A GRANDEZA DO CAMINHO INVERTIDO DO SENHOR (At. 20: 16-18, 28-36) – PARTE 1

Nosso Deus não é um poder supremo indefinido e impessoal. Já no Antigo Testamento, Ele é revelado como o Deus pessoal e vivo de Abraão, Isaac e Jacob (Êxodo 3:16). Quando chegou a plenitude dos tempos, o Filho e Verbo de Deus veio à Terra e transmitiu aos homens a palavra do Pai Celestial. Ele Se tornou o Pai do mundo vindouro (Isaías 9:6). Do Senhor Jesus “toda a paternidade nos céus e na terra recebe o nome” (Efésios 3:15). No Novo Testamento, os apóstolos se tornaram Pais por excelência. Eles percorreram o mundo inteiro, semeando a semente incorruptível da palavra da verdade. Por essa razão, a Igreja de Cristo é chamada de “Apostólica”.

A leitura de hoje, extraída dos Atos dos Apóstolos, narra os eventos que antecederam a prisão final de Paulo. Com firme resolução, o apóstolo se dirigiu a Jerusalém, onde desejava celebrar o Pentecostes. Ele estava atormentado pelo desejo de “ser libertado e estar com Cristo” (Filipenses 1:23). Permaneceu “na carne” para o aperfeiçoamento dos fiéis. Um certo profeta da Judeia, Ágabo, predisse claramente que Paulo seria preso em Jerusalém e entregue “nas mãos dos gentios”. Os cristãos, então, tentaram dissuadir o apóstolo de subir à cidade santa. Paulo, porém, respondeu: “Estou pronto não apenas para ser preso, mas também para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (Atos 21:10-13). Ele viveu como “prisioneiro de Jesus Cristo” (Efésios 3:1), e onde quer que essa “prisão” exista, ali a palavra de Deus produz frutos abundantes.

Paulo convocou os presbíteros de Éfeso. Dirigiu-lhes suas últimas exortações, mas também os advertiu e preparou para as provações que viriam. Para Paulo, negligenciar a Igreja era o mesmo que desprezar o preciosíssimo Sangue, pelo qual o Todo-Poderoso Jesus havia redimido o Seu povo. Tendo concluído seu último ensinamento, o apóstolo encomendou seus discípulos a Deus e à palavra da Sua graça. Ajoelhou-se e começou a proferir a oração de despedida, imitando Cristo, que, após as palavras vivificantes da Última Ceia, ofereceu Sua oração sacerdotal a Deus Pai. Os fiéis se lançaram sobre o pescoço de Paulo e o beijaram.

Mas como pescadores pobres e iletrados foram transformados em Pais e mestres do mundo até os confins da terra e até o fim dos tempos? Os apóstolos foram os imitadores mais próximos de Cristo, o Mestre. Assim, encontraremos a resposta na Pessoa e no caminho do Senhor Jesus. O profeta Isaías predisse que toda palavra que procede da boca de Deus não volta vazia antes de cumprir sua missão (Isaías 55:10-11). Em sentido absoluto, a Palavra de Deus é Cristo, que veio à Terra, Se fez homem e não retornou ao seio do Pai Celestial antes de ter completado a obra de Sua obediência a Ele, a temida dispensação para a salvação do mundo.

Todo dom divino brota da descida e ascensão de Cristo e é regido por ela. Não há outro caminho para o homem encontrar a plenitude do seu destino. No caminho do esvaziamento de si mesmo, realiza-se a expansão apostólica. Depois de Paulo ter conhecido Cristo, que ama sem medida, no caminho para Damasco, ofereceu arrependimento “com forte clamor e lágrimas” (Hb 5,7). Ele não podia esquecer que havia “perseguido a Igreja de Deus” (1Co 15,9), que havia sido “um blasfemo injurioso” (1Tm 1,13).

Para o homem, o primeiro passo no caminho da descida é o arrependimento. Por meio desse trabalho ascético, ele se purifica de tudo o que impede a presença do amor divino em seu coração. Então, ele adquire “a mente de Cristo” (1Co 2,16). Os pensamentos e a vontade de Deus tornam-se seus. Qual é a vontade de Deus? A salvação de todos. Não foi para esse propósito que Ele veio à Terra e morreu uma morte vergonhosa? Não derramou Ele Seu precioso Sangue para redimir o homem da corrupção?

Quando o homem adquire o estado de Cristo, inicia-se um grande martírio. Cristo abre os olhos noéticos do seu coração, para que ele possa contemplar o grandioso destino predestinado por Deus para ele, mas também a miserável queda da humanidade. O servo do amor divino sabe que ninguém veio a este mundo por acaso. Com o amor do Amado, ele ama o mundo inteiro e deseja a salvação de todos.

O grande Paulo, constrangido pelo desejo de que todos sejam salvos, tornou-se “tudo para todos” (1 Coríntios 9:22). Ele e os outros apóstolos seguiram o Senhor em Sua descida e ascensão. Seus corações se expandiram. Antes de pregarem a “salvação” de Cristo a todas as nações da Terra, eles já haviam feito dessas nações o conteúdo de seus corações. O exemplo deles revela uma lei da vida espiritual: é impossível para um homem transmitir um dom espiritual ao seu próximo se ele não o tiver acolhido amorosamente em seu coração.

A partir do momento da conversão de Paulo, Cristo tornou-se o centro de sua vida. Ele considerava tudo o mais como “esterco” (Filipenses 3:8). Apenas um duplo anseio o constrangia: que, “quer pela vida, quer pela morte”, Cristo fosse engrandecido nele (Filipenses 1:20) e que a todos os homens fosse concedida a entrada no Reino do Seu amor imaculado. Na noite da Última Ceia, Cristo orou ao Pai Celestial. Ele considerava como Sua própria glória a glória que aqueles que cressem n´Ele receberiam, a glória que brotava de Sua Cruz e Ressurreição. Da mesma forma, para o grande Paulo, Seu radiante imitador, riqueza e graça eram a graça recebida por seus discípulos. Por essa razão, ele disse aos tessalonicenses: “Agora vivemos, se permanecerdes firmes no Senhor” (1 Tessalonicenses 3:8).

* * *

Pergunta: O que significa que “quando o homem se submete a Deus, a palavra divina opera abundantemente nele”?

Arquimandrita Zacarias: O apóstolo diz que Cristo, “quando subiu ao alto, levou cativo o cativeiro” (Ef 4:8), isto é, libertou os fiéis do domínio do diabo. Em essência, a vida cristã deve ser um cativeiro. Se a mente e o coração do homem não forem levados cativos à palavra e ao Espírito do Senhor Jesus, se ele não for liberto do domínio do pecado, não poderá viver como cristão, nem seguir o Autor da sua fé, Cristo (Hb 12:2), em santidade e justiça. Somente aquele que é cativo pelo desejo de Deus corre com alegria o caminho da salvação e segue a Cristo sem esforço, porque a graça opera em seu favor (1Co 15:10). Tão grande é o chamado do cristão que, a menos que ele se entregue a esse sagrado e sublime cativeiro espiritual, literal e plenamente, não será capaz de responder dignamente ao chamado do Senhor Jesus.

Toda a dispensação da salvação pelo Senhor foi um esforço de atração. Ele não veio à Terra para impor o Seu caminho, mas para revelá-lo. Ele mesmo disse: “E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim” (João 12:32). Dessa maneira perfeita, Ele cumpriu, de forma piedosa, aquilo que a Providência de Deus havia ordenado para o homem “antes da fundação do mundo”. Em geral, o que torna nossa vida difícil é que Deus não Se impõe, mas Se revela a nós de muitas maneiras, e espera que honremos essa revelação, que sejamos atraídos pela Sua verdade e espírito maravilhoso, e assim alcancemos o grande propósito que Deus estabeleceu para cada homem que vem ao mundo.

Pergunta: São Sofrônio estabelece a fé na Divindade de Cristo como o primeiro pré-requisito para o arrependimento, e o senhor disse que sem a fé verdadeira o homem não pode encontrar seu coração. Poderia nos explicar a relação entre fé e vida do coração?

Arquimandrita Zacarias: Sem fé, o homem não pode cumprir o propósito de sua vida, porque pela fé ele recebe a graça. Quando o homem aceita a palavra da fé, a graça o conduz à perfeita “santidade no temor de Deus” dia após dia (2 Coríntios 7:1), e lhe revela tanto a grandeza da vocação de Deus quanto sua própria pobreza e afastamento Dele. Então o homem se vê, por assim dizer, dividido. Ele vê o perfeito, o santo, o sobrenatural, o eterno atraindo-o e chamando-o à união com Ele; e também vê sua vida à luz da Pessoa de Deus e se submete livremente ao julgamento de Seus mandamentos. Então nasce nele um intenso desejo de arrependimento, a ânsia de fazer tudo para permanecer naquilo que Deus Se dignou a lhe revelar. Consequentemente, o homem chega ao arrependimento quando contempla a sublime perfeição e glória de Deus e a compara com sua própria corrupção e baixeza. Sem essa visão dupla, o homem não pode oferecer verdadeiro arrependimento; e sem arrependimento, ele não pode entrar em seu coração. Quando o arrependimento se torna fervoroso, então o coração se liberta de todos os seus apegos passionais e se volta inteiramente para Deus. E Deus Se deleita em habitar em tais corações livres, voltados para Ele com anseio e reverência.


Arquimandrita Zacarias (Zacharou)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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