“Eis agora o tempo favorável; eis agora o dia da salvação.” 2 Coríntios 6:2
“Vinde, cantemos ao Senhor; aclamemos com júbilo a Rocha da nossa salvação! Apresentemo-nos diante d´Ele com ações de graças; aclamemo-Lo com cânticos de louvor! Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemo-nos diante do Senhor, nosso Criador!” Salmo 94:1,2,6
Por que vamos à igreja? Por que nos esforçamos para participar aos Serviços e ficar em pé por longos períodos? Certamente, existem maneiras mais agradáveis de passar uma manhã de domingo. O quê, em particular, em nosso culto, nos dá um motivo para “ir à igreja”?
Recebemos um legado incrível de belos Serviços que celebram a santificação do tempo. A cada ano, percorremos o ciclo do ano litúrgico para vivenciar a realidade dos eventos comemorados. A palavra grega para símbolo significa exatamente isso: “reunir”. Recordamos esses eventos no presente. Existe um termo técnico em grego para essa “lembrança”: anamnese. Essa palavra denota muito mais do que recordar um evento do passado; é uma lembrança que traz o evento para o presente. É uma participação no evento no presente. Muitos dos hinos de cada festa e serviço começam com a palavra “Hoje…”. Essa é a santificação do dia presente para que possamos participar da realidade daquilo que estamos comemorando. Isso se vê em nossa Divina Liturgia, onde agradecemos a Deus pela “cruz, o túmulo, a ressurreição ao terceiro dia, a ascensão aos céus e a Sua segunda e gloriosa vinda”. Estamos “recordando” eventos do passado e do futuro simultaneamente. Essa santificação só pode ocorrer em sua plenitude na vida da Igreja – a comunidade reunida com o sacerdote ao redor do altar sobre o qual o Evangelho, que é Cristo, está presente. O Padre Alexander Schmemann afirma: “Só podemos adorar no tempo, mas é a adoração que, em última análise, não apenas revela o significado do tempo, mas verdadeiramente ‘renova’ o próprio tempo. Não há adoração sem a participação do corpo, sem palavras e silêncio, luz e escuridão, movimento e quietude – contudo, é na e através da adoração que todas essas expressões essenciais do homem em sua relação com o mundo recebem seu ‘termo’ de referência final, reveladas em seu significado mais elevado e profundo”. Nossa adoração é nossa participação real no Reino vindouro. Iniciamos cada Divina Liturgia com as palavras: “Bendito é o Reino…”. É na e através de nossa Liturgia, nosso trabalho litúrgico, que entramos e experimentamos este mundo como encontro, um encontro com Cristo em meio ao “nosso tempo”.
O secularismo em nossa cultura se opõe a essa ideia de toda a criação como epifania. O secularismo é a negação da adoração. Os símbolos são reduzidos a um meio de comunicar ideias relevantes para convencer ou vender algo a alguém. Os símbolos tornam-se meras ilustrações em vez de algo que “torna presente” a realidade. Há uma forte preocupação com a adoração “relevante” e com as igrejas “relevantes”. Isso levou a uma implosão da adoração. A adoração tornou-se tão centrada no indivíduo e orientada para o consumo. Vai-se à igreja para “tirar algo de bom para si”. Toda a adoração deve estar fundamentada na Encarnação de nosso Senhor. Aquele que Se fez matéria por nossa causa, agora nos convida a participar d´Ele através da matéria. Toda a criação torna-se uma epifania, uma manifestação de Deus para nós. A adoração é epifania, é a nossa experiência tangível do amor e da misericórdia de Deus. Novamente, Schmemann afirma: “Sendo uma epifania de Deus, o culto é, portanto, a epifania do mundo; sendo comunhão com Deus, é a única comunhão verdadeira com o mundo; sendo conhecimento de Deus, é a realização máxima de todo o conhecimento humano”. É por isso que damos tanta ênfase ao nosso culto litúrgico e procuramos fazer tudo com um espírito de excelência. É assim que o nosso culto se torna “relevante”. Ele nos revela quem Deus é, e participamos d´Ele por meio da matéria. Agora o mundo se torna transparente, permitindo-nos vislumbrar a Glória de Deus, em vez de opaco, reduzido a ritos e cerimônias coloridas, na melhor das hipóteses, ou a entretenimento mundano, na pior.
É vital que tenhamos essa visão, para que possamos saber por que vamos à Igreja. Não é para entender Deus mais profundamente, ou para nos sentirmos melhor conosco mesmos. A Igreja não é uma experiência estética, nem um estímulo psicológico. Não vamos à Igreja para “obter” nada. Vamos para participar da alegria do Reino de Deus. Este Reino se torna presente em nossa adoração. “A Liturgia, podemos dizer, é algo que nos acontece”, afirma o Padre Schmemann. É a nossa entrada no Reino, a nossa participação na adoração eterna ao redor do trono de Deus nos céus. Que Deus nos ajude a enxergar nossa adoração como uma participação no reino futuro, rodeados por anjos e arcanjos que incessantemente O louvam e glorificam.
Sacerdote Christopher Foley
tradução de monja Rebeca (Pereira)







