Você conhece alguém, gosta dessa pessoa e aos poucos vai conhecendo-a melhor. Conversas e partilhas, escutas e aprendizagens, e uma imagem ou uma realidade começa a surgir. Você pensa nela quando estão distantes. Percebe que também é importante para ela. A ideia de que algo possa machucá-la te causa dor. Isso é amizade.

Nós facilmente reduzimos a amizade a um conjunto de emoções compartilhadas: O porquê de gostarmos de alguém, como imaginamos, se baseia em um conjunto complexo de experiências, esperanças, medos e emoções. Mas aí alguém faz esta pergunta: “Existe algo entre vocês?”

À primeira vista, a pergunta é inocente. Poderia significar nada mais que uma curiosidade sobre emoções compartilhadas. Vocês vão declarar um relacionamento no Facebook? Mas, entendida de outra forma, a pergunta é muito mais intrigante. Um relacionamento é mais que um fenômeno psicológico? Somos nós, de fato, completamente separados em nossa existência, com nada mais que a experiência de nossas próprias mentes? E se alguém dissesse sobre a sua amizade: “Isso tudo está só na sua cabeça?”

Você se sente muito próximo dessa pessoa. A amizade já dura vários anos e tem sido muito consistente. Um dia, conversando com outra pessoa, você descreve os pensamentos do seu amigo. No entanto, sua descrição é questionada: “Como você pode saber o que se passa na mente da outra pessoa?” Você não consegue pensar em como responder à pergunta, mas acredita que sua descrição e sua experiência são verdadeiras e corretas.

Em teoria, nossa cultura moderna acredita que relacionamentos com outras pessoas são meramente fenômenos psicológicos — estão todos na nossa cabeça. Há pesquisas ocasionais para tentar estabelecer alguma noção de relacionamento extra-psicológico (como PES – Percepção Extra-Sensorial), mas mesmo isso é em grande parte uma extensão da psicologia. Mas existe um reino inteiro da experiência humana que tal crença ignora. E é uma experiência que está no próprio coração do Cristianismo clássico.

Essa experiência é encontrada no conceito de comunhão. Refere-se a uma verdadeira participação e partilha na vida e na existência real do outro. Não é um rótulo para um conjunto de sentimentos nem um sinônimo para ser próximo de alguém. É um termo que verdadeiramente significa o que diz. O grego é koinonia, um estado de “algo em comum”.

A fé Ortodoxa ensina que somos salvos pela comunhão – em particular, a comunhão com Cristo. Quando uma pessoa está sendo batizada, o sacerdote pergunta três vezes: “Tu te unistes a Cristo?” Segundo São Paulo, somos então batizados “na morte” de Cristo e ressuscitados à semelhança da Sua ressurreição. Isso é salvação. A morte de Cristo se torna a minha morte e a minha morte se torna a morte Dele. A ressurreição de Cristo se torna a minha ressurreição, etc. Todo sacramento da Igreja é sobre união com Cristo, ou união com outro ser humano (matrimônio). É baseado na possibilidade de verdadeira comunhão e participação.

A afirmação de que isso é verdadeiro e possível distingue o Cristianismo Ortodoxo de praticamente todas as formas de crença cristã contemporânea. É o fundamento do mundo sacramental da Igreja. Quando comemos o Corpo de Cristo e bebemos o Seu Sangue na Santa Eucaristia, cremos que há uma verdadeira partilha, uma comunhão real: “Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele.” (Jo 6:56)

Viver de tal maneira que essa comunhão se manifeste em nossas vidas é todo o propósito da vida cristã ortodoxa. A comunhão, se você quiser, é um dos elementos mais fundamentais da gramática cristã. Ela dá sentido a muitas coisas, e muitas coisas discutidas no ensino cristão só fazem sentido em seu contexto. Onde quer que a comunhão seja ignorada como realidade, o Cristianismo é deformado e distorcido em uma caricatura de sua verdadeira natureza.

No Credo dos Apóstolos, uma confissão de fé encontrada em várias Igrejas Ocidentais, a frase “a comunhão dos santos” é oferecida como um elemento de crença, no mesmo nível do perdão dos pecados e da ressurreição dos mortos. No entanto, na mente da maioria dos cristãos contemporâneos que confessam esse Credo, a comunhão dos santos muitas vezes permanece como uma noção vaga e mal definida, geralmente limitada a alguma ideia de confraternização com aqueles que estão no céu.

Nos termos do Novo Testamento, o verdadeiro conhecimento só existe, em última análise, pela comunhão (koinonia). O tipo de coleção racional e observacional de fatos que passa por conhecimento em nosso mundo não seria nada disso no mundo deles. Quando o evangelho de João diz: “E a Vida Eterna é esta: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17:3), é uma referência ao conhecimento por participação, ou comunhão. É precisamente porque o verdadeiro conhecimento é comunhão que o conhecimento de Deus é a vida eterna. Esse conhecimento só pode ser obtido pela verdadeira participação em Sua vida.

De maneira semelhante, São Paulo clamou: “Quero conhecer a Cristo,  o poder da Sua ressurreição, e ter comunhão nos Seus sofrimentos, tornando-me conforme a Ele na sua morte, para de algum modo alcançar a ressurreição dentre os mortos!” (Fp 3:10-11).

Curiosamente, a comunhão está no centro da prática tradicional de venerar os santos. A comunhão opera pelo amor. De fato, a verdadeira comunhão é talvez o ponto principal do amor. Não queremos apenas estar com o outro, queremos partilhar de sua vida e existência. No exemplo da amizade descrito no início, há uma experiência de comunhão para a qual muitas vezes não temos palavra em nosso vocabulário moderno (tendo mudado o significado de comunhão). Nós experimentamos a comunhão, mas não conseguimos descrevê-la ou defendê-la. Quando nos dizem que é simplesmente algo da mente, não temos resposta. A modernidade é uma construção solitária.

A veneração dos santos é simplesmente a expressão do amor por eles. As expressões culturais de beijar ícones ou acender velas diante deles não são diferentes de outras expressões culturais de amor. Mas um mundo sem expressões culturais de amor rapidamente se torna um mundo sem amor. Os seres humanos precisam de toque, por exemplo, para viver. Não somos criaturas da mente.

Anos atrás, escrevi minha tese em Duke sobre o Ícone como Teologia. Durante esse período de estudo, passei a perceber e entender que um ícone só pode ser verdadeiramente visto no ato de veneração. Pois ver o ícone, segundo o ensinamento da Igreja, é uma questão relacional, um ato de comunhão. Muitas pessoas olham para um ícone e veem um objeto, talvez um belo objeto religioso. Mas sem veneração, o amor oferecido àquele que está presente na representação, não há comunhão. No ato (ou nos muitos atos) de veneração entramos na realidade da comunhão.

Essa veneração desenvolveu uma expressão litúrgica na vida da Igreja, mas é a mesma em nosso relacionamento com todas as pessoas. Através do amor, expresso de diversas maneiras apropriadas, nós realmente conhecemos o outro pela participação (comunhão). Em certa medida, entramos e partilhamos de sua vida. Em certa medida, a vida deles se torna nossa e a nossa se torna deles. Isso é especialmente verdadeiro no matrimônio, no qual um homem e uma mulher se tornam uma só carne. São Siluan do Monte Athos disse: “Meu irmão é a minha vida.”

A possibilidade de comunhão e participação na vida do outro  é um dos desafios mais contraditórios à visão de mundo moderna. Não somos absolutamente individuais em nossa existência nem em nossa experiência. Somos seres cujas vidas se expressam e se realizam melhor através da comunhão. Quando isso é compreendido corretamente, não é nada mais que a proclamação da primazia do amor. Andai em amor, como também Cristo nos amou e Se entregou a Si mesmo por nós, como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus. (Ef 5:2). Se, porém, andarmos na luz, como Ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, Seu Filho, nos purifica de todo pecado. (1 Jo 1:7).


Sacerdote Stephen Freeman
tradução de Lidiane Moura Tomich

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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