Enquanto a mulher samaritana conversava com Cristo, ela basicamente não entendia o que ele dizia. Ele falava sobre a vida eterna. Ela automaticamente transferiu o que ouviu para o nível desta vida transitória. Não havia um ponto de encontro. Esse ponto foi criado por meio de um “sinal” — um milagre — que Cristo lhe revelou. Ele disse: “Vá buscar seu marido e volte aqui”. Ela respondeu que não tinha marido. Então Jesus lhe disse: “Você tem toda a razão ao dizer que não tem marido. Você já teve cinco, e o que você tem agora não é seu marido. É verdade o que você disse”.
As palavras do Senhor elevaram a mulher samaritana a um outro nível. Apresentaram-lhe uma nova oportunidade, não definida pela necessidade racional. Ofereceram-lhe a perspectiva de uma visão e referência perpendiculares. A mulher então abandonou o problema existencial da água, ou melhor, esqueceu-se completamente dele, como fica claro pelo restante da narrativa, e pediu que outro problema fosse resolvido, que outra sede fosse saciada, sua sede metafísica. Ela diz: “Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram a Deus neste monte, mas vocês [os judeus] dizem que Jerusalém é o lugar onde Deus deve ser adorado”. Então, ela recebe uma grande revelação: “O tempo está chegando, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores do Pai O farão ‘em espírito e em verdade’. Deus é Espírito, e os que O adoram devem adorá-Lo em espírito e em verdade”. As pessoas se tornam aquelas que creem e adoram. Quando creem e adoram a Deus ‘em espírito e em verdade’, elas também se tornam, em certa medida, semelhantes a Ele. Tornam-se espirituais e reais.
A crença religiosa da mulher então se destaca, e ela diz: “Eu sei que o Messias — isto é, Cristo — virá e que, quando vier, nos explicará tudo”. E Cristo lhe diz: “Você está falando com Ele”.
Essa revelação dada à mulher samaritana coincidiu com a surpresa experimentada pelos discípulos de Cristo, que chegaram ali naquele momento. Eles estavam intrigados com o fato de seu Mestre estar falando com aquela mulher. E essa surpresa foi um sinal útil. Era uma preparação que os ajudaria a compreender que o Evangelho que deveriam pregar transcende as rígidas fronteiras raciais, sociais e religiosas.
Quanto mais as pessoas se dedicam às preocupações desta vida, mais se ancoram nas coisas deste mundo e se esquecem de suas necessidades mais profundas. Mas quando, por qualquer motivo, sua inquietação espiritual mais profunda é despertada e elas reconhecem que existe uma resposta para a questão existencial esquecida e frequentemente rejeitada em seus corações, então elas se esquecem de suas necessidades cotidianas e rejeitam suas preocupações mundanas.
“A mulher deixou ali o seu cântaro, foi à cidade e disse às pessoas: ‘Venham ver um homem que me disse tudo o que eu já fiz na vida. Talvez ele seja o Messias'”. Obviamente, a própria mulher estava convencida de que Ele era o Messias, pois era isso que ela tinha vindo dizer às pessoas de sua cidade. Ela queria compartilhar sua grande alegria com elas. Mas, sendo humana, talvez ela também desejasse que a realização da expectativa comum fosse confirmada por outros. E sua confirmação veio com a experiência proporcionada aos seus concidadãos a partir do próprio encontro com Cristo. Uma alegria compartilhada é duplamente alegre. Uma alegria que pertence a todos e a cada um. “Já não cremos somente por causa do que você disse, pois nós mesmos O ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente Cristo, o Salvador do mundo”.
A verdadeira fé não depende de relatos ou informações, mas da experiência pessoal. “Provai e vede como o Senhor é bom”, diz o Salmista. “Vinde e vede”, diz Filipe a Natanael. A menos que você veja Deus em sua vida, dizem os Padres da Igreja, não espere vê-Lo depois da morte. É aqui que nossos receptores espirituais são sintonizados para receber Deus e perceber as riquezas do Seu reino.
As pessoas hoje, em particular, fecharam seus receptores espirituais e não têm absolutamente nada a ver com a realidade espiritual. De modo geral, nada mais os surpreende, nada em seu cotidiano, porque informatizaram suas vidas e as transformaram em uma rotina entorpecente. Da mesma forma que seria uma catástrofe para um padre se acostumar com a Divina Liturgia e os Serviços que realiza, para cada pessoa é um desastre se ela se acostumar com sua vida cotidiana e se tornar indiferente às oportunidades e surpresas que lhe são oferecidas.
A vida humana é uma função que dura enquanto estamos aqui. E é repleta de pequenas e grandes surpresas, positivas e negativas. As positivas muitas vezes vemos de forma negativa, e as negativas podemos ver e vivenciar de forma positiva. Qualquer pessoa que retenha a “água viva” que lhe foi derramada no Batismo pode vivenciar sua rotina diária de forma criativa, com todas as surpresas positivas e negativas, saciando sua sede com “a água viva”, absorvendo a verdade da vida eterna e dando significado e substância à evanescência.
Georges Mantzaridis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







