Muitos estudiosos e historiadores consideram o etnofiletismo um fenômeno dos séculos XVIII e XIX, produto do Iluminismo, da Revolução Francesa e da teoria política da autodeterminação dos povos. Foi nesse espírito que muitos Estados-nação foram criados na Europa e nos Balcãs, com base em critérios etnofiléticos, sem qualquer referência ao fator religioso. Ao mesmo tempo, esses Estados-nação procederam à nacionalização de suas Igrejas, seguindo os mesmos critérios. O Patriarcado Ecumênico considerou o etnofiletismo um obstáculo à cooperação entre as igrejas locais e o condenou como heresia em um sínodo convocado em 1872.
Na realidade, porém, o etnofiletismo é um fenômeno bem conhecido e amplamente praticado, cujas raízes remontam ao Antigo Testamento. Não é por acaso que na capa de Nações e Nacionalismo, livro do historiador marxista Eric Hobsbawm, há uma imagem da Torre de Babel, que demonstra que a diversidade de povos e etnias tem raízes bíblicas. Segundo o texto do Antigo Testamento, o Deus Trino causou confusão nas línguas da humanidade para que as pessoas não pudessem se entender. “Assim, o Senhor os dispersou dali por toda a face da terra” (Gênesis 11:8), como castigo por terem ousado construir a Torre, que era um sinal de sua arrogância. Os povos da Torre de Babel foram infectados pelo vírus do filetismo, pecaram e cederam à tentação. A divisão das nações foi resultado do pecado e da escolha de um mundo sem Deus, pois “de um só homem ele fez todas as nações, para que povoassem a face da terra; e determinou os tempos determinados para eles na história e os limites das suas terras’ (Atos 17, 26).
Contudo, no Novo Testamento, com o Pentecostes, o problema da comunicação entre os povos deixa de existir, visto que, pela graça do Espírito Santo, os apóstolos “foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas” (Atos 2, 4). Consequentemente, seguiu-se um consenso entre as nações, a confusão transformou-se em unidade e as relações entre os povos passaram a basear-se no modelo trinitário de mútua inerência.
O nacionalismo, por definição, exclui aqueles que não pertencem à nação. A Igreja, porém, adota critérios superiores aos de raça ou cultura, como o ecumenismo, e, portanto, tem a capacidade de acolher a todos em seu seio, sem exceção, e de tratá-los a todos como pessoas: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos vocês são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3, 28).
Com base no mandamento do Senhor de “ir por todo o mundo e pregar o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15), as distinções deixam de ser relevantes e a teoria do excepcionalismo judaico desmorona: “Ou será Deus somente Deus dos judeus? Não é também Deus dos gentios? Sim, também dos gentios” (Romanos 3:29). Essa foi a tentação que os impediu de se unirem à Igreja, embora nunca tenham deixado de se considerar membros de um povo escolhido.
Cleópatra Hatzilia, Historiadora Cultural
tradução de monja Rebeca (Pereira)








