AS MULHERES PORTADORAS DE MIRRA: AMOR SACRIFICIAL

A terceira semana após a Páscoa é chamada de Semana das Mulheres Miróforas. A Santa Igreja louva e glorifica essas santas mulheres por sua devoção e amor a Jesus Cristo, pois não se pouparam em um momento de grande perigo e sofrimento. Em um tempo em que todos os discípulos de Cristo O abandonaram, elas permaneceram junto à Cruz para ver Sua crucificação e depositar Seu corpo no túmulo.

O Senhor veio à Terra por amor à humanidade caída, a fim de salvá-la. Os corações puros das mulheres miróforas puderam sentir a santidade do Salvador e Seu amor pelas pessoas e responderam a Ele com o mesmo amor forte e apaixonado. A Santa Igreja as glorificou precisamente por essa fé inabalável e amor por nosso Senhor e Salvador, o Doce Jesus Cristo. Falemos sobre o chamado da mulher, conforme ensinado pelas Sagradas Escrituras.

Ninguém contestaria a grande influência que as mulheres têm sobre as ações humanas, tanto boas quanto más. Sabemos pela Bíblia que foi por meio da primeira mulher que o pecado entrou neste mundo inocente. É também por meio da mulher que o Redentor veio ao mundo para renovar e restaurar a humanidade. De fato, o autor inspirado por Deus do Livro dos Salmos fala dos dois caminhos que a humanidade pode trilhar. Um é o da sabedoria e da devoção, enquanto o outro é o da insensatez e do vício. Deus não Se agradou em conceder à mulher o poder de subjugar os outros pela força ou coerção. Mas Ele lhe deu a influência para subjugar os fortes de tal forma que eles não percebam, submetendo-se sem sentir sua liberdade restringida de qualquer maneira. É por isso que a influência da mulher sobre o destino e a moral das pessoas é tão grande. Essa influência se provará benéfica se a vida da mulher estiver em conformidade com sua vocação original.

Qual é, então, a vocação da mulher? Dizem às vezes que homens e mulheres têm a mesma vocação: glorificar a Deus por meio de suas boas obras. Isso é verdade, mas a mulher tem uma vocação especial. Recorramos às Sagradas Escrituras. Lemos na primeira página do Livro do Gênesis: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26). Mais adiante, diz o seguinte sobre o chamado específico da mulher: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora idônea para ele” (Gênesis 2:18). E isso não se referia a uma mulher casada, pois Eva não foi apenas a primeira esposa do primeiro marido, mas também a primeira criatura do sexo feminino. De fato, não era bom que o homem estivesse só. Deus dotou o primeiro homem com todas as bênçãos. Colocou-o no Éden, mas o homem não tinha uma auxiliadora capaz de pensar, falar e amar. Ele não tinha ninguém com quem compartilhar sua alegria, seus pensamentos e seus sentimentos, porque todas as criaturas ao seu redor estavam abaixo dele, enquanto o Ser Divino que o havia criado estava muito acima. Adão, portanto, não sentia a felicidade perfeita. Então Deus criou uma esposa, uma auxiliadora, para o primeiro homem. Ela era aquele outro “ego” que o primeiro homem buscava. A esposa, como auxiliadora dada por Deus, deve aperfeiçoar a felicidade do marido com seu cuidado e amor. Assim, a vocação da mulher reside no amor. Sendo o auxílio do marido, ela é sua igual. Ela só pode lhe dar a ajuda de que ele precisa se for sua igual.

Será que a vocação da mulher mudou após a Queda, depois que o pecado abalou toda a natureza e trouxe grandes mudanças ao mundo da moralidade? Satanás tentou a mulher porque sabia que ela era mais fraca que o homem. Então, Satanás a usou como instrumento para tentar o marido, ciente da grande influência que a esposa exercia sobre ele. O cálculo satânico foi muito astuto e alcançou seu objetivo. O Diabo desviou o homem por meio de sua esposa. A esposa usou a influência pura e bondosa dada por Deus para o mal e, assim, a destruiu. Ela retribuiu a Adão com pecado e morte pela vida que recebera dele. É por isso que Deus a puniu com uma dor severa, sem a qual a raça humana não pode se multiplicar. Deus rebaixou sua posição, dizendo: “O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (Gênesis 3:16). Desde então, ela se tornou totalmente submissa ao marido, e a luta entre o bem e o mal começou no próprio fundamento da vida social, que é a família.

O pecado destruiu a vida cotidiana humana e rompeu o equilíbrio na relação entre marido e mulher. Em vez de aceitar humildemente o castigo que lhe foi infligido pelo julgamento de Deus, o marido tentou sobrecarregar a esposa com todo o seu trabalho e preocupações, reservando para si o direito de dominar e ditar as regras. Assim, a esposa, a auxiliadora, tornou-se primeiro trabalhadora e depois escrava. Na tentativa de se libertar do despotismo do marido, mas sem forças para tal, a esposa recorreu à astúcia e à esperteza. Assim começou a luta milenar entre déspota e escrava.

O Deus misericordioso, vendo o equilíbrio na relação entre marido e mulher destruído, encontrou um caminho para restaurá-lo. Ele já havia prometido aos primeiros seres humanos que surgiram após a Queda que nasceria o Redentor, que deteria o demônio e libertaria a mulher da escravidão. E chegou o tempo em que essa promessa se cumpriu. A Santíssima Virgem Maria, pelo poder do Seu amor e humildade, concebeu Deus e O deu à luz para Se tornar o Salvador que renovou e redimiu a humanidade e libertou a mulher da escravidão.

Como vocês podem ver, a Santíssima Virgem Maria conquistou essa liberdade pelo poder do Seu amor e humildade. Ela é o exemplo a ser seguido pelas mulheres. Foi o amor e a humildade que Lhe trouxeram a liberdade. A liberdade da mulher não foi conquistada pela rebeldia contra o marido, mas pela humildade e pelo amor. Tendo realizado uma tarefa tão grandiosa como dar à luz o Salvador do mundo, a Virgem Maria permaneceu praticamente desconhecida. Ela não era vista nem mesmo entre os apóstolos, embora estes A venerassem. Este é um exemplo de verdadeira humildade para nós.

O amor e a humildade tão perfeitamente manifestados pela Mãe de Deus são essenciais no matrimônio cristão, prescrevendo que a esposa ame o marido. Assim como a Igreja ama a Cristo, a esposa é chamada a amar o marido, não por medo de serva, mas com amorosa submissão, assim como a Igreja obedece a Cristo.

Os santos apóstolos, por vezes, apontavam para os vícios que se infiltraram nas relações entre os cônjuges após a Queda. Assim, São Paulo adverte os maridos contra o despotismo, dizendo: “Maridos, amem suas esposas” (Et 5:25). São Paulo escreve, tentando impedir que as esposas busquem dominar seus maridos: “Quero, porém, que saibais que Cristo é o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1 Cor 11:3), e acrescenta: “O homem é a imagem e a glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem” (1 Cor 11:7). Pois não foi o homem que foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem. Buscando libertar a mulher da astúcia e da coqueteria enraizadas em seu desejo de dominar o homem, o apóstolo escreve: “Quero também que a mulher se vista modestamente, com decência e bom senso, não com penteados elaborados, nem ouro, nem pérolas…, mas com boas obras”. Então, ele dá uma instrução direta: “Não permito que a mulher ensine” (1 Tm 2:12). Embora possa parecer humilhante para uma mulher, não o é de forma alguma. São Paulo apontou para a atividade que deve contribuir para a grandeza da mulher, e a modéstia e a humildade são o melhor caminho para alcançá-la. Ele escreve ainda que a esposa deve ajudar o marido a alcançar a salvação. Com seu amor e preocupação, ela deve promover o bem-estar dele, não tanto o temporal, mas o eterno. Ela deve ajudá-lo na tarefa da salvação, para que ela mesma possa ser salva.

Assim, a mulher é chamada a ser uma ajuda para o seu marido. Sua vocação é o amor. Se você olhar profundamente para o mundo interior de uma mulher, verá as palavras “retidão e modéstia” inscritas pelo Criador em seu coração. A própria felicidade e honra de uma mulher residem nessa posição modesta e dependente. Se ela perde essas qualidades, perde sua imagem. Portanto, segundo a palavra de Deus, a natureza da mulher reside na modéstia e na humildade, e sua vocação é o amor.

Existem dois tipos de amor. Um é o sentimento de alegria de uma pessoa que é amada com amor sacrificial, enquanto o outro é a felicidade de uma pessoa que ama com amor sacrificial. Amada pelos outros, a mulher é feliz, mas esse amor é inconstante e mutável. Amar o próximo e sacrificar-se por amor a ele – essa é a essência da mulher e a lei perfeita de sua existência. É claro que o egoísmo, que marca toda a humanidade, também é inerente à mulher, mas estamos falando aqui do amor puro, como ele deveria ser. Sem os tumores do pecado trazidos pela Queda, o amor com que o Criador dotou a mulher é o que a torna corajosa e capaz de grandes feitos, apesar de toda a sua fragilidade e delicadeza.

Observe como uma mulher é paciente em suas boas obras, como seu amor é insaciável. O amor de uma mãe sempre foi reverenciado como um modelo desse amor terno e sagrado. O amor materno foi glorificado por escritores e poetas em todos os tempos e em todas as nações.

Frequentemente nos perguntam se homens e mulheres são iguais em suas capacidades. Eles são iguais e, ao mesmo tempo, desiguais. As capacidades da mulher são destinadas a um objetivo, enquanto as do homem a outro. A mulher tem seu próprio campo de atuação, no qual suas capacidades são, naturalmente, incomparavelmente superiores às do homem. É o seu lar e a sua família. Este é o campo onde a mulher revela todo o poder de sua alma. É aqui que ela é a dona absoluta, embora sua influência seja muitas vezes discreta. Seu poder se manifesta não na opressão ou na força bruta, mas na cativante gentileza. É na família que sua eficiência e sua misteriosa arte de penetrar o coração de um homem se manifestam. A capacidade de cuidar, de compartilhar, de responder, de demonstrar tato e de encorajar almas aflitas e sofridas – essa é a mola mestra usada pelas mulheres para exercer controle no lar.

As habilidades que a mulher recebeu de Deus, contudo, não podem ser reveladas em toda a sua plenitude. Ela é capaz de cumprir sua vocação, mas, ao mesmo tempo, é incapaz. Ela é capaz porque busca realizar sua predestinação e incapaz por causa do pecado que sufoca e, às vezes, corrompe as boas sementes que Deus plantou em seu coração. Em vez de ser ativa, ela se torna inquieta, recorrendo à intriga, à astúcia e à coqueteria. O coração da mulher, tão ricamente dotado de dons da graça de Deus, torna-se pecaminoso e sem graça. As Sagradas Escrituras, embora elogiem as boas qualidades da mulher, também apontam para sua maldade. Em suas páginas, você pode encontrar mulheres más, insensatas, caídas e irrefletidas que causaram muito dano ao povo de Deus.

O coração da mulher, ardente e zeloso, bom e mau, forte e fraco ao mesmo tempo, precisa ser guiado para um bom propósito. As boas sementes plantadas por Deus nele precisam crescer da maneira correta. Mas quem pode curar e ensinar o coração da mulher? Ninguém pode reformá-lo e renová-lo, senão o Filho de Deus, que Se fez carne para restaurar a natureza humana e, assim, sermos salvos. Somente d´Ele a mulher pode receber a força para cumprir sua predestinação nesta vida.

Quando Cristo, o Salvador, pregou na Terra, ninguém simpatizou tanto com Ele quanto as mulheres. Assim como o coração da mulher é atraído por Ele, também o coração d´Ele é atraído pelo dela, porque o Filho de Deus, por Sua própria natureza, é amor. Ele realizou Seu feito na Terra como um humilde servo de todos. A mulher, portanto, que também é chamada a amar, encontrará em nosso Salvador Aquele que é intimamente semelhante a ela em seu serviço modesto e humilde. Se a fé cristã é preciosa para a alma humana, ela é especialmente preciosa para a alma da mulher. Uma mulher não pode ser uma verdadeira mulher se não aceitar o Evangelho como uma verdadeira cristã, cujo lugar é ao lado do Salvador humilde e amoroso. Nisto reside a sua grandeza, a sua santidade e a sua salvação. Amém.


Arquimandrita Kirill (Pavlov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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