrituras (cf. Gn 5:5)), ele adormeceu sob um carvalho. E enquanto dormia, o Arcanjo Uriel veio até ele. Permitam-me lembrar que os sete grandes espíritos, os sete Arcanjos, comandam as hostes angelicais: Miguel, Gabriel, Rafael, Baraquiel, Selafiel, Jegudiel e Uriel. O nome “Uriel” significa “Fogo e luz divinos”.

Então, quando Adão acordou, viu um anjo à sua cabeceira que lhe disse: “Adão! O que você está fazendo?” Adão não tinha medo de anjos, pois havia convivido com eles no Jardim do Éden. Ele respondeu: “Mestre, estou descansando.” “Adão, levante-se!”, disse o anjo. “Você sabe o que sua família terá que suportar?”

“Não, Mestre, mas diga-me o que Deus fará com a minha família, pois vejo que ela foi completamente corrompida. Tenho milhares de netos e bisnetos, e todos eles são corruptos. Senhor, o Senhor me expulsou do Paraíso por um único pecado, e quanto a eles? Tornaram-se fornicadores, bêbados e vis, e o mundo está cheio deles. O que Deus fará com eles? Sei que Deus odeia o pecado e não pode, de modo algum, ser amigo de um pecador e de uma pessoa abominável perdoar seus pecados sem arrependimento. Sei que nada impuro entrará no Reino dos Céus. O que Deus fará com a minha família?”

O Arcanjo Uriel respondeu: “É por isso que Deus me enviou para lhe dizer. Saiba, Adão, que as pessoas se multiplicarão enormemente, e quanto mais se multiplicarem, piores se tornarão. E Deus enviará dois dilúvios à Terra.”

Adão perguntou, intrigado: “O que é um dilúvio, Mestre?”

“Adão, um dilúvio significa que virá muita água e muito fogo. A água subirá e cobrirá todo o planeta, e um dilúvio de fogo queimará o mundo inteiro.”

“Quando isso acontecerá?” O anjo respondeu: “Adão, descanse e durma bem, pois voltarei outro dia.”

E Adão deitou-se para descansar, e em outra ocasião, quando estava forte o suficiente, o Arcanjo Uriel voltou e lhe disse: “Adão, o que você quer saber?”

“Diga-me, Mestre, quando haverá um dilúvio? E qual dilúvio virá primeiro: o de água ou o de fogo?”

E o Arcanjo Uriel respondeu: “Escuta, Adão! Deus está te dizendo isto: constrói uma coluna de pedra com quarenta e cinco côvados (cerca de 70 pés) de altura. Quando ergueres esta coluna de pedra, coloca um vaso com água sobre ela e acende uma grande fogueira na sua base. Depois de terminares este trabalho, serás vencido pelo sono. E quando acordares, presta atenção: se o fogo tocar a pedra e começar a queimar a coluna, então o fogo virá primeiro. Mas se a água derramar do vaso e apagar o fogo, saiba que a água virá primeiro.”

E Adão perguntou a Uriel: “Mestre, há outros sinais?” Uriel respondeu: “Há outros sinais também. Por exemplo, saiba que antes do dilúvio, as pessoas beberão água sem parar, dia e noite, e depois, antes do dilúvio de fogo, elas soltarão fumaça.”

E Adão construiu a coluna, da qual o Arcanjo Uriel havia falado. Então, ele disse a seus filhos e netos: “Recebemos uma ordem divina para construir uma coluna alta, colocar um vaso com água sobre ela e acender uma fogueira em sua base, pois então nos será mostrado qual dilúvio virá primeiro: o de água ou o de fogo.”

Depois que Adão terminou a coluna de pedra, colocou um vaso com água no topo e acendeu uma fogueira em sua base, foi vencido pelo sono e adormeceu. Ao acordar, viu que a água havia caído sobre a coluna e apagado o fogo. Assim, Adão aprendeu com certeza que o dilúvio de água viria primeiro. E assim foi. Pois, segundo as crônicas antigas de alguns povos, passaram-se 2.642 anos desde a criação do mundo até o Dilúvio.

Contudo, o anjo também disse que haveria outro sinal antes do Dilúvio. E isso também se cumpriu. Porque a história sagrada e as Crônicas testemunham que as pessoas beberam água sem interrupção no período que antecedeu o Dilúvio. Independentemente de terem comida ou não, bebiam água dia e noite e sempre a carregavam consigo em odres de cabra, em recipientes de barro e madeira. Sempre que se encontravam, perguntavam uns aos outros imediatamente: “Você tem água para beber?” “Sim, tenho.” E bebiam água, mas não conseguiam saciar a sede. Era um sinal de que a natureza humana pediria a Deus punição pela embriaguez com água.

E assim, com a eclosão do Dilúvio, as águas engoliram a todos. Restaram apenas Noé e outras sete pessoas que estavam com ele na arca. E a partir desses oito, a humanidade se multiplicou novamente. Assim, Noé tornou-se o segundo pai da raça humana, o segundo Adão, que, juntamente com sua família e os animais, foi salvo na arca.

E agora as pessoas continuam pedindo fogo e fumaça: “Você tem um cigarro?” “Você tem um isqueiro?” Em trens, bondes, trólebus, carroças e em todos os caminhos, todos perguntam uns aos outros: “Você tem um cigarro? Me dá um isqueiro.” Vocês ouvem isso? Estão procurando fogo! Portanto, Deus nos queimará com fogo. Tenhamos cuidado! As pessoas não sabem o que querem e não sabem o que estão pedindo, buscando fogo e fumaça. Elas vão para a cama com fogo e acordam com fogo pela manhã. Não oferecem uma oração, mas dizem: “Traga-me um cigarro! Mulher, dê-me um cigarro! Criança, traga-me um cigarro!”

Elas pedem fogo e fumaça, e fogo e fumaça as alcançarão. Mas sejamos vigilantes e extremamente prudentes, arrependamo-nos de nossos pecados e rejeitemos toda malícia. Estejamos vigilantes, pois ninguém sabe o dia nem a hora.

Ancião Cleopas (Ilie)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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