PENTECOSTES – DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

“Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar.

De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados.

Então, apareceram línguas repartidas, como que de fogo, e uma pousou sobre cada um deles.

E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.

Ora, estavam morando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu.

E, quando se ouviu aquele som, ajuntou-se a multidão e ficou perplexa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.

Então, todos ficaram admirados e maravilhados, dizendo uns aos outros: Vejam, não são galileus todos estes que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um na nossa própria língua materna?

Partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, Judeia e Capadócia, Ponto e Ásia, Frígia e Panfília, Egito e das regiões da Líbia. “Contíguos a Cirene, visitantes de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes – nós os ouvimos falar em nossas próprias línguas as maravilhas de Deus” (Atos 2:1-11).

A tradição diz que, para cumprir a profecia de Joel (Joel 2:28-29), o Espírito Santo desceu não apenas sobre os doze apóstolos escolhidos, mas também sobre todos os que estavam com eles “unânimes no mesmo lugar” (Atos 2:1), isto é, sobre toda a Igreja. É por isso que nos ícones de Pentecostes estão representados apóstolos que não pertencem aos doze – o apóstolo Paulo (sentado com o apóstolo Pedro à frente do círculo dos apóstolos) e, entre os setenta, Lucas, o Evangelista, e Marcos, o Evangelista (Ouspensky e Lossky, The Meaning of Icons, Rev Ed, SVS, NY, 1982, p. 208).

E apareceram-lhes línguas repartidas, como que de fogo… e foram cheios do Espírito Santo.

Para que, por aumento gradual… e progresso de glória em glória, a luz da Trindade pudesse brilhar sobre os mais iluminados… por esta razão, creio eu, foi que Ele gradualmente passou a habitar nos discípulos. Ele Se apresentou a eles de acordo com a capacidade deles em recebê-Lo: no início do evangelho, após a Paixão, após a Ascensão, aperfeiçoando Seus poderes, sendo soprado sobre eles e aparecendo em línguas de fogo… Vedes luzes surgindo sobre nós, gradualmente, e conhecimento de tal ordem teológica, que é melhor para nós mantermos, sem proclamar as coisas de forma precipitada, nem mantê-las ocultas até o fim… Ele disse que todas as coisas deveriam nos ser ensinadas pelo próprio Espírito, esclarecidas em um tempo posterior, quando tal conhecimento fosse oportuno e pudesse ser recebido após a restauração de nosso Salvador; quando não fosse mais recebido com incredulidade por causa de seu caráter maravilhoso. Pois que coisa maior do que esta Ele prometeu, ou o Espírito ensinou? … Se Ele não deve ser adorado, como pode me deificar pelo batismo?… E, de fato, do Espírito vem o nosso novo nascimento, e do novo nascimento a nossa nova criação, e da nova criação o nosso conhecimento mais profundo da dignidade d´Aquele de quem ela deriva… Observem estes fatos: Cristo nasce; o Espírito é o Seu precursor. Ele O conduz. Ele realiza milagres; o Espírito os acompanha. Ele ascende; o Espírito toma o Seu lugar (São Gregório, o Teólogo, Quinta Oração Teológica, 26-29).

A Promessa de Pentecostes

“No último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-Se em pé e clamou, dizendo: ‘Se alguém tem sede, venha a Mim e beba.

Quem crê em Mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.’

Ele disse isso a respeito do Espírito, que os que n´Ele cressem haveriam de receber; pois o Espírito Santo ainda não havia sido dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado.

Muitos da multidão, ao ouvirem isso, disseram: ‘Verdadeiramente este é o Profeta’.

Outros diziam: ‘Este é o Cristo’. Mas alguns perguntavam: ‘Vem o Cristo da Galileia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de David e da cidade de Belém, onde David nasceu?’

Assim, houve divisão entre o povo por causa d´Ele.

Alguns queriam prendê-Lo, mas ninguém Lhe pôs as mãos.” Então os guardas foram ter com os principais sacerdotes e fariseus, que lhes disseram: “Por que vocês não O trouxeram?”

Os guardas responderam: “Ninguém jamais falou como este homem!” Então os fariseus lhes disseram: “Vocês também estão enganados? Algum dos líderes ou fariseus creu n´Ele? Mas esta multidão que não conhece a lei é maldita!”

Nicodemos (que fora um deles e viera ter com Jesus à noite) disse-lhes: “A nossa lei julga alguém antes de o ouvir e saber o que ele faz?”

Eles responderam: “Você também é da Galileia? Examine as coisas e veja, pois nenhum profeta surgiu da Galileia” (João 7:37-52).

Então Jesus falou-lhes novamente, dizendo: “Eu sou a luz do mundo. Quem Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8:12).

Se alguém tem sede, venha a Mim e beba…

Aqueles que vêm à pregação divina e dão ouvidos à fé devem manifestar o desejo de água das pessoas sedentas e acender em si mesmos um anseio semelhante; assim, serão capazes de reter com muito cuidado o que é dito… Pois, para mostrar que devemos sempre ter sede e fome, Ele disse: ‘Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça’ (Mateus 5:6)… Em outros lugares, Ele chama isso de ‘vida eterna’, mas aqui, ‘água viva’. Ele chama de “viver” aquilo que sempre opera: pois a graça do Espírito, quando entra na mente e se estabelece, jorra mais do que qualquer fonte, não falha, jamais se esgota… Ele representou sua abundância com a expressão “jorrar”… Considerem a sabedoria de Estêvão, a língua de Pedro, a veemência de Paulo: como nada os suportou, nada resistiu a eles, nem a ira das multidões, nem as revoltas dos tiranos, nem as tramas dos demônios, nem as mortes diárias, mas como rios impetuosos, assim eles seguiam seu caminho, levando consigo todas as coisas… Quando estava para enviá-los (após a crucificação), Ele disse: “Recebei o Espírito Santo” (João 20:22)… e então eles realizaram milagres (São João Crisóstomo, Homilia 51 sobre João 7).

Em Louvor à Salvação e à Criação

“Ó Deus, Tu és o meu Deus; de madrugada Te buscarei; a minha alma tem sede de Ti; a minha carne Te deseja muito em uma terra seca e cansada, onde não há água. Assim, eu Te aguardo no santuário, para ver o Teu poder e a Tua glória. Porque a Tua benignidade é melhor do que a vida; os meus lábios Te louvarão. Assim Te bendirei enquanto eu viver; em Teu Nome levantarei as minhas mãos. A minha alma se fartará, como de tutano e de gordura, e a minha boca Te louvará com lábios jubilosos. Quando me lembro de Ti no meu leito, quando medito em Ti nas vigílias da noite. Porque Tu tens sido o meu auxílio, então, à sombra das Tuas asas me alegrarei. A minha alma Te segue de perto; a Tua mão firme me sustenta” (Salmo 63:1-8).

O Espírito Santo provê todos os dons: Ele inspira a profecia, aperfeiçoa o sacerdócio, concede sabedoria aos iletrados, transforma pescadores simples em sábios teólogos e estabelece a ordem perfeita na organização da Igreja. Portanto, ó Consolador, igual em natureza e majestade ao Pai e ao Filho, glória a Ti… (de A Bíblia e os Santos Padres para Ortodoxos, ed. J. Manley, Monastery Books, Menlo Park, 1990, pp. 136-9).

Nos tempos antigos, o orgulho trouxe confusão de línguas aos construtores da torre de Babel, mas agora a diversidade de línguas ilumina as mentes e dá conhecimento para a glória de Deus. Lá, Deus puniu os infiéis por seus pecados, enquanto aqui Cristo iluminou os pescadores por meio do Espírito; lá a confusão de línguas era para fins de vingança, enquanto aqui havia variedade para que as vozes pudessem se unir em uníssono para a salvação de nossas almas (Sticherion de Pentecostes para as Vésperas, pp. 891, 894).

Pentecostes – A Descida do Espírito Santo

No Antigo Testamento, Pentecostes era a festa que ocorria cinquenta dias após a Páscoa. Assim como a Páscoa celebrava o êxodo dos israelitas da escravidão no Egito, o Pentecostes celebrava o dom de Deus dos Dez Mandamentos a Moisés no Monte Sinai.

Na nova aliança do Messias, a Páscoa assume um novo significado como a celebração da morte e ressurreição de Cristo, o “êxodo” da humanidade deste mundo pecaminoso para o Reino de Deus. E também no Novo Testamento, a festa de Pentecostes se cumpre e se renova com a vinda da “nova lei”, a descida do Espírito Santo sobre os discípulos de Cristo.

“Ao chegar o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram línguas como de fogo, que se distribuíram e pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo” (Atos 2:1-4).

O Espírito Santo, que Cristo havia prometido aos Seus discípulos, veio no dia de Pentecostes (ver João 14:26, 15:26; Lucas 24:49; Atos 1:5). Os apóstolos receberam “o poder do alto” e começaram a pregar e a testemunhar de Jesus como o Cristo ressuscitado, o Rei e o Senhor. Este momento tem sido tradicionalmente chamado de nascimento da Igreja.

Nos serviços litúrgicos da festa de Pentecostes, celebra-se a vinda do Espírito Santo juntamente com a plena revelação da Trindade divina: Pai, Filho e Espírito Santo. A plenitude da Divindade manifesta-se com a vinda do Espírito à humanidade, e os hinos da Igreja celebram esta manifestação como o ato final da autorrevelação e da autodoação de Deus ao mundo da Sua criação. Por esta razão, o Domingo de Pentecostes também é chamado de Domingo da Trindade na Tradição Ortodoxa. Frequentemente, neste dia, o ícone da Santíssima Trindade – particularmente o das três figuras angelicais que apareceram a Abraão, o patriarca da fé cristã – é colocado no centro da igreja. Este ícone é usado juntamente com o ícone pentecostal tradicional que mostra as línguas de fogo pairando sobre a Virgem Maria e os Doze Apóstolos, o protótipo original da Igreja, que estão sentados em unidade ao redor de uma imagem simbólica do “cosmos” (o mundo).

No Pentecostes, temos o cumprimento final da missão de Jesus Cristo e o início da era messiânica do Reino de Deus (misticamente presente neste mundo na Igreja do Messias). Por essa razão, o 50º dia representa o início da era que transcende as limitações deste mundo, sendo cinquenta o número que simboliza a plenitude eterna e celestial na piedade mística judaica e cristã: sete vezes sete, mais um.

Assim, o Pentecostes é chamado de dia apocalíptico, que significa o dia da revelação final. Também é chamado de dia escatológico, que significa o dia do fim definitivo e perfeito (em grego, eschaton significa o fim). Pois, quando o Messias vier e o Dia do Senhor estiver próximo, os “últimos dias” serão inaugurados, nos quais “Deus declara: … Derramarei o Meu Espírito sobre toda a carne”. Esta é a antiga profecia à qual o apóstolo Pedro se refere no primeiro sermão da Igreja Cristã, pregado no primeiro domingo de Pentecostes (ver Atos 2:17; Joel 2:28-32).

Mais uma vez, é preciso observar que a festa de Pentecostes não é simplesmente a celebração de um evento ocorrido séculos atrás. É a celebração do que deve acontecer e do que acontece conosco na Igreja hoje. Todos nós morremos e ressuscitamos com o Messias-Rei, e todos nós recebemos o Seu Santíssimo Espírito. Somos os “templos do Espírito Santo”. O Espírito de Deus habita em nós (ver Romanos 8; 1 Coríntios 2-3, 12; 21 Coríntios 3; Gálatas 5; Efésios 2-3). Nós, por nossa própria participação na Igreja, recebemos “o selo do dom do Espírito Santo” no sacramento da crisma. Pentecostes já aconteceu conosco.

A Divina Liturgia de Pentecostes relembra o nosso batismo em Cristo, com o versículo de Gálatas substituindo novamente o Hino Três Vezes Santo. Versículos especiais dos Salmos também substituem os salmos antifonais habituais da liturgia. As leituras da epístola e do Evangelho narram a vinda do Espírito à humanidade. O Kondákion canta a reversão da Torre de Babel, quando Deus une as nações na unidade do seu Espírito. O Troparion proclama a reunião de todo o universo na rede de Deus por meio da obra dos apóstolos inspirados. Os hinos “Ó Rei Celestial” e “Vimos a Verdadeira Luz” são cantados pela primeira vez desde a Páscoa, invocando o Espírito Santo para “vir e habitar em nós” e proclamando que “recebemos o Espírito Celestial”. O edifício da igreja é decorado com flores (e erva verde recém ceifada espalhada pelo chão) para mostrar que o Sopro divino de Deus vem renovar toda a criação como o “Espírito vivificante”. A palavra para Espírito, sopro e vento em hebraico é ruah.

As Grandes Vésperas da noite de Pentecostes incluem três longas orações nas quais os fiéis se ajoelham pela primeira vez desde a Páscoa. A segunda-feira após Pentecostes é a festa do Espírito Santo na Igreja Ortodoxa, e o domingo após Pentecostes é a festa de Todos os Santos. Esta é a sequência litúrgica lógica, visto que a vinda do Espírito Santo se cumpre nos fiéis pela sua santificação, e este é o próprio propósito da criação e salvação do mundo. “Assim diz o Senhor: Consagrem-se, pois, e sejam santos, porque Eu, o vosso Deus, sou santo” (Levítico 11:44-45; 1 Pedro 1:15-16).


Protopresbítero Thomas Hopko
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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