COMO ENTRAR EM UM TEMPLO E CHEGAR À IGREJA – PARTE 2

Entrevista com Dmitry Ostroumov

Dmitry Ostroumov é o diretor do estúdio “Prokhram”, que cria projetos únicos para igrejas, exposições e objetos. Eles combinam tradição e uma perspectiva contemporânea sobre arte sacra. Nesta entrevista, discutimos o caminho até a arquitetura sacra, os princípios de trabalho do estúdio e como o espaço pode conduzir as pessoas a Deus.

Como a arquitetura e o design de igrejas podem atrair pessoas, principalmente jovens?

Acredito que, também aqui, podemos trabalhar do externo para o interno. Em relação ao externo, há uma tendência atual de estabelecer cafeterias, centros culturais e exposições no território das igrejas. Penso que este é um campo vibrante e interessante para explorar. Uma igreja em um ambiente urbano moderno é mais do que apenas um espaço litúrgico.

É muito importante criar esses complexos de igrejas, mesmo que o terreno e o espaço sejam limitados. Por exemplo, algo semelhante pode ser organizado no subsolo. Nesse sentido, é necessário criar espaços de exposição, salas de palestras e locais onde as pessoas possam simplesmente assistir e discutir um filme ou ouvir um concerto de câmara.

Deve ser um espaço agradável onde as pessoas simplesmente se sintam bem, confortáveis, em harmonia e conectadas. Em última análise, tudo se resume à experiência que elas vivenciam. Se alguém visita, por exemplo, um centro cultural de uma igreja e não se isola, mas se sente acolhido e aberto, é provável que retorne e até mesmo participe dos cultos. As ferramentas de design também podem contribuir para isso. O ambiente deve ser confortável, ergonômico e saudável.

Nesse sentido, é importante que arquitetos e designers estudem psicologia, como a cor e a luz influenciam a percepção humana. Por exemplo, as cores do McDonald’s são projetadas para atrair as pessoas, fazê-las querer entrar, mas não ficar muito tempo. As cores amarela e vermelha incentivam as pessoas a consumir o produto rapidamente e seguir em frente, atraindo mais clientes. No nosso caso, tons pastel e naturais são essenciais. A natureza oferece exemplos impressionantes de como cores, materiais e iluminação podem ser combinados.

Também deve haver obras de arte interessantes. Falando do espaço ao redor da igreja, instalações e esculturas podem atrair a atenção. É assim que podemos discutir conceitos teológicos através da arte contemporânea.

Se estivermos falando dos espaços internos de um centro cultural como esse, isso poderia incluir pinturas e gravuras, tanto em exposições permanentes quanto temporárias. A iluminação é importante. Que tipo de iluminação existe — suave, fria, quente… Como ela guia o visitante?

Igrejas costumam ter cafés. Por exemplo, em São Petersburgo, a Igreja do Ícone da Mãe de Deus “Alegria de Todos os Aflitos com Moedas” tem um café maravilhoso chamado “Moedas”. Ou há o famoso café na Igreja de Antipas de Pérgamo em Moscou, ou o espaço “Ruf” na Igreja de São Nicolau nas Três Colinas. Isso deveria ser explorado. Além disso, uma igreja pode ter seu próprio manual de identidade visual, seu próprio código de design — um logotipo reconhecível, uma fonte interessante — que atraia as pessoas.

Além dos eventos realizados, o componente de design é importante. Analisando mais profundamente, o próprio espaço da igreja se resume a como uma pessoa o vivencia, à existência do presente. Na igreja, somos chamados a experimentar o amor, um sentimento de lar absoluto, de pertencimento. Se, ao entrar na igreja, mesmo sem conhecer nada sobre os serviços ou as regras, uma pessoa sente isso, fica com uma impressão mental que possibilita o reencontro com um lar perdido, um Deus cuja ausência muitas vezes leva a crises existenciais.

Para os jovens que vivem em um mundo muito dinâmico, certo ponto de apoio, um ponto de atração, é importante, onde eles sabem que aquele é um lugar de encontro com algo superior, mesmo que ainda não conheçam esse Divino como tal. E através disso, eles podem se aprofundar na tradição da igreja. Costumo dar este exemplo. Conheço um padre que também é pintor de ícones. Ele me contou sobre sua experiência, sobre como se interessou pela Igreja. Enquanto estudava na Academia de Belas Artes, ele simplesmente entrou em uma igreja e ficou impressionado com a expressão estética da imagem de São Nicolau. Ele achou a imagem incrivelmente bela — a própria figura, o olhar, tão importante em um ícone. Ficou cativado por esse ícone e começou a estudar arte sacra. E assim, tornou-se sacerdote, dedicando sua vida a Deus.

Conheço também um monge francês que, inicialmente, estava bastante distante da Ortodoxia. Ele viu uma reprodução do nosso Ícone de Vladimir da Mãe de Deus em uma revista de arte francesa. A imagem o impressionou tanto que ele fez uma peregrinação a pé da França, caminhando por três meses para vê-la. E tudo terminou com ele não apenas se tornando um fiel, mas também um monge ortodoxo. Portanto, as categorias estéticas são muito importantes e, no espaço da igreja, os temas clássicos do design ambiental vêm à tona — o uso da luz, da cor, dos elementos dominantes e do ritmo. Tudo deve ser harmonioso.

As igrejas modernas muitas vezes pecam pelo excesso de ornamentação — muitos ícones, muitas pinturas, um iconostásio dourado caro com entalhes e assim por diante. Mas, às vezes, tudo isso não harmoniza. O mesmo pode ser dito sobre a arquitetura. Os kokoshniks e a cúpula com a cruz no topo parecem estar no lugar certo, mas há uma dissonância. Às vezes, é uma pena que, para um investimento tão grande, o efeito e o impacto visual pudessem ter sido muito melhores. Nosso objetivo, naturalmente, é combinar todos esses fatores e criar um espaço unificado e harmonioso.

O estúdio está publicando um almanaque.
Como surgiu a ideia e o que vocês pretendem transmitir com ele?

Sim, há muito tempo, além de trabalharmos com arquitetura e design, também realizamos diversas palestras, simpósios e exposições. Organizamos um programa sobre arquitetura sacra para o festival Zodchestvo, um dos maiores festivais de arquitetura da Rússia, e criamos instalações. Em um âmbito mais pessoal, realizamos palestras periodicamente em nosso estúdio para funcionários e convidados. Também promovemos encontros regulares no Centro Cultural Favor, em Moscou. Às vezes, sou convidado a falar em paróquias sobre arquitetura sacra e arte contemporâneas.

Sentimos um desejo de documentar isso. Talvez esteja ligado ao meu amor por livros; acho muito difícil ler e-books; é sempre importante segurar uma edição impressa em minhas mãos; ela transmite conhecimento de uma maneira diferente do que através de uma tela. Foi assim que surgiu o almanaque “Palavra e Pedra”. Um título abrangente nasceu. As palavras são sobre significados, o Logos que entra no mundo vindo dos reinos espirituais celestiais, mas esses significados são expressos em objetos de arte, em palavras faladas, em forma, traduzidos para a linguagem da arte visual. Daí o título: “Palavra e Pedra”. A pedra simboliza a matéria e as palavras simbolizam a essência.

Começamos a entrevistar e compilar artigos. Foi valioso para mim conduzir uma série de entrevistas com pessoas cuja era está passando. E é importante preservar sua transmissão, sua visão de mundo. Graças a Deus, elas estão vivas, e enquanto podem compartilhar suas experiências, eu realmente quero traduzir essa experiência em texto, para que se torne parte de nossa herança. Entre eles, nomes como o do artista monumental e mosaicista Alexander Kornoukhov, a filósofa e poetisa Olga Sedakova, o compositor Vladimir Martynov e os escultores Anatoly Komelin e Sergei Antonov. São pessoas que vivenciaram profundamente a jornada que estamos discutindo agora e, já não tão jovens, podem compartilhá-la. Nosso objetivo ao reunir essas entrevistas no almanaque era mostrar como a tradição pode ser expressa em linguagem contemporânea.

É claro que também há artigos e entrevistas com autores mais jovens e mestres. Cada edição é sempre um milagre especial. Elas não são publicadas com frequência, mas cada uma é verdadeiramente uma joia. E não são para leitura casual.

A ideia do almanaque não é apenas colecionar obras arquitetônicas ou artísticas, mas mostrar um recorte do espaço sagrado como um todo. Também temos artigos sobre música, sobre artistas contemporâneos que trabalham com formas arcaicas e tentam traduzi-las para um contexto contemporâneo usando música eletrônica, como o projeto Yarga Sound System, da Carélia. A ideia era desenterrar significados teológicos esquecidos. Nesse sentido, temos uma entrevista fascinante com Maxim Kalinin, pesquisador do misticismo sírio, na qual ele discute sua experiência estudando os Padres Siríacos.

Também não nos esquecemos da experiência ocidental. Procuramos apresentar exemplos da arquitetura ocidental em cada edição. Por exemplo, produzimos traduções exclusivas da obra de Peter Zumthor. Este texto nunca foi traduzido para o russo antes e foi criado especificamente para a nossa publicação.

A quarta edição está sendo publicada e a pré-venda já está aberta. Ela contará com material exclusivo com o diretor Roman Mikhailov, entrevistas com o Metropolita Nikandr de Vladimir-Suzdal, o arquiteto Sergei Kuznetsov, arquiteto-chefe de Moscou por muitos anos, as historiadoras de arte Irina Yazykova e Svetlana Gnutova, as artistas Irina Zatulovskaya, Olga Shalamova e Natasha Markina, a artista e diretora Lena Skripkina, o designer Roman Rodivilov e uma série de outros materiais fascinantes.

O almanaque pode interessar aos leitores modernos, não apenas aos estritamente religiosos. Ele pode revelar a notável cultura da Igreja a qualquer pessoa interessada. E talvez, por meio dele, as pessoas consigam ver a Igreja sem clichês e vir até ela, encontrar um lar e criar dentro dela.


tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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