É possível insultar um crente (uma pessoa que tem fé e tenta viver segundo esta fé) e seus sentimentos, ou os crentes estão acima de tais insultos?
Um crente certamente pode se sentir magoado. Ele continua sendo uma pessoa viva, com seu próprio coração, sua própria dor, sua própria sensibilidade. Se alguém zomba de sua fé, menospreza sua sacralidade ou blasfema, isso pode causar uma dor profunda. Posso comparar isso a insultar os pais de alguém ou insultar seu amor. São situações comparáveis. Para um crente, Deus e a fé são coisas de uma ordem ainda mais elevada do que o afeto e os sentimentos ternos por pais, cônjuges ou filhos. E fingir que não me importo quando alguém insulta o seu amor não seria sinceridade, mas frieza.
Mas há outro lado. A fé de uma pessoa verdadeiramente madura não se constrói sobre um ego frágil. Não se baseia em nunca dizer uma palavra a mais. Cristo foi zombado, ridicularizado, humilhado, e ainda assim não Se defendeu. Os apóstolos suportaram o ridículo e a perseguição. Os santos foram para a morte sem exigir que seus sentimentos fossem respeitados. Isso não é fraqueza, mas força interior.
Aqui, é importante distinguir entre duas coisas: a ofensa a um objeto sagrado e a reação do meu ego. Às vezes, as palavras “alguém ofendeu meus sentimentos religiosos” escondem não a dor por Cristo, mas o orgulho ferido. As pessoas não suportam a falta de respeito por si mesmas, por sua posição, por sua razão, e chamam isso de defesa da sua fé. Mas Cristo não precisa da nossa defesa nervosa. Ele precisa do nosso amor e fidelidade.
É possível insultar um crente? Sim, seu coração pode ser ferido. Mas deve um crente viver em constante ressentimento ou buscar vingança? Não. Quanto mais profunda a fé, menos ela depende das palavras alheias. Um cristão maduro pode afirmar com firmeza que discorda da blasfêmia e defender um objeto sagrado, se necessário, mas, interiormente, permanece livre de ódio ou vingança.
A fé eleva a pessoa acima dos insultos não por indiferença, mas porque ela sabe que seu valor não é determinado pela opinião dos outros. Ela está firmada em Deus. E, portanto, mesmo em situações de ridículo ou humilhação, consegue manter a paz, não responder ao mal com o mal e não permitir que o pecado alheio destrua seu coração.
Os insultos só se tornam destrutivos quando permitimos que criem raízes em nós. A fé, porém, proporciona a incrível capacidade de discordar do mal, sem, contudo, permitir que ele penetre em nossa alma. Essa é a verdadeira essência da espiritualidade.
Metropolita Ambrósio (Ermakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







