Finalmente, a Ressurreição do Senhor inaugurou e renovou a reconciliação do imperecível com o perecível; permitiu a entrada da graça divina incriada no vaso de barro, como outrora no paraíso, de modo que, após a sua Ressurreição, o Senhor pôde entrar no lugar onde os Seus discípulos estavam reunidos “a portas fechadas”. Eles conversavam sobre o que havia acontecido em Jerusalém; que o Senhor havia ressuscitado; e que lhes fora revelado em Emaús “na partilha do pão”. Pensavam estar vendo um fantasma, mas Ele os acalmou e disse: “Vede as Minhas mãos e os Meus pés para confirmarem que sou realmente Eu. Sintam e convençam-se, porque um ‘fantasma’, um ‘espírito’, não tem carne nem ossos como vocês veem que Eu tenho”. E assim, mostrou-lhes as Suas mãos e os Seus pés para convencê-los completamente.
Na pessoa de Cristo, portanto, coexistem simultaneamente, sem confusão ou divisão, o criado e o incriado; a graça divina do Espírito Santo no templo do Corpo de Cristo, que é tanto Deus quanto homem, e, como dom, pela graça, no templo do corpo de nós, meros humanos. No mundo natural, o principal, o mais rápido, o mais propício ao seu funcionamento é a luz, que surgiu pela palavra de Deus Criador. No mundo espiritual, o da relação e da comunhão mútua entre Deus e nós, a luz é novamente o meio direto. A luz do sol ilumina a natureza, a verdadeira luz de Deus “ilumina toda pessoa que vem ao mundo”, de modo que, “à luz da pessoa de Cristo”, somos capazes de ver o inacessível, a luz imaterial. Ao longo dos séculos, essa luz selou toda manifestação divina revelada nos eventos e nas pessoas do povo de Deus. A luz que o túmulo de Cristo, “mais brilhante que qualquer câmara nupcial”, emitiu na hora da Ressurreição é a luz da pessoa de Cristo, é a sua própria identidade, é a sua energia miraculosa, é a sua graça, que marca a vida de todos os santos, sem exceção, antigos e modernos. Em conversa particular, o recém-canonizado Santo Efraim Katounakiotis relatou que, em êxtase espiritual, viu Cristo “em toda a Sua glória”. Subiu ao topo da colina ao lado de sua cabana e gritou para todos ao redor, até mesmo para os anjos, para que saíssem do caminho e não impedissem aquela visão da luz divina. E ele não estava sozinho nisso. São Paisios nos conta que monges comuns, de coração puro, que haviam perdido a visão física, podiam ver a verdadeira luz e que tudo ao seu redor – suas cabanas, os riachos e os vales – estava repleto da luz de Cristo. Sua ressurreição nos concedeu a luz eterna e inextinguível de Cristo.
Nossos sentidos naturais e, particularmente, nossos sentidos espirituais estão sintonizados com a luz divina. Nossa mente e espírito são iluminados; compreendem e sentem; unem-se e ganham poder; e iniciam a grande tarefa de se aproximar e conhecer a Deus. Como diz outro grande santo, Nicolau de Ohrid, as pessoas que são focadas e em harmonia consigo mesmas têm muito poder neste mundo; elas ressuscitam. E o Ancião Aimilianos acrescenta que essa experiência de receber a luz da Ressurreição é algo que “sentimos como um reflexo nas profundezas de nossa existência… mas, em essência, vemos a profundidade da divindade de Cristo… Essas são coisas concedidas por Deus não aos sábios ou aos inteligentes, mas àqueles que simplificam sua existência… e fixam seu olhar interior em Deus. Essas são as pessoas a quem Deus concede a visão”.
Guardando os dons da Ressurreição do Senhor como tesouros preciosos, ofereçamos a Ele, caros leitores, algumas palavras de oração emprestadas do grande poeta, filósofo e santo Nicolau de Ohrid: “Minha fé Te vê, Senhor; esta é a luz e a visão dos meus olhos… Minha esperança Te espera, Senhor. A expectativa de Ti é o único conteúdo e o único significado para o meu amanhã e os dias que se seguirão… (Eu sei que) o céu não realiza esperanças, mas a Esperança. O amor me faz Deus e Tu, Deus, humano!
O Senhor é e se torna o Senhor Ressuscitado, Ele é o meu Senhor Ressuscitado que ressuscita os mortos “desde a manhã até o anoitecer e do crepúsculo ao amanhecer”. O que é mais próprio do Deus vivo do que ressuscitar os mortos? Que outros creiam num Deus que chama as pessoas e as condena. Eu me apegarei ao Deus que ressuscita os mortos”.
A luz emanou do túmulo; venham e recebam-na. Agora, fracamente, mais intensamente no dia eterno do Reino de Deus. Unamos nossas vozes à de nosso santo Pai, São João Crisóstomo: “Pois Cristo ressuscitou dos mortos e Se tornou as primícias dos que partiram. A Ele seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém”.
Geronda Elisaios de Simonopetra
tradução de monja Rebeca (Pereira)







