PENTECOSTES: A FESTA DO AMOR

Será que Pentecostes, o aniversário da Igreja, é a nossa festa? Estamos em condições de celebrá-la? Estamos prontos para acolher em nossos corações “a graça do Espírito em línguas de fogo” e viver plenamente abertos – ou ainda temos medo disso? Padre Konstantin Kamyshanov oferece a seguinte reflexão.

“Ortodoxia, irmã, é quando você quer uma coisa, mas faz outra. Você quer falar, mas permanece em silêncio. Você quer dormir, mas não dorme. Você quer comer, mas não come – principalmente doces. E você não pode assistir à TV: é coisa da Besta.”

Assim, uma funcionária de um monastério discursava para uma peregrina idosa. E esta, em silêncio, ouvia, boquiaberta. Passei por ela e pensei: “Mas ela tem razão. A fé, para muitos, é trabalho, tortura, tentação e tédio. Cristo é forte, mas não é o favorito.”

Ao final da Confissão, costumo perguntar o que considero mais importante:

“Você ama a Cristo?”

Mas outros padres dizem que isso é indecente. E um diácono chegou a acrescentar:

“Há certas coisas que nem mesmo um padre deve contar na Confissão!”

Temos vergonha de amar e é indecente falar sobre amor. Falar sobre quem roubou, matou, mentiu é decente, mas sobre isso – não. Sem o lado positivo. Talvez a palavra “amar” seja simplesmente assustadora? Afinal, arrepender-se é partir como Caim. É olhar para o passado. A palavra “amar” dirige-se ao futuro. É muito importante para o russo. Eles não se precipitam. Dizer “eu te amo” é assumir a vida e o destino do amado. Dizer “eu te amo” a Deus significa, como quem mergulha a cabeça na piscina, viver de braços abertos, amando a Deus, às pessoas e aos animais. E isso é assustador. E inútil.

Por que os Apóstolos se dispersaram pela face da terra para uma morte e tortura certas? Seria porque, como disse a velha senhora, se sentiam compelidos a fazer o que não gostavam de fazer? Eram masoquistas e sentiam prazer em sofrer? Não!

Dos Atos dos Apóstolos: “E eles Todos ficaram admirados e perplexos, dizendo uns aos outros: “Que significa isto?” Outros, zombando, diziam: “Estes homens estão embriagados com vinho novo.” Mas Pedro, pondo-se em pé com os onze, levantou a voz e disse-lhes: “Homens da Judeia e todos vós que habitais em Jerusalém, saibam disto e ouçam as minhas palavras: estes homens não estão embriagados, como vocês supõem, visto que são apenas nove horas da manhã. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: ‘Nos últimos dias, diz Deus, derramarei do Meu Espírito sobre toda a humanidade; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e vossos velhos sonharão sonhos; e sobre os Meus servos e sobre as Minhas servas derramarei do Meu Espírito naqueles dias, e eles profetizarão; e mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça.'” O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo” (Atos 2:12-21).

Por que estavam como que embriagados? O vinho é o amparo da alegria. E a própria alegria os invadiu. Essa alegria era uma força sem precedentes. Essa força da alegria os abalou. Eles foram até os confins da terra com essa voz de alegria, tendo apenas um objetivo: multiplicá-la e compartilhá-la. Ela precisava ser compartilhada. Ela esmaga a alma quando afeta apenas uma pessoa, mas se multiplica quando compartilhada.

Foi sobre essa alegria do amor que Cristo falou à mulher samaritana:

Do Evangelho: “Respondeu-lhe Jesus: ‘Quem beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que Eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna’” (João 4:13-14).

Ele Se referia a rios de água viva que fluirão de nossos corações, preenchendo tanto os nossos corações quanto os de nossos semelhantes.

Será que fluíram assim? Será verdade que de nossos corações flui tanta felicidade que simplesmente precisamos compartilhar o excesso?

Não é verdade. Estamos eternamente insatisfeitos conosco mesmos, com nossa família e com nosso trabalho. Condenar os amigos é o que mais gostamos de fazer. Profetizar sobre o destino do governo e do mundo é o nosso defeito predileto. Somos facilmente reconhecidos porque a maioria de nós é psicopata disfarçado.

Às vezes, sinto muita pena das crianças batizadas na infância. Elas não sabem como o Espírito Santo entra em um sopro de ar e enche o coração com o vinho do amor. Os dons permanecerão, mas não será o dia que os Apóstolos vivenciaram. Porque os padrinhos fingem ensinar o Credo, e os pais acreditam ser cristãos. Conduzo os meninos após o Batismo até o altar e digo-lhes:

“Bem, irmão, isto é maravilhoso! Gostaria de saber o que a sua alma vê no altar. Talvez os poderes celestiais, e talvez o próprio Cristo. É uma pena que você se esqueça de tudo isso. Mas eu digo à sua alma e ao seu anjo da guarda: Cristo Ressuscitou!”

Acho que nossos anjos da guarda sorriem.

“Se não há alegria em nosso coração”, diz São João de Kronstadt, “isso significa que o diabo ali reside”. No Batismo, recebemos todos os tesouros da paz eterna. Graças aos dons do Espírito Santo, qualquer um pode se tornar Rei e Profeta. Qualquer menino pode se tornar sacerdote e receber, pela imposição das mãos, a graça que foi transmitida sem interrupção pelos próprios Apóstolos. O que mais se pode querer? Precisamos que os céus se abram e que os anjos toquem trombetas? Ou isso seria demais?

Se nos tempos do Antigo Testamento apenas os eleitos de Deus recebiam a unção, como o jovem David ou Moisés, agora todo cristão recebe a mesma graça. O Espírito não tem medida. Não pode ser maior nem menor. Não pode ser cem gramas nem o Universo. É infinito em cada gota. E cada um de nós, ao receber os dons do Espírito Santo pela unção, recebe tanto quanto nossa alma pode conter. Podemos receber mais do que imaginamos.

É bom que não saibamos como. Caso contrário, desperdiçaremos tudo. Como assim? Como podemos ser infelizes, sem alegria e apáticos, se recebemos o Espírito? Não O afastamos ainda mais? Será que o problema está no Espírito? Não. O Espírito está em nós, em nossos corações. O coração está seco e impuro, e não apenas não recebe os dons do Espírito, como tem medo deles e foge deles.

O apóstolo Paulo disse as seguintes palavras: “Bem falou o Espírito Santo por meio do profeta Isaías aos nossos pais, dizendo: ‘Deus a este povo, e diga: Ouvindo, ouvireis, e não entendereis; e vendo, vereis, e não percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, e os seus ouvidos estão surdos, e os seus olhos estão fechados; para que não vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, nem entendam com o coração, e se convertam, e Eu os cure’” (Atos 28:25-27).

Meu amigo aluga um apartamento para estudantes. Os estudantes são estudantes. Eles vivem de baladas. Ele lhes perguntou:

“Para onde vocês vão nas férias? Para casas de veraneio?”

“Não.”

“Para a Crimeia?”

“Não.”

“Para onde?”

“Para Yaroslavl.”

“O que tem lá?”

“Um asilo. Já vamos lá há anos.”

“!!!!!”

“Sim, eles não estão indo para Yaroslavl, estão indo para Deus.”

Eles não têm aparência ortodoxa. As moças não usam saias longas azuis nem lenços na cabeça. Os rapazes não têm barbas nem camisas pretas. Não carregam cruzes de Jerusalém no peito nem iconostases de amuletos e medalhões, mas conhecem esta alegria pela qual vieram ao mundo graças a Deus e aos Apóstolos. Receberam este vinho do amor. Apaixonaram-se por Deus. Aprenderam essa alegria e não se separaram dela.

O que aconteceu no cenáculo do Monte Sião com os Apóstolos teve um significado universal. Eles não eram apenas receptores do Espírito Santo ou médiuns. Tornaram-se testemunhas do fato de que Deus renovou a natureza humana. Antes, as pessoas eram imaturas e se salvavam na comunidade e no povo, pelo poder de todo o povo. Assim, era mais simples salvar a si mesmo do que servir a Deus individualmente. Havia menos empoderamento pessoal, menos conquistas pessoais.

Mas houve uma reformulação da natureza humana, uma atualização do programa e da “ferragem”. Aquilo que antes era dado como um grande presente aos eleitos – os profetas Elias, David, Abraão – em benefício do povo, não é dado a cada cristão individualmente. A qualquer um, contanto que queira recebê-lo.

No Pentecostes ocorreu um evento de escala universal, não para uma nação específica, mas para todos que amam a Deus, e a natureza humana foi transformada. Deus colocou pessoas diante das portas do Paraíso diferentes de como eram antes de Cristo. E esse dom é especialmente grandioso na Igreja Ortodoxa, onde não apenas os sacerdotes, mas todos os leigos recebem o Corpo e o Sangue de Cristo. Que confiança!

Mas será que a água viva flui de nossos corações? Falamos de Cristo como Apóstolos às pessoas com quem convivemos? Ou somos, como os muçulmanos nos chamam, “povo do livro”: que leem, permanecem em silêncio e compram velas?

Recebemos os dons do Espírito Santo e conhecemos o vinho da alegria? Ou estamos apenas lamentando e reclamando o tempo todo? Se for o primeiro caso, então a Festa de Pentecostes é a nossa festa. É a festa dos Apóstolos, desses estudantes moscovitas que vivem no apartamento, dos cristãos que vivem plenamente por amor a Cristo e ao próximo.

Talvez a morte ainda esteja longe de nós. Mas o que é a morte? Está vazio: fechamos os olhos e, um instante depois, abrimos os olhos da nossa alma. E Deus dirá:

“Eu vos dei vestes festivas. Onde estão elas? Como viestes à festa de casamento com vestes manchadas de ira, ganância, luxúria, hipocrisia, homicídio e roubo? Por que as rasgastes? Por que as jogastes fora?”

Não é porque Ele Se arrepende dos presentes. É por causa da nossa felicidade. Estes não são apenas presentes: o Seu próprio Filho foi oferecido em sacrifício. Porque Ele ama. E a festa de Pentecostes é a festa do Seu amor por nós, terno e profundo.


Sacerdote Konstantin Kamyshanov
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

2 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes

SOBRE NÓS
Aurora Ortodoxia

Tradição & Orginalidade na Igreja Ortodoxa