CATEQUESES DO METROPOLITA HILARION (ALFEYEV) – PARTE 13

OS ATRIBUTOS DA IGREJA

As palavras do Credo Niceno-Constantinopolitano, “Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica”, definem a Igreja como um organismo divino-humano.

A Igreja é Una, pois é constituída à imagem da Santíssima Trindade e revela o mistério da unidade em essência, embora seja diferenciada em hipostases: ela consiste em uma multidão de pessoas hipostáticas separadas, unidas pela unidade na fé e nos sacramentos. Como diz São Paulo: “Há um só corpo e um só Espírito… um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, Que é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4,4-6). Foi pela mesma unidade entre os cristãos que Jesus Cristo orou na Última Ceia: “Pai Santo, guarda-os em Teu Nome, que Me deste, para que sejam um… Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que crêem em Mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um; assim como Tu, ó Pai, estás em Mim, e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós’ (João 17:11-21).

São Paulo fala da santidade da Igreja comparando Cristo a um Noivo e a Igreja à Sua Noiva: “Cristo amou a Igreja e a Si mesmo Se entregou por Ela, para A santificar… para A apresentar a Si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5,25-27). A santidade da Igreja é condicionada não pela santidade de Cristo como Sua cabeça, mas pela santidade à qual todos os seus membros são chamados. Os apóstolos, em suas epístolas, referem-se aos cristãos como “os santos”, sugerindo assim que a santidade não é um ideal inatingível, mas a norma para os membros da Igreja. Todo cristão é chamado à santidade e, ao longo da história da Igreja, houve verdadeiros santos; no entanto, são muito poucos os santos que conseguiram transcender o pecado e as paixões. A maioria dos cristãos são pecadores que são membros da Igreja não em virtude de uma santidade alcançada, mas em virtude de sua busca por essa santidade e de seu arrependimento. A tarefa da Igreja é santificá-los e conduzi-los a Deus. Nesse sentido, diz-se dos cristãos que eles estão in patria et in via — na pátria e a caminho, isto é, simultaneamente dentro da Igreja e, ao mesmo tempo, a caminho em direção a Ela.

A palavra católico (do grego katholike) significa “universal”, unindo os cristãos dispersos pelo mundo, incluindo os santos e os falecidos. São Cirilo de Jerusalém afirma que “a Igreja é chamada católica porque ensina universal e incessantemente tudo o que deve fazer parte do conhecimento humano — o dogma do visível e do invisível, do celestial e do terreno…”. No início, a Igreja era uma pequena comunidade composta pelos discípulos de Cristo em Jerusalém. No final do primeiro século, porém, devido à pregação dos apóstolos, comunidades foram formadas em Roma, Corinto, Éfeso e em outras cidades da Europa, Ásia e África. Todas essas comunidades, cada uma chefiada por seu próprio bispo, constituíam uma única Igreja “universal” com Cristo como Cabeça.

A apostolicidade da Igreja deriva do fato de ter sido fundada pelos apóstolos, preservar a verdade de seus ensinamentos, receber deles a sucessão e continuar sua missão na Terra. Que a Igreja é “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas” é afirmado por São Paulo (Ef 2,20). Por sucessão apostólica, entendemos a cadeia ininterrupta de ordenações (consagrações episcopais) que remonta aos apóstolos e chega aos bispos atuais: os apóstolos ordenaram a primeira geração de bispos, que por sua vez ordenaram a segunda geração, e assim por diante até os nossos dias. As comunidades cristãs cuja sucessão foi interrompida são consideradas afastadas da Igreja até que sua sucessão apostólica seja restaurada. Os bispos continuam a missão dos apóstolos na Terra — uma missão de ministério, pregação, orientação das comunidades eclesiais existentes e criação de novas.

Não apenas os bispos e os sacerdotes, mas todos os membros da Igreja são chamados a um serviço apostólico e missionário, para pregar Cristo em palavras e ações: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Esta missão, que foi confiada por Cristo aos apóstolos e seus sucessores, está atualmente longe de ser concluída. Existem na Terra nações inteiras que mal foram tocadas pela pregação de Cristo, vastas áreas onde a palavra do Evangelho ainda não foi plenamente ouvida. Alguns países que antes eram cristãos agora retornaram ao paganismo e à descrença e exigem uma nova pregação do Evangelho, novos apóstolos.

A HIERARQUIA DA IGREJA

Desde os tempos apostólicos, existia na Igreja um sacerdócio hierárquico: certos homens escolhidos para celebrar a Eucaristia e liderar o povo. O Livro dos Atos (6:6) fala da eleição de sete diáconos (do grego diakonos, “servo” ou “ministro”) e de sua designação para servir. Os apóstolos fundaram comunidades cristãs nas diversas cidades do Império Romano, onde pregavam e ordenavam bispos e presbíteros para liderar essas comunidades.

A tríplice hierarquia de bispos, presbíteros e diáconos existe na Igreja desde tempos muito antigos, embora provavelmente não desde o primeiro século.

Nas cartas dos apóstolos, não vemos nenhuma distinção clara entre bispo e presbítero — ambos os termos são usados ​​com mais frequência como sinônimos: “Foi por isso que te deixei em Creta, para que corrigisses o que estava faltando e constituísses presbíteros em cada cidade, como te ordenei, se alguém for irrepreensível, marido de uma só mulher e seus filhos forem fiéis… Pois o bispo, como despenseiro de Deus, deve ser irrepreensível” (1 Tm 1:5-7). Nos tempos apostólicos, ainda não havia distinção entre diocese e paróquia: a comunidade eclesial, fosse em Creta, Éfeso ou Roma, incorporava todos os fiéis daquela cidade ou país e era uma Igreja “local” (isto é, uma Igreja daquela localidade).

Mas, à medida que a Igreja se expandia, surgiu a necessidade de presbíteros (sêniores) responsáveis ​​por comunidades em uma única província e com o direito de ordenar presbíteros para essas comunidades. Já no século II, Santo Inácio se refere claramente ao bispo como a cabeça da Igreja e aos presbíteros como seus concelebrantes, de uma só mente e em sujeição a ele: “Os presbíteros estão em harmonia com o bispo como as cordas de uma lira”. Ao se submeterem ao bispo, os presbíteros estão se submetendo a Cristo em Sua pessoa. Para Santo Inácio, o bispo personifica a plenitude da Igreja. Estar em desacordo com o bispo é romper com a Igreja. A tríplice hierarquia deve ser tratada com o maior respeito por parte dos fiéis: “Todos devem respeitar os diáconos como mandamentos de Cristo e os bispos como o próprio Jesus Cristo… os presbíteros devem ser respeitados como a assembleia de Deus, como a hoste dos anjos. Sem eles não há Igreja”.

A Igreja ensina que a imperfeição moral do celebrante em nada afeta a validade dos sacramentos, pois quando o sacerdote celebra os serviços ele é apenas um instrumento de Deus. É o próprio Cristo Quem batiza as pessoas, é Ele Quem oferece a Eucaristia e comunga as pessoas, é Ele Quem no sacramento da confissão absolve os pecados. No rito da confissão, o sacerdote diz ao penitente: “Eis que Cristo está aqui, invisível, e recebe a tua confissão… e eu sou apenas uma testemunha, dando testemunho diante d´Ele de tudo o que me disseste”. No entanto, se Cristo, em Sua infinita misericórdia, tolera servos pecadores da Igreja como tolerou Judas entre os apóstolos, isso de forma alguma justifica aqueles ministros da Igreja que são indignos de sua vocação.

A imperfeição moral do sacerdócio e os pecados e vícios do clero sempre foram uma doença e uma ruína para a Igreja. Eles minam a autoridade da Igreja aos olhos do povo e destroem sua fé em Deus, embora não afetem a validade dos sacramentos. Deus é julgado, acima de tudo, pelas ações de Seus servos, pois eles são a imagem de Cristo na Igreja. É de fato desmoralizante ver em um padre indiferença em vez de compaixão, desdém em vez de amor, depravação em vez de pureza moral, hipocrisia em vez de sinceridade. Um padre carrega no peito uma cruz com a imagem de Cristo crucificado pela humanidade. Espera-se, portanto, que ele demonstre a mesma compaixão e amor que o próprio Cristo demonstrou. “Seja o exemplo dos fiéis na palavra e no procedimento, no amor, na fé e na pureza”, diz São Paulo ao recém-ordenado Timóteo.

AS MULHERES NA IGREJA

Ao longo de toda a história da Igreja, somente homens foram autorizados a servir como padres e bispos. Esta não é uma tradição que decorre meramente da desigualdade entre homens e mulheres no mundo antigo. Desde o início, o sacerdócio tem sido um serviço de paternidade espiritual. Uma mulher pode ser mãe, esposa ou filha, mas não pode ser pai. E embora a maternidade não seja inferior à paternidade, sua missão, serviço e vocação são diferentes. Somente uma criança sabe o que distingue a paternidade da maternidade, mesmo que não consiga expressar isso em palavras. A diferença entre paternidade espiritual e qualquer outra forma de serviço é conhecida por todo cristão que tem um pai espiritual.

A Igreja Ortodoxa tem uma visão negativa da recente introdução do sacerdócio feminino em algumas comunidades protestantes. Isso não ocorre simplesmente porque a Ortodoxia é tradicional e conservadora, nem porque a Ortodoxia deseja denegrir as mulheres ou considerá-las inferiores aos homens. A Ortodoxia, levando a paternidade na Igreja muito a sério, não quer que ela desapareça, confiando às mulheres um serviço alheio a elas. Dentro do organismo da Igreja, cada membro desempenha funções específicas e é insubstituível. Não há substituto para a paternidade e, se a Igreja a perdesse, seria privada de sua integridade e plenitude, tornando-se uma família sem pai ou um organismo sem todos os seus membros necessários.

É neste sentido que podemos compreender a atitude cristã em relação ao matrimônio e ao papel da mulher na família. A família cristã é uma “pequena igreja” criada à imagem da Igreja de Cristo. De acordo com o ensinamento apostólico, é o marido, não a esposa, o chefe da família. No entanto, a liderança do homem não implica desigualdade. O poder do homem é o mesmo poder de amor que o poder de Cristo na Igreja: “Assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e a Si mesmo Se entregou por Ela… Cada um de vós ame a sua mulher como a si mesmo, e a mulher trate o marido com respeito” (Ef 5,24-25; 33). A liderança do marido é a sua prontidão para se sacrificar da mesma forma que Cristo ama a Igreja. Como chefe da família, o marido deve amar e respeitar a esposa: “Da mesma forma, maridos, tratem suas esposas com decência, honrando a mulher, como o sexo frágil, pois vocês são co-herdeiros da graça da vida” (1 Pedro 3:7). Não se trata de desigualdade, mas de uma unidade harmoniosa que preserva as diferentes funções que devem existir tanto na família quanto na Igreja. Pois, se a família é uma Igreja doméstica, então a Igreja é uma grande família.

A paternidade do padre não se limita à sua função de chefe e guia da comunidade. De fato, a liderança da comunidade às vezes é confiada a uma mulher. Por exemplo, os conventos ortodoxos estão sempre sob a orientação de uma Superiora (Igumena ou Abadessa), que dirige não apenas as monjas, mas também os padres que servem o monastério. Nos monastério da era bizantina, havia anciãs que tinham o direito de ouvir as confissões das monjas. Mesmo o sacramento do Batismo, em circunstâncias especiais, pode ser realizado de forma válida e legal por uma mulher, por exemplo, se o candidato estiver à beira da morte e não houver um padre por perto.

No entanto, não há casos na história da Igreja em que mulheres tenham servido na Liturgia ou ordenado padres, como acontece agora em algumas comunidades protestantes. O padre que celebra a Eucaristia simboliza Cristo, Deus que Se tornou homem, um homem. A Igreja atribui grande importância ao simbolismo litúrgico: na compreensão ortodoxa do simbolismo, entre o símbolo e a realidade há uma interdependência direta, de modo que, se o símbolo for alterado, há uma mudança na realidade que está por trás dele.

No entanto, na Igreja primitiva, havia diaconisas com uma ampla gama de obrigações. Por exemplo, elas ajudavam o bispo a realizar o sacramento do Batismo e participavam da celebração da Eucaristia. A questão da restauração da instituição das diaconisas está agora aberta à discussão em toda a Igreja Ortodoxa. Ela pode ser respondida positivamente por um Concílio Pan-Ortodoxo, se tal Concílio for convocado. De fato, muitos serviços importantes e insubstituíveis dentro da Igreja, semelhantes aos das diaconisas na Igreja primitiva, são realizados por mulheres hoje: elas assam o pão para a Eucaristia, leem e cantam na igreja e, com frequência, regem o coral.


Metropolita Hilarion (Alfeyev)
tradução de monja Rebeca (Pereira

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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