No calendário litúrgico da Igreja Ortodoxa, este primeiro domingo após a Páscoa é conhecido como o “Domingo de Tomé”, bem como a “Pós-Páscoa” (Antipascha). Embora a piedade popular tenha atribuído, de forma precipitada e talvez superficial, ao apóstolo nomes como o “Tomé incrédulo” ou “Tomé sem fé”, devido às suas supostas dúvidas sobre a ressurreição de Jesus, seu lugar no ciclo litúrgico das festas afirma uma visão teológica radicalmente diferente. Um estudo cuidadoso da passagem do Evangelho, ouvida no “Domingo de Tomé” (João 20:19-31), confirma, ao contrário, uma profunda fé da parte do apóstolo, expressa em sua singular confissão na divindade do Senhor gloriosamente ressuscitado.

É preciso reconhecer que a declaração extática de fé de São Tomé em Jesus Cristo, expressa por “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28), é uma das mais profundas afirmações da divindade de Jesus em todo o Novo Testamento, pois não só atribui a Cristo o mais alto título cristológico em termos de Sua divindade (Jesus Cristo é referido como “Deus”), mas também demonstra a aceitação incondicional de Tomé no Senhor ressuscitado (isso se vê no uso de “meu” Deus — o predicado de dedicação). Dessa forma, longe de ser uma história ostensivamente sobre a falta de fé por parte deste apóstolo, o quarto evangelista apresenta São Tomé como um homem que desejava nada menos que um encontro pessoal, palpável, imediato e íntimo com o Senhor ressuscitado. De fato, isso é mais do que um reconhecimento; é adoração; é o clamor de uma alma permeada pela graça do Espírito Santo; é uma fé que não vê apenas com os olhos, mas com um coração iluminado pelo amor.

Esta passagem do Evangelho em João 20:19-31 ocorre imediatamente após a aparição de Jesus a Maria Madalena (versículos 11-18). Assim, o evangelista teria desejado mostrar que, assim como Jesus conduziu Maria Madalena em sua jornada rumo à fé, também Ele conduziria Tomé a uma fé incondicional. Ou seja, assim como Maria Madalena e as mulheres miróforas em geral foram as primeiras testemunhas do túmulo vazio e anunciaram seu significado aos discípulos, também Tomé levaria a fé cristã na ressurreição ao seu ápice, tornando-se, dessa forma, uma ponte para os futuros crentes.

A passagem do Evangelho deixa muito claro que o apóstolo Tomé estava cheio de desejo de encontrar-se pessoalmente com o Senhor, e não simplesmente depender do relato de outra pessoa. Embora Seus outros discípulos insistissem que tinham visto o Senhor (versículo 25) — observe que o verbo (ἔλεγον) está no imperfeito, que denota uma ação contínua —, provavelmente porque Tomé rejeitaria o relato deles sem hesitar, ele diz: “Se eu não vir o sinal dos pregos em Suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e a minha mão no Seu lado, de maneira nenhuma crerei” (João 20:25).

De fato, oito dias tiveram que se passar antes que Tomé encontrasse Jesus pessoalmente. É-nos dito que, quando os discípulos estavam reunidos novamente na casa, Jesus apareceu-lhas, saudou-os com a Sua paz e dirigiu-Se especificamente a Tomé, convidando-o a colocar os dedos da mão no Seu lado. Jesus prosseguiu e disse: “καὶ μὴ γίνου ἄπιστος ἀλλά πιστός” (Jo 20,27). Esta frase é frequentemente traduzida erroneamente como “Não duvide, mas creia”. No entanto, o texto grego diz especificamente “Não se torne um descrente”; ou seja, São Tomé não havia necessariamente duvidado, mas simplesmente foi instruído por Jesus a não se tornar um descrente.

O apóstolo Tomé entrega-se totalmente ao ato de revelação gratuita de Deus e confessa o Senhor ressuscitado como “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28). Este é o momento culminante de toda a narrativa, pois revela a verdadeira identidade de Jesus como o Teantropo; é, portanto, a conclusão da jornada de fé de Tomé. Longe de ser um descrente, São Tomé foi o apóstolo por excelência responsável por oferecer a todos os futuros cristãos um retrato sublime de Jesus Cristo como “Senhor” e “Deus”. De fato, foi São Tomé quem conseguiu desvendar a identidade mais profunda de Jesus Cristo, afirmando, assim, que Jesus é a própria revelação do mistério vivificante de Deus.

Esta é uma história que tem muito a nos dizer hoje: não apenas revela a entrega total e incansável de Tomé ao Senhor ressuscitado, mas também sua fé inabalável. Tomé cumpre as palavras de Jesus, que convidou todos os Seus seguidores a honrá-Lo como honram a Deus: “para que todos honrem o Filho como honram o Pai” (Jo 5,23). O desafio para nós hoje é honrar e adorar nosso Senhor ressuscitado da mesma maneira e, ao fazê-lo, servir e compartilhar Sua mensagem de vida e esperança com amor a todos ao nosso redor. Crer porque fomos vistos — conhecidos, amados e chamados pessoalmente pelo Nome por nosso Senhor ressuscitado. E, ao confessarmos isso, que possamos segui-Lo — não como admiradores distantes, mas como discípulos que encontram n´Ele a sua vida, a sua alegria e todo o seu bem.


Dr. Philip Kariatlis
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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