Breves Comentários de uma Perspectiva Espiritual
Nossos objetivos, como homens e mulheres ortodoxos, são fazer da sociedade, tanto quanto possível, uma imagem do divino. Para isso, a família deve ser sacrossanta e os pais devem cumprir os papéis necessários à preservação da ordem social. Mas isso significa que homens e mulheres devem cuidar do lar juntos, que devem ser o que são porque um objetivo maior do que cumprir papéis sociais ou supostas “naturezas” os chama. Isso não é uma depreciação do homem ou da mulher, mas o chamado de cada um para servir a objetivos essencialmente espirituais. E se esses papéis forem violados e o bem-estar espiritual da família e dos filhos for comprometido, então podemos falar de dever e responsabilidades atribuídas. (E assim São Paulo repreende as mulheres da Igreja quando introduzem desordem em sua vida. Ele diz às mulheres que sejam obedientes a seus maridos, caso perturbem o bem-estar espiritual da família. Mas essas repreensões são tanto para os homens que violam essas regras de ordem quanto para as mulheres. A questão é de vida prática, não de “naturezas” e assim por diante.) Mas esta é a vida inferior; na vida superior, não há homens nem mulheres, nem obedientes nem desobedientes. Pelo contrário, um não provoca o outro, como acontece com pais e filhos, e assim nasce a harmonia.
Corremos o risco, se nos tornarmos rígidos em nossas visões sobre a ordem social, de excluir a realização interior que faz de uma mãe o que ela é e de um pai o que ele é. As coisas feitas em cumprimento das leis são mortas; as feitas em espírito são vivificantes e revitalizantes. Não devemos construir uma Ortodoxia de prescrições e proibições, mas uma Ortodoxia na qual Deus expressa através de nós o Reino dos Céus e na qual o que é mundano se eleva à sua imagem mais celestial. Cada um de nós é repreendido pela famosa Amma no deserto, que se apressou em informar um monge (que havia atravessado para o outro lado da estrada quando ela e seus discípulos passaram) que, se ele fosse um monge perfeito, não teria percebido que elas eram mulheres. Se vivermos nossa Ortodoxia de forma apropriada, não precisaremos definir com rigidez a natureza de nossos relacionamentos, homens e mulheres, uns com os outros. Viveremos em perfeita paz, na qual cada um conhece o seu papel, não pela imposição da vontade de outrem, mas pela humildade perante Deus. E nessa humildade, como ousaria um homem pensar que está acima de uma mulher, ou uma mulher acima de um homem, assim como um sacerdote não se consideraria superior ao sacerdócio real do povo a quem serve?
Quanto à chamada posição “feminista” (da qual tanto ouvimos falar hoje em dia), há certas questões sobre as quais o cristão ortodoxo (se não, talvez, o indivíduo racional) não pode ceder. Afirmamos e reconhecemos uma ordem, um significado e uma diferenciação funcional nas coisas criadas. Assim, nossa fé nos ensina que a mulher é dotada por Deus de certas características e tendências que diferem das do homem. (E isso, em vez de diminuí-la, a eleva como parte do plano divino. De forma alguma esse ensinamento sugere ou tolera a relegacão das mulheres a um status inferior.) Além disso, nosso intelecto e nossos sentidos nos ensinam que mulheres e homens são diferentes. Beiramos a insanidade (algo não incomum nestes tempos bizarros) se negarmos os papéis biológicos de homens e mulheres na procriação. Esses papéis são comprovados pelas distinções físicas externas de gênero. E mesmo as representações psicológicas mais radicais de homens e mulheres admitem prontamente diferenças fundamentais entre os sexos no estilo cognitivo e no funcionamento mental. (Paradoxalmente, faz parte do próprio movimento feminista a ideia de que perfis e categorias psicológicas padronizadas para homens não são apropriadas para a avaliação do comportamento feminino.)
No entanto, mais uma vez, essas afirmações rudimentares não podem ser subestimadas. Elas “caracterizam” um papel; não o dogmatizam. Referem-se ao indivíduo redimido e não devem necessariamente ser aplicadas ao ser humano em seu estado decaído. E é aqui que ambos os extremos em relação à imagem da mulher se desviam igualmente. Por um lado, a “natureza” decaída da mulher é atribuída a ela pelo suposto tradicionalista como a característica de todo o seu ser, esquecendo-se da imagem divina do feminino. Por outro lado, a posição feminista enfatiza excessivamente a imagem divina do feminino, desejando assim livrar suas defensoras da necessidade de conquistar a “natureza” humana — uma tarefa, como já afirmamos repetidamente, que pertence tanto ao homem quanto à mulher. É, portanto, além da blasfêmia da retórica extremista, insensato falar da visão de São Paulo sobre as mulheres. Ele fala, a partir da experiência prática, das fraquezas femininas — cujos equivalentes podem ser encontrados nos homens (imagine a reação dos cretenses, homens e mulheres, às declarações do bendito Apóstolo a respeito daquele povo). Ele também fala da natureza espiritual das mulheres. Se não fizermos distinção entre a natureza espiritual e a natureza pecaminosa das mulheres, simplesmente não conseguiremos compreender São Paulo de forma inteligente. Chegaremos a visões extremistas.
Algo precisa ser dito, agora, sobre a maneira como devemos aprender a compreender as palavras de São Paulo. Devemos abordá-las com sobriedade espiritual, pedindo que o poder contido nas palavras (do princípio ao logo, na própria palavra) revele sua verdade última. Caso contrário, nos tornaremos estudantes da Bíblia, juntando-nos àqueles ortodoxos insensatos e tolos que se apressam desenfreadamente em analisar e, assim, distorcem o significado das Escrituras, tornando as meras palavras compreensíveis para seus intelectos. Se compreendermos corretamente a exegese bíblica na Igreja, saberemos que o “estudo bíblico” moderno é, simplesmente, “não ortodoxo”. Portanto, extrair noções e imagens de mulheres a partir de declarações bíblicas é infrutífero e não está de acordo com a Tradição da Igreja. Se vivermos a vida ortodoxa (com jejum, orações prescritas, serviços religiosos e a busca da humildade), o ícone das palavras da Escritura nos será revelado e sua graça inundará nossas mentes. Saberemos, noética e misticamente, precisamente o que São Paulo escreveu e o que ele quis dizer, pois suas palavras serão nossas, unidas a nós em nossa fonte comum em Cristo.
Orthodox Life, Vol. 31, No. 1 (Jan-Feb, 1981)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







