UM ESTUDO SOBRE JOÃO 7:1-35 E A FESTA DE SEMI-PENTECOSTES
Resumo
João 7:1-35 narra a ida de Cristo a Jerusalém para a Festa dos Tabernáculos. Primeiramente, somos informados de que, devido ao Seu diálogo no capítulo 6 sobre comer a Sua carne, Ele não mais andaria no meio dos judeus, pois estes procuravam matá-Lo. Nos versículos 3-9, Jesus conversa com Seus irmãos, que O incentivaram a ir com eles a Jerusalém para a festa e a Se revelar publicamente, mas Ele declara que Seu tempo ainda não havia chegado e permanece para trás enquanto eles iam a Jerusalém, partindo posteriormente por conta própria. Os versículos 11-13 mostram que havia muita discordância a respeito de Cristo e que o povo O procurava fervorosamente na festa. Nos versículos 14-35, Cristo ensina no Templo, declarando que Sua doutrina não é Sua, mas sim do Pai que O enviou. Ele desafia o povo: visto que eles também não guardam a Lei completamente, por que procuram matá-Lo, acreditando que Ele infringiu a Lei ao curar o paralítico no sábado? O povo debate se Ele é ou não o Cristo, e Ele declara que veio do Pai, a quem o povo não conhece. Muitos creem n´Ele, mas os fariseus e os principais sacerdotes procuram capturá-Lo. Embora Sua hora ainda não tenha chegado, chegará o tempo em que Ele partirá para um lugar desconhecido, para onde não poderão segui-Lo. Sem compreender que Ele retornará à direita do Pai, os judeus questionam se Ele está anunciando Sua intenção de ensinar por toda a diáspora.
Contexto
A respeito da Festa dos Tabernáculos, Raymond Brown escreve que a festa da colheita de outono recebeu o nome de Sucot (literalmente “cabanas”, mas também traduzido como “tendas, tabernáculos”) porque era celebrada ao ar livre, nos vinhedos, onde os hebreus construíam cabanas com galhos de árvores. Teologicamente, também estava associada às peregrinações dos israelitas no deserto, quando habitavam em tendas. Levítico 23:39 diz que a festa deveria começar no décimo quinto dia de Tishrei (setembro-outubro). Deuteronômio 16:13 menciona uma festa de sete dias, mas Levítico também fala de um oitavo dia adicional de descanso solene.[1] Juntamente com a Páscoa e o Pentecostes, é uma das três festas em que os judeus eram obrigados a fazer uma peregrinação ao Templo de Jerusalém. Moisés instruiu os filhos de Israel a se reunirem para a leitura da Lei durante Sucot a cada sete anos (Deuteronômio 31:10-11), o Rei Salomão dedicou o Templo em Jerusalém em Sucot (1 Reis 8; 2 Crônicas 7), e Sucot foi a primeira ocasião sagrada observada após a retomada dos sacrifícios em Jerusalém depois do cativeiro babilônico (Esdras 3:2-4). De acordo com Zacarias 14:16-19, na era messiânica, Sucot será uma festa para todas as nações, na qual todos os povos farão uma peregrinação a Jerusalém.[2]
Uso Litúrgico
Liturgicamente, esta passagem é lida duas vezes na quarta semana da Páscoa. João 7:1-13 é lido na terça-feira da quarta semana da Páscoa, que é o dia anterior ao Semi-Pentecostes, e João 7:14-30 é lido na quarta-feira da quarta semana da Páscoa, que é a festa do Semi-Pentecostes. A passagem está ligada a Atos 14:6-18, onde São Paulo cura um homem paralítico desde o ventre materno, o que leva o povo de Listra a adorá-lo, juntamente com Barnabé, como deuses. Anteriormente, Cristo havia curado o paralítico no Tanque das Ovelhas, passagem lida no domingo anterior, o que foi um poderoso sinal de Sua verdadeira divindade, e à qual Ele faz referência nesta passagem, no versículo 23, dizendo: “Se um homem se circuncida no sábado, para que a lei de Moisés não seja quebrada, por que vos indignais contra Mim porque, no sábado, curei completamente um homem?”. Jesus também fala de Sua divindade nesta passagem, dizendo que veio do Pai, cuja doutrina Ele prega e que o povo não conhece. O fato de esta passagem ser usada na preparação e na celebração do Meio da Festa de Pentecostes mostra-nos o que a Igreja vê nesta passagem para o nosso benefício espiritual. O Troparion, que alude ao encontro de Cristo com a mulher samaritana, lido no domingo seguinte, diz: “No meio da Festa, ó Salvador, sacia a minha alma sedenta com as águas da piedade, como Tu clamaste a todos: ‘Se alguém tem sede, venha a Mim e beba’ (João 7:37). Ó Cristo Deus, Fonte da nossa vida, glória a Ti!”
A Igreja apresenta-nos mais uma vez o tema da água, que é fortemente enfatizado no período do Pentecostarion. “Os Padres ensinam-nos que esta festa se situa no meio do período de cinquenta dias entre a Páscoa e o Pentecostes, como um poderoso rio de graça divina que tem estas duas grandes festas como sua nascente.”[3] Curiosamente, o versículo citado no Troparion, João 7:37, só é lido no próprio Pentecostes. De fato, as leituras desta festa não mencionam a água, mas parecem enfatizar Cristo como mestre, ensinando no Templo durante a Festa dos Tabernáculos. É por isso que o ícone da festa mostra Cristo aos 12 anos no Templo, que é a Sua primeira manifestação como “mestre”. Este tema de Cristo como Mestre e Sabedoria é mais central na cronologia do Evangelho, pois Ele se revela entre as histórias do paralítico e do cego. São João escreve:
Ora, por volta da metade da festa [pois Ele está ensinando no meio da festa, esta é uma leitura apropriada para o Semi-Pentecostes, que fica exatamente no meio do caminho entre a Páscoa e o Pentecostes], Jesus subiu ao templo e ensinava… Jesus respondeu-lhes: “A Minha doutrina não é Minha, mas d´Aquele que Me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade d´Ele, conhecerá a respeito da doutrina, se vem de Deus ou se falo por Mim mesmo” (João 7:14-30).
Os hinos da festa referem-se repetidamente a Cristo como Sabedoria Divina: “Tu, a Sabedoria de Deus, vieste ao templo no meio da festa” (Aposticha das Vésperas); “Pois eles não sabiam que Tu és a Sabedoria que formou o mundo…” (Glória da Aposticha das Vésperas); “Tu, ó Salvador, derramas sobre todo o mundo águas vivas de sabedoria e vida eterna… (Glória do Hino da Sessão nas Matinas), e muitos outros.[4] Neste hino, vemos a conexão entre a Sabedoria que encontramos nas leituras e a água da qual ouvimos falar no Troparion. Cristo é a Sabedoria hipostática de Deus que nos concede as águas da vida eterna, e Suas palavras são a sabedoria que nos guia até Ele. Alguns argumentam que Agia Sophia (Santa Sabedoria) celebrava seu dia onomástico em meados de Pentecostes por causa desse tema da festa.
As águas da piedade
Cristo revela-Se como Mestre e Sabedoria e também enfatiza a Sua natureza divina ao dizer que veio do Pai. Isto é apropriado após a celebração da Páscoa, pois somente Deus, que é a Vida, poderia vencer a morte, e em preparação para o Pentecostes, quando o Espírito Santo é enviado, revelando Cristo como nossa fonte de vida e graça. O Padre Serafim (Rose) escreve sobre esta festa que, em meio aos prazeres terrenos da celebração da Páscoa, ela nos ensina a ansiar pelo que é do alto — pela graça e sabedoria divina de Cristo.[5] O Semi-Pentecostes era especialmente amado pelo santo Ancião José, o Hesicasta, que de fato ansiava pelo que é do alto e se preparava especialmente para receber as “águas da piedade” de que cantamos no Troparion. “Muitas foram as ascensões em seu coração e grande a visão divina que ele recebeu nesta festa como uma alma verdadeiramente sedenta.”[6]
Somente se ansiarmos pela graça e sabedoria de Cristo é que poderemos nos tornar como o Ancião José e, certamente, como o próprio Cristo. Esta é uma importante lição que podemos aprender com esta passagem. O povo judeu e seus líderes falavam e discutiam muito sobre Cristo, mas parecia haver pouco desejo de saber o que Ele realmente representava — parecia haver pouca sede de verdade. Seus irmãos zombavam d´Ele e O acusavam de covardia e vaidade, o povo de Jerusalém murmurava sobre Ele e procurava matá-Lo, e até mesmo aqueles que O consideravam um bom homem acabavam se mostrando covardes e não se manifestavam em Sua defesa. Em nenhum momento desta passagem vemos alguém indagar honestamente sobre Sua origem ou Sua missão; em vez disso, eles discutiam entre si. Eles se deleitavam em participar da festa, mas pareciam não compreender o verdadeiro significado da festa.
Este é um grande problema também para o homem moderno. Quantas pessoas ainda se importam com a verdade? Quantas ainda têm sede de Deus, mesmo dentro da Igreja? É por isso que é imprescindível dedicarmos nossas vidas à Verdade e à busca de Deus — para que possamos ser uma luz para outros que estão perdidos e à deriva na vida. Devemos ter cuidado para não sermos aprisionados pelos aspectos externos da fé. É fácil sermos tentados a celebrar a festa, mas perdermos de vista o seu verdadeiro significado, tal como aconteceu com os judeus nesta passagem. O Padre Serafim oferece-nos algumas palavras sábias a este respeito. Ele exorta-nos a termos uma atitude cristã inocente, não uma obcecada pela sabedoria e sofisticação mundanas, que matam a alma. Como exemplo, ele fala da tentação de ir a monastérios, catedrais e eventos ortodoxos que nos fazem sentir importantes e que nos fazem sentir que a Ortodoxia é importante, mas permanecer apenas no nível externo e não obter qualquer benefício espiritual real desses lugares e eventos. Devemos ir ao Monte Athos, à Terra Santa, à Romênia, etc., para aprender algo sobre a vida espiritual — não apenas para podermos dizer que lá estivemos.[7]
Raymond Brown faz um comentário interessante sobre os judeus que parecem se preocupar apenas com sinais, maravilhas e coisas externas que, em última análise, não os levam a uma fé viva e verdadeira. Ele vê uma conexão entre os três pedidos feitos a Cristo em João 6 e 7 e as tentações de Cristo em Mateus 4 e Lucas 4. Em João 6:15, o povo queria que Ele fosse rei, e Satanás lhe ofereceu os reinos deste mundo. Em João 6:31, o povo pediu pão milagroso, e Satanás o tentou a transformar pedras em pão. Em João 7:3, seus irmãos O incitaram a ir a Jerusalém para mostrar o Seu poder (embora estivessem zombando dele), e Satanás levou Cristo ao Templo para demonstrar o Seu poder saltando do pináculo. Portanto, concentrar-se apenas nas coisas externas, nos sinais e maravilhas que nos fazem exclamar “uau!” e “ah!” na verdade nos torna bastante semelhantes a Satanás.[8]
A única coisa necessária
A cura para isso é retornar à única coisa necessária: ter sede de Deus. Ter sede de Deus é buscar uma sabedoria que transcende a sabedoria humana. A sabedoria e a lógica de Deus são incriadas e não conhecem os limites e fronteiras da nossa sabedoria e lógica humanas e criadas. Cristo alude a isso nos versículos 23-24, quando diz: “Se um homem se circuncida no sábado, para que a lei de Moisés não seja quebrada, por que vocês se indignam co´Migo por Eu ter curado completamente um homem no sábado? Não julguem pela aparência, mas julguem segundo a reta justiça.” (Alan Richardson destaca em seu comentário sobre o Evangelho de João que Cristo pode estar aludindo aqui a Deuteronômio 1:16-17, que diz: “Naquele tempo, ordenei aos vossos juízes: Ouvi as causas entre vossos irmãos e julgai retamente entre cada um e seu irmão, e também o estrangeiro que está com ele. Não façais acepção de pessoas no julgamento; mas ouvireis tanto o pequeno como o grande; não temais a face do homem, porque o julgamento pertence a Deus; e a causa que vos for difícil demais, trazei-a a mim, e eu a ouvirei.”[9])
A sabedoria humana pode julgar segundo a aparência e tenta encaixar nossas experiências e conhecimento em um sistema pelo qual possamos julgar — como a Lei Mosaica aqui —, mas Cristo nos chama a nos libertarmos de nossos sistemas e a julgarmos por um padrão divino — o padrão da justiça. A adesão rígida à Lei teria mantido o paralítico em sua enfermidade, mas Cristo opera por uma Lei superior, na qual a cura tem precedência. Isso já estava implícito no Antigo Testamento, como Cristo destaca, visto que a circuncisão tinha precedência sobre a observância do sábado. Era mais importante introduzir corretamente uma criança na aliança com Deus do que cumprir apenas uma parte dessa aliança. Assim, na vida cristã, não existem absolutos absolutos, mas em cada situação devemos fazer o que for melhor para a teose, de acordo com o nosso discernimento. Devemos ansiar pela verdadeira sabedoria de Deus e desempenhar o nosso papel na nossa salvação.
Comentando essa peculiaridade da teologia ortodoxa, São João Crisóstomo escreve:
“Vês que a Lei se estabelece melhor quando alguém a transgride? Vês que transgredir o sábado é o cumprimento da Lei? Que se o sábado não fosse transgredido, a Lei teria necessariamente sido transgredida? Por isso também Eu estabeleci a Lei.” Ele não disse: “Vocês estão irados comigo porque eu fiz algo maior do que a circuncisão”, mas, tendo apenas mencionado o que havia sido feito, deixou para eles julgarem se a saúde plena não era algo mais necessário do que a circuncisão. “A Lei”, diz Ele, “é quebrada para que o homem receba um sinal que em nada contribui para a saúde; vocês estão irritados e indignados por ela ser quebrada, para que alguém possa ser libertado de uma doença tão grave?[10]
Santo Agostinho escreve de maneira semelhante, enfatizando o que é bom para a salvação:
Se o oitavo dia após o nascimento da criança cair no sétimo dia da semana, o que fareis? Deixareis de trabalhar para guardar o sábado, ou circuncidareis para cumprir o sacramento do oitavo dia? Mas eu sei, diz Ele, o que fazeis. “Circuncidais um homem.” Por quê? Porque a circuncisão se relaciona com o que é uma espécie de selo da salvação, e os homens não devem se abster da obra da salvação no sábado. Portanto, não vos irriteis co´Migo, porque no dia de sábado curei de todo um homem.[11]
Como Craig Keener destaca em seu comentário sobre João, Cristo não está dizendo nada aqui que os judeus de sua época não conhecessem. Ele está usando um argumento qal vahomer (do leve para o pesado), uma prática antiga no raciocínio do Mediterrâneo e que aparece em sábios contemporâneos a São João. O argumento é que, se o sábado pode ser substituído para a remoção de um único membro, quanto mais para a restauração da pessoa inteira, o que afeta todos os seus membros — toda a sua vida? Ele também observa que a proteção da vida, tendo precedência sobre o sábado, já era uma tradição judaica antiga.[12]
A Pessoa de Cristo
Essa realidade também nos é revelada na Pessoa de Cristo. O Logos Divino condescendeu em assumir nossa natureza humana e elevá-la ao Seu nível. Santo Atanásio nos dá a famosa citação: “Deus Se fez homem para que o homem pudesse se tornar Deus”. É claro que sabemos que o homem jamais se tornará como Deus em sua natureza, mas podemos ser preenchidos com as energias divinas que nos transmitem a própria vida de Deus. Assim, Cristo Se humilhou e participou de nossa vida, onde nos preocupamos obsessivamente com as coisas externas, murmuramos, nos afastamos da verdade e nos apoiamos em sistemas; mas Ele não participou de nada disso e transfigurou nossa natureza, chamando-nos para algo superior — para a vida do Incriado. Esta passagem de João 7 enfatiza bastante a questão de quem Cristo é — o que, na verdade, nos revela quem somos e para o que fomos chamados.
Seguindo São João Crisóstomo, o Bem-Aventurado Teofilacto escreve que Jesus já não andava entre os judeus quando estes procuravam matá-Lo, para confirmar a realidade de Sua natureza humana. Embora não temesse a morte e pudesse facilmente andar entre eles sem ser ferido (pois só morreu quando voluntariamente nos deu a sua própria vida), Ele sabia que, se demonstrasse frequentemente tal poder, questionariam a Sua humanidade. Com isso, o Evangelista envergonha as blasfêmias dos docetistas, marcionitas, maniqueus e todos os outros que ensinavam que a Sua humanidade era uma ilusão. Contudo, Teofilacto observa que há outras ocasiões em que Cristo permanece serenamente entre os Seus inimigos e destaca a Sua divindade, confundindo assim Paulo de Samósata e outros como ele. Como ainda não era o tempo da sua Paixão, era inútil permanecer entre os Seus inimigos e atiçar a sua ira.[13] No seu comentário, Santo Agostinho aplica continuamente o que vemos em Cristo ao Seu Corpo – a Igreja – e, assim, dá-nos uma lição. Ele comenta que Cristo está demonstrando Sua humanidade aqui como um consolo para Seus fiéis em sua fraqueza — se Cristo evitou ser morto aqui, então temos algum consolo se, em nosso medo, recuamos diante da perseguição.[14] E, claro, Cristo revela Sua natureza divina quando diz que Sua doutrina não é Sua, mas do Pai, que O enviou e a Quem Ele conhece, mas as pessoas não, o que faz com que as pessoas tentem capturá-Lo, pois sabiam o que Ele estava reivindicando para Si mesmo. Ao dizer que a doutrina não é Sua, mas de Seu Pai, Ele também destrói a heresia modalista sabeliana, demonstrando que Ele não é a mesma Pessoa que o Pai. As pessoas falam muito sobre de onde Ele veio e de onde esperam que o Cristo venha, e nem sequer percebem que, ao fazer isso, estão na verdade insinuando Suas duas naturezas. Sua geração terrena eles conhecem, mas Ele tem outra geração, da eternidade, do Pai, da qual eles não sabem. Mas nós, na Igreja, temos o benefício de conhecer ambas as gerações de Cristo, e isso tem sérias implicações para a maneira como vivemos nossas vidas.
O fato de Cristo ter consumado nossa salvação em Sua Pessoa, com a cooperação de Suas naturezas divina e humana, mostra-nos que, para recebermos esse dom, é necessário o envolvimento de Deus e do homem — temos um papel a desempenhar. Esta é, naturalmente, a doutrina ortodoxa da sinergia, e voltamos ao tema da sede. Deus nos oferece a água da vida eterna — mas devemos ansiar por ela. Ele jamais a imporá a nós. Comentando novamente as palavras do Senhor sobre julgar com justiça, São João Crisóstomo observa que isso se aplica a todos nós, cristãos, hoje também.[15] Jamais devemos julgar pela aparência, mas tratar a todos, ricos e pobres, com amor e justiça. Agir de outra forma, diz ele, traz grande perigo para nossas almas. Todos os nossos relacionamentos terrenos e nossa prosperidade não nos aproveitarão de nada se não amarmos a todos igualmente. Santo Agostinho comenta que livrar-se do vício de julgar injustamente é um trabalho árduo, por isso devemos fazer a nossa parte e voltar-nos para Deus, para que Ele Se volte para nós. Caso contrário, mesmo que O “busquemos” de alguma forma, não O veremos.[16]
Sondando as profundezas, ascendendo às alturas
A maioria das palavras de Cristo possui camadas mais profundas além da superfície, acessíveis àqueles que conhecem as Escrituras e verdadeiramente O buscam. Raymond Brown faz uma observação interessante aqui: Cristo usa um jogo de palavras no versículo 8 quando diz que não subirá a Jerusalém com Seus irmãos porque o momento não é oportuno para Ele. O verbo é anabainein, que pode significar subir em peregrinação ao Monte Sião ou Jerusalém, e também pode significar “ascender” — portanto, como o momento não é oportuno, Ele também está dizendo que não subirá ao Seu Pai nesta festa, mesmo que tentem matá-Lo nesta festa em 8:59. Jesus usa esse verbo em 20:17 quando fala de ascender ao Pai. Santo Epifânio observa isso (Haer. 60:25): Ele fala aos Seus irmãos espiritualmente e em mistério, e eles não entenderam o que Ele disse. Pois Ele lhes disse que não ascenderia naquela festa, nem ao céu nem na cruz, para cumprir o plano de Seu sofrimento e o mistério da salvação…”[17]
George R. Beasley-Murray escreve no Comentário Bíblico Mundial, vol. 36, sobre o Evangelho de João, que Santo Efrém também havia escrito sobre essa conexão com a Ascensão em seu comentário sobre o Diatessaron, mas Beasley-Murray argumenta que isso “dificilmente é aceitável… parece ser mais uma tentativa de eliminar a suposta contradição entre os versículos 8 e 10”. Para ele, Jesus simplesmente significa que ainda não havia recebido a ordem de Seu Pai celestial para ir a Jerusalém.[18] Mas, pela graça de Deus, na Igreja, somos levados a ver esses significados mais profundos e a apreciar mais plenamente a economia de Deus. Raymond Brown também comenta que as palavras de Jesus no versículo 34 (Procurareis-Me, e não Me achareis; e onde Eu estou, para lá não podereis ir) são muito semelhantes às da Sabedoria em Provérbios 1:28-29: Podem procurar-Me, mas não Me acharão, porque odiaram o conhecimento e não temeram o Senhor.[19] Mas o cristão ortodoxo é obviamente chamado a reverenciar o Senhor e buscar a Sua virtude. São João Crisóstomo escreve:
Uma só coisa precisamos, isto é, excelência de alma. Esta será capaz de vos conduzir em segurança e vos livrar do fogo eterno, esta vos conduzirá ao Reino dos Céus. Ao qual todos possamos alcançar, pela graça e amor de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem e com quem, para o glória ao Pai e ao Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.[20]
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[1] Brown, Raymond E., trad. O Evangelho Segundo João (i-xii). Garden City, NY: Doubleday and, 1966. The Anchor Bible., p. 306.
[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Feast_of_Tabernacles .
[3] Mosteiro da Santa Transfiguração, trad. O Pentecostário. Boston: Mosteiro da Santa Transfiguração, 1990. p. 7.
[4] Ibid. p. 8
[5] Rose, Pe. Serafim. Reino Celestial: Sermões Leigos. Platina, CA: Irmandade de São Hermano do Alasca, 1984 p. 52.
[6] Pentecostário p. 8.
[7] http://orthodoxinfo.com/praxis/rose_wv.aspx
[8] O Evangelho Segundo João (i-xii), p. 308.
[9] Richardson, D.D., Alan. O Evangelho Segundo São João: Introdução e Comentário. Ed. Rev. John Marsh, D. Phil. e Rev. Cônego Alan Richardson, D.D. Londres: SCM, 1959. Torch Bible Commentaries, p. 111.
[10] Homilia XLIX, NPNF 1-14.
[11] Homilias sobre o Evangelho de São João, Tratado XXX.4, NPNF 1-07.
[12] Keener, Craig S. O Evangelho de João: Um Comentário. Vol. 1. Peabody, MA: Hendrickson, 2003, p. 717.
[13] A Explicação do Santo Evangelho Segundo João. Trad. Pe. Christopher Stade. Vol. 4. House Springs, MO: Chrysostom, 2007. Impresso. Explicação do Novo Testamento pelo Bem-Aventurado Teofilato, p. 117.
[14] Tratado XXVIII.2, NPNF 1-07.
[15] Homilia XLIX, NPNF 1-14.
[16] Tratado XXX.7, NPNF 1-07.
[17] Keener, O Evangelho de João: Um Comentário Vol. 1, p. 308.
[18] Beasley-Murray, George R. João. Vol. 36. Waco, TX: Word, 1987. Comentário Bíblico Mundial, p. 107.
[19] Ibid. p. 318
[20] Homilia XLIX, NPNF 1-14.
Jesse Dominick
tradução de monja Rebeca (Pereira)







