A RESSURREIÇÃO DA HUMANIDADE – PARTE 1

No magnífico serviço da Sexta-feira Santa, cantamos o comovente e maravilhoso doxastikon da Nona Hora: “Hoje, Aquele Que suspendeu a terra sobre as águas, está suspenso na cruz”, que termina com “Veneramos a Tua Paixão, ó Cristo. Mostra-nos a Tua gloriosa Ressurreição”.

Em seguida, no doxastikon das Vésperas do Sábado Santo, o dia “em que o Filho Unigênito de Deus repousou de todos os Seus trabalhos, através da dispensação da morte”, vimos que o Senhor repousou no corpo, porque este é o bendito Sabbat, o grande dia do repouso do Senhor.

E hoje, o Criador do céu e da terra ‘retorna ao lugar onde estivera…’ e nos mostra a Sua gloriosa Ressurreição. Assim, o santo dia da Páscoa chegou também este ano como uma brisa refrescante neste mundo conturbado e atormentado. Ele veio, Ele retornou vivo, para nos encher de alegria e despertar em nós a profunda consciência de que somos eternos e de que o nosso último inimigo, a temida morte, foi finalmente vencido.

O Senhor Ressuscitado abriu-nos novamente o caminho para os céus, ‘quebrando os portões de bronze’. Ele nos ressuscitou, reconciliou-nos com Deus Pai e removeu os obstáculos ao nosso progresso desimpedido rumo à eternidade, a ‘cidade eterna’, celestial e indestrutível.

Todos os anos, com hinos e louvores, odes e tropários, tamborins e danças, símbolos e cerimônias, adornados com materiais preciosos, arte, vestes perfumadas e flores, até mesmo com iguarias requintadas, em outras palavras, com todas as nossas riquezas humanas, espirituais e naturais, a Igreja procura nos inserir nesse ambiente jubiloso. Tudo transborda alegria, efervescência e exuberância, para nos dar um vislumbre da glória e da doçura do Paraíso e nos conduzir à grande revelação de nossa alma. Hoje, celebramos não apenas a Ressurreição do Senhor, prova do poder do Pai, mas, sobretudo, a nossa própria ressurreição, a herança da vida eterna que Cristo nos concedeu como dom irrevogável e único, por Sua morte e ressurreição.

É São Lucas Evangelista quem primeiro relata a resposta do Senhor a respeito da ressurreição dos mortos: “Aqueles que são considerados dignos de alcançar a ressurreição dentre os mortos… não podem mais morrer, pois são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição”. E com extraordinária ousadia e clareza, São Paulo afirma em seu capítulo sobre a nossa ressurreição: “Ora, se não há ressurreição dos mortos, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã também a vossa fé… Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais miseráveis ​​de todos os homens”.

A verdade, porém, é que Cristo ressuscitou e instituiu a ressurreição de todos os falecidos. Porque, assim como a morte entrou no mundo por meio de uma pessoa, também, por meio de outra pessoa, veio a ressurreição dentre os mortos. Assim como todos nós morremos por nossa ligação com Adão, também, por nossa ligação com Cristo, todos nós somos trazidos de volta à vida.

A chave para a nossa própria ressurreição, então, é produzida a partir do ouro precioso, indestrutível e imaculado da Ressurreição do Senhor. Sem a Ressurreição do Senhor, de que servem as ações, as lutas e os sacrifícios? Como São Paulo diz diversas vezes, por que arriscaríamos nossas vidas todos os dias? “Se lutei com feras em Éfeso [por razões puramente humanas, não por Deus e pela esperança dos bens vindouros], que proveito tenho nisso? Se os mortos não ressuscitam, ‘Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos!’”.

O fundamento da nossa fé ortodoxa está alicerçado na rocha inabalável da Ressurreição do Senhor. Em essência, é isto que confessamos, é por isto que sofremos e morremos, na crença e na esperança da nossa própria ressurreição. A Ressurreição do Senhor é um diálogo amoroso de palavras, alegria e comunhão com Deus, um diálogo com o Seu Nome. É isto que O tornou a nossa esperança pessoal e viva na luta titânica da vida espiritual contra o pecado, que quer nos reconduzir à lei e nos sujeitar aos seus grilhões. O pecado, na verdade, não tem poder sobre nós porque estamos sob a graça, não sob a lei.

Todos os dias, a cada instante, Cristo, que Se tornou a nossa esperança, dá-nos a oportunidade de nos levantarmos após os nossos deslizes e de nos libertarmos da servidão ao pecado, que nos sujeita à lei do pecado e ocupa os nossos corpos. São Paulo clama com razão: «Miserável homem que eu sou! Quem me livrará deste corpo de morte?». E responde imediatamente: «Dou graças a Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor!». Jesus Cristo, nosso Senhor ressuscitado, porque agora não há condenação para o seu povo… Por causa dele, a lei do Espírito que dá vida nos libertou da lei do pecado e da morte.

Dessa forma, a Ressurreição do Senhor não é apenas uma mensagem grandiosa ou eterna, mas constitui um evento cotidiano e uma experiência pessoal no decorrer de nossa vida na Terra. Não há nada além da Ressurreição que seja tão poderoso e oportuno a ponto de nos proporcionar conforto, força e coragem. Nada mais pode nos dar vida, felicidade e glória futura, a nós e à humanidade como um todo.

O Espírito do Pai, o Pai que ressuscitou Jesus dentre os mortos, dará vida aos corpos daqueles que morreram de todo tipo de sofrimento, dúvida, questionamento e provação. Ele o fará por meio do Seu sopro que habita neles, quando este corpo perecível for revestido de permanência, quando o mortal for revestido de imortalidade. Então, as palavras de São Paulo se tornarão verdadeiras: “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?”

Mas a Ressurreição do Senhor não nos tornou imperecíveis e imutáveis ​​aqui e agora, mas Deus nos deixou a mutabilidade como uma bênção para cumprir Sua promessa original: a da nossa liberdade. Nossa queda não alterou a intenção de Deus; simplesmente mudou Seu plano, mas manteve a liberdade como o componente essencial da natureza humana, que nenhum pecado, desastre, guerra, pandemia ou condição extrema pode abolir. A mutabilidade, como o sublime teólogo São Gregório de Nissa tão maravilhosamente afirma, não é meramente a oportunidade de uma mudança para pior, pois então nenhum bem jamais seria feito, se a natureza humana se inclinasse constantemente para o oposto. Ora, a maior conquista da mutabilidade é a prática das virtudes; é como uma asa que auxilia no voo ascendente, em vez de uma espiral descendente. Dessa forma, a “coisa terrível que é a mutabilidade” torna-se uma força para a mudança para melhor. O santo nos exorta a não ficarmos tristes quando “vemos a inclinação de nossa natureza para a mudança, mas que sejamos transformados para melhor, transformados de glória em glória”.


Geronda Elisaios, Abade do Monastério de Simonopetra
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

2 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes