A BOA INCREDULIDADE DE TOMÉ

Em um de seus hinos, nossa Igreja chama a incredulidade de Tomé de “boa”. Compreensivelmente, alguém poderia se perguntar: existe incredulidade boa e má? Parece que sim, porque os seres humanos não são puramente bons ou maus. Em alguém que tem uma consciência limpa, um bom coração e pensamentos humildes, tudo é claro. Em alguém infectado com o vírus da incredulidade, tudo é obscuro e conturbado. Se ao menos tivéssemos a boa incredulidade do Apóstolo Tomé!

Diríamos que a dúvida, a hesitação e a pouca fé são normais para um homem que busca a Deus com a mente.

Os Apóstolos de Cristo suplicaram que Ele acrescentasse fé à fé que já possuíam. A incredulidade, porém, é uma grave doença espiritual. A fé está além da razão e a incredulidade é irracional. A incredulidade costuma ser densa, provém da frivolidade e da superficialidade de pensamento, e de uma vida instável e de uma consciência confusa.

O caso de Tomé, que estava ausente no início da aparição de Cristo Ressuscitado aos Seus discípulos, é típico. É fato que Tomé duvidou, não descrendo, mas pediu provas para confirmar a sua fé.

Conhecido por seu entusiasmo em outros momentos, Tomé não é um cético isolado e desfavorecido. Ele ousa, busca, investiga, indaga. Ele pede a verdade, busca contato direto com ela. Cristo não hesitou em oferecê-la a ele. Ele voltou ao seu encontro. Ele volta a cada um de nós.

A fé de muitos cristãos, por vezes, é morna, mais fria que a descrença. Temos fé como uma armadura, uma boa vestimenta para bater nos outros, mas não para receber a surra; para sermos apreciados, admirados e observados. Não ousamos aprofundar-nos nas crenças da nossa fé, não queremos de forma alguma desafiá-la e, talvez, expô-la. Uma fé forte proporciona saúde espiritual, equilíbrio, firmeza, poder, esperança e confiança em Deus. Às vezes, não tenhamos medo de admitir, nossa fé apresenta muitas evidências de patologias do ego secretas e sentimentalismo mórbido. Chega ao ponto de uma crença equivocada em um ceticismo antissocial, que oferece um péssimo exemplo aos outros. Buscar a Deus sendo assim é retroceder.

Tomé certamente não era de má fé, nem acreditava facilmente. Ele era cauteloso, franco, genuíno, sólido, honesto e verdadeiro. Era quem ele era. Sua boa incredulidade fez com que Cristo viesse até ele. Cristo Se ofereceu a ele por sua sinceridade. Ele não o repreendeu, pois este pediu para vê-Lo, para tocá-Lo. Mas, por fim, Ele abençoou aqueles que não veem e ainda assim creem.

A incredulidade é, naturalmente, uma escolha livre de cada um de nós. A incredulidade nos leva a basearmo-nos apenas no que vemos, compreendemos e assimilamos com lógica. Isso é coerção e uma facilidade cansativa. A fé, diríamos, vem com dificuldade, perigo, risco e ousadia. É por isso que Ele abençoou aqueles que creem sem provas tangíveis. A prova mais forte é a confirmação em nossos corações. O Tomé de difícil crença é nosso irmão; ele é fraco, mas certamente compassivo.

Neste dia, no Monte Athos, todos nós fazemos uma vigília noturna, pois foi neste dia que fomos libertados do jugo turco. Como aprendemos, durante as festas da Páscoa, o mundo estava mais do que nunca nas igrejas. Isso significa que a fé não se extingue. Mas pode se aprofundar e se fortalecer. Tomé não é para os descrentes, mas para os céticos, para aqueles com pouca fé e, finalmente, para os fiéis. Que sua boa descrença nos perturbe para nos fertilizar.


Ancião Moisés, o Athonita
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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