A Tirania da Moda
Nas cinzas do pós-guerra, o conflito continua de forma subconsciente. A moda tornou-se o único objeto de desejo. Cegos pela escuridão da vaidade, tornamo-nos escravos de modas que vêm e vão, que vivem e morrem, retratando apenas uma coisa: o estado espiritual da juventude, e pintando um retrato do estado da alma. Esquecemos que as modas retratam o espírito do tempo, que por sua vez é moldado pelos espíritos sob o céu.
Em 1924, um artista soviético disse: “A arte atingirá o auge de seu florescimento apenas depois que a mão imperfeita do artista for substituída pela máquina precisa.” Ele teria razão se essa “máquina” não tivesse sido feita por esses mesmos “artistas imperfeitos”: a humanidade.
Nesta era pós-moderna, pensamos ter escapado da tirania da moda ao escolher a moda da anarquia, mas, na verdade, a moda nos agarrou pelo pescoço. A criatividade e a expressão da juventude proclamam isso com música alta e dolorosa e com a arte da angústia. A guerra sempre torna a realidade feia.
A juventude de hoje vê que a ideia desse artista se mostrou falsa. Sua “máquina precisa” provou ser exatamente o oposto. A arte chegou ao fim. A arte, que um dia foi um meio de retratar a beleza, agora alcançou os extremos da deformidade. A juventude de hoje apenas retrata a máquina que lhe deu origem. Em um mundo feio, isso é tudo o que nos foi ensinado, e, portanto, tudo o que sabemos.
Mas há um outro lado da música e das artes modernas, o lado onde a grama é verde com materialismo: “artistas” alimentando a máquina e tornando-se ricos e famosos no processo. Um dos fundadores da “arte moderna”, Pablo Picasso, resumiu isso certa vez em uma frase simples que desde então foi ignorada: “Enganei todos eles e ganhei muito dinheiro.”
É o dinheiro que move a máquina do Niilismo. Enquanto a expressão artística contemporânea abastece a máquina, nós compramos o combustível. Nesta era pós-moderna, a televisão musical (MTV) serve a essa máquina. Ela alimenta seus seguidores com sons e imagens dos três filhos incestuosos da loucura: sexo, drogas e violência… por dinheiro, dinheiro, dinheiro.
A seguir está o relato de um músico alternativo de punk rock. É a sua experiência “por trás do palco”.
Os atos de violência e insanidade realizados no palco, que antes eram usados para dar força a uma “declaração revolucionária”, agora se tornaram uma atração popular, em que as pessoas pagam grandes quantias de dinheiro ao artista disposto a se sacrificar mais — física, mentalmente e de outras formas. O impulso criado por esse espírito de precisar “superar” o último show para permanecer famoso nos holofotes tornou-se tão fora de controle que acaba possuindo o artista. Sob o entusiasmo e a excitação desses atos selvagens, pode-se sentir um odor hediondo de morte — o fedor de uma alma em decomposição. O álbum do Black Sabbath, We Sold Our Souls for Rock and Roll, foi realizado em todo o seu potencial. Meu primeiro encontro com esse fato lançou um medo imenso em minha alma. Lá estava eu, no meio de milhares de pessoas, assistindo a uma banda que eu sempre havia visto como inspiração e como referência para minha própria música. Em certo momento do show, um sapato voou da multidão para o palco. Capturando o momento, o cantor pegou o sapato, urinou dentro dele e depois bebeu. Esse ato repulsivo foi recebido pela multidão com admiração e aprovação, mas em meu coração soou de maneira diferente. Percebi que o grupo já não estava mais se divertindo, mas apenas cumprindo tabela, realizando um trabalho miserável para levar o pagamento para casa no fim do mês. Era possível sentir que eles já não tinham sequer escolha sobre como agir, mas estavam escravizados à própria imagem. Isso me comoveu, porque vi a mim mesmo seguindo o mesmo caminho e compreendi que aquilo que sempre venerara como meus sonhos era, na verdade, um inferno vivo. Olhei ao redor e vi que o público não era composto apenas de excluídos, punks e desajustados, mas de um recorte geral da juventude moderna, representando todos os grandes grupos sociais, e ninguém via, como eu via, o inferno por trás do espetáculo encenado, mas apenas um grupo de homens vivendo o ideal moderno de vida.
O resultado mais lamentável desse processo é que uma forma caótica e violenta de música se tornou popular e passou a ser disponibilizada ao público em grande escala. Essas modas não são apenas solicitadas pela juventude, mas exigidas pela demanda popular. Uma manifestação disso é a forma popular de dança chamada “slam dancing”, em que um “fosso” agitado de pessoas se joga umas contra as outras, como disse Nietzsche, “para trás, para os lados, para frente e em todas as direções. Ainda existe algum cima ou baixo?” Agindo violentamente, descarregando todas as agressões, eles completam a frase: “Não estamos vagando como através de um nada infinito?”
Esse tipo de dança, que antes era considerado uma característica distintiva que demonstrava a “insanidade” do punk, agora encontrou seu caminho até as festas escolares de colégios.
Por meio da MTV (televisão musical), esse movimento é perpetuado em escala ainda maior, onde imagens visuais grotescas são misturadas à música e oferecidas à juventude assim que ela é considerada velha o suficiente para “ligar a máquina”. Como uma criança deve interpretar tais representações visuais: uma floresta de árvores cobertas com fetos pendurados nos galhos; ou os próprios corpos dos músicos pendurados sem vida em ganchos de açougue? A música que foi o pano de fundo de nossa vida criou e nos acostumou ao inferno na terra. A beleza foi crucificada.
St. Herman of Alaska Brotherhood
Tradução do Diácono André Souza








