Não podemos, aqui, enfatizar demais a absoluta necessidade de compreendermos como devemos ler as Escrituras — pois a leitura incorreta de São Paulo levou tanto aos erros da “direita” quanto aos da “esquerda” na avaliação das mulheres na Igreja Ortodoxa. O falecido Protopresbítero Georges Florovsky nos legou algumas reflexões perspicazes sobre a natureza das Escrituras na Igreja. De muitas maneiras, ele remete repetidamente à visão de Santo Irineu sobre as Escrituras. Santo Irineu, em sua conhecida dissertação contra uma seita herética, compara a pessoa que usa seu intelecto para compreender as Escrituras a um artista que, erroneamente, usa pedras para criar um mosaico representando um cachorro, quando, na verdade, os componentes do mosaico poderiam criar o retrato de um rei. Em suma, o retrato final depende da visão do artista ao iniciar seu projeto. Se ele sabe que deve retratar um rei, ele o faz. Se não sabe, pode encaixar as pedras cuidadosamente e criar uma imagem horrenda. Assim, quem tenta compreender as Escrituras sem antes ser iluminado pelo próprio conteúdo e espírito das Escrituras (visualizando-as como o ícone perfeito da graça teológica), provavelmente distorcerá terrivelmente o seu significado.
Em um sentido mais específico, São Paulo argumenta em favor da ordenação correta da Igreja em suas declarações a respeito das mulheres. E, como muitas vezes deixamos de reconhecer, ele faz distinções entre função e natureza. Qualquer pessoa instruída e experiente no sutil paradoxo da vida espiritual reconhece esse sentido em São Paulo. Não reconhecê-lo leva a exageros que resultam ou em uma visão não ortodoxa do potencial espiritual das mulheres ou em uma reação totalmente secular contra a espiritualidade, que condena a pessoa à ruína eterna.
Abordar a questão das mulheres no sacerdócio é reconhecer que, também nesse ponto, vozes extremistas distorceram a verdade. Voltemos à moderação dos ensinamentos dos Padres da Igreja. Nenhum homem, diz-nos São João Crisóstomo, é digno do sacerdócio (e aqui nos referimos a “homens” como machos e fêmeas). No entanto, para o funcionamento da Igreja, temos um sacerdócio. Portanto, não se trata de um “direito” que se possui, mas de um fardo que se assume com o maior temor e tremor — o arquisacerdócio personificando esse profundo temor da alma humana. Em algum ponto entre a moderação de se reconhecer indigno do sacerdócio e o tremor diante da sua realidade, reside o sacerdote. Se ele se afasta dessa delicada compreensão, coloca sua alma em perigo. Basta, então, de qualquer pessoa, seja homem ou mulher, reivindicar “direitos” ao sacerdócio. Isso é loucura espiritual e uma total incompreensão da manifestação visível da Igreja de Cristo. É insensatez que convida à morte interior.
Consequentemente, na Igreja primitiva, o sacerdócio deveria ter sido restringido de todas as formas possíveis. É fato que recebemos algumas tradições dos judeus e que o sacerdócio judaico era masculino. A Igreja é real, existe na realidade, expressa a vida de pessoas reais. Não deveria ser estranho, portanto, que vejamos o sacerdócio restrito a homens. E, no entanto, a Igreja manifestou-nos a sua natureza supra-histórica. As mulheres também, dentro dos limites da grande consideração que a Igreja demonstrava pelo sacerdócio, participavam da graça sacerdotal. Será que nos esquecemos, porventura, de que o diaconato já foi exercido por mulheres, de que a ordem social, a lei da Igreja e a natureza humana, por vezes, cedem ao espiritual? Esquecemos. Formalizamos tanto o sacerdócio, “ocidentalizamos” tanto a nossa compreensão dele, que de alguma forma reduzimos a graça e a magnificência do diaconato a uma posição secundária. Passamos a pensar no diácono e na diaconisa como “meio-sacerdotes”, como se a ordenação pudesse ser medida e quantificada em termos da “quantidade” de graça concedida. Quem se atreve a atribuir maior graça a São João Crisóstomo (um patriarca) do que a Santo Estêvão, o Primeiro Diácono e Mártir? Onde se encontra um padre sóbrio a falar nesses termos? Ai de nós, ortodoxos, se nos esquecermos de que, mesmo no sacerdócio, de forma subtil, o papel espiritual do homem e da mulher, unidos em Cristo, triunfa.
Nós, como ortodoxos, negamos, enfim, o ministério às mulheres? Não! Nem o garantimos aos homens. Nem o definimos minuciosamente, como se estivesse sob o microscópio de um cientista. Nem violamos sua beleza reduzindo-o a uma mera posição ou função. É muito mais do que isso. E o que ele é, nenhum homem pode reivindicar com mérito e nenhuma mulher pode reivindicar por direito. É sustentado pela misericórdia de Deus e não consome o portador indigno, somente porque ele está “cingido com a graça do sacerdócio”. Essa economia, essa misericórdia, estende-se a homens e mulheres, no sentido mais técnico, e falar do caráter masculino ou feminino do sacerdócio é não compreender essa extensão e distorcer e alterar a natureza do sacerdócio. Qualquer verdadeiro servo, seja ele arcipreste, presbítero, diácono ou diaconisa, está onde está precisamente porque não é homem nem mulher e precisamente porque Deus lhe concedeu a graça de deixar de lado sua própria natureza pecaminosa neste único caso. Compreendendo isso, a questão do sacerdócio transcende os papéis sociais. É errado falar disso nesse contexto. O sacerdócio, o ministério ao povo e o serviço na Igreja não pertencem ao domínio da distinção sexual, das declarações de naturezas diferentes ou da tagarelice humana. Seu foco é eterno, espiritual e numênico. São os guardiões de uma dimensão onde os extremos não existem, onde toda a verdade é testemunhada de maneira régia, na verdade mística abrangida apenas pela moderação.
A moderação no pensamento e nas atitudes se manifesta também na carne e no sangue, de modo que podemos ver em homens e mulheres ortodoxos sóbrios exatamente o que há de errado com nosso pensamento intemperado atual sobre homens e mulheres em “papéis” ditados por suas “naturezas”. Onde, de fato, estão tais pensamentos na doçura comovente do encontro do Ancião Zósima com nossa maravilhosa Mãe, Santa Maria do Egito? Pode-se imaginar o santo ancião dizendo a si mesmo: “Sendo sacerdote, abençoarei esta santa, pois sou, por natureza, digno daquilo que ela, por natureza, não é”? Deus nos livre! Em vez disso, o santo ancião prostrou-se diante de nossa amada Mãe e pediu que ela o abençoasse. E será que a mulher maravilhosa entre os santos de Deus disse para si mesma: “Abençoarei este homem, pois ele, de fato, deve saber que tenho direito ao sacerdócio”? Certamente que não. Quem de nós consegue conter as lágrimas ao pensar no que realmente aconteceu? Prostrando-se diante do santo ancião, Santa Maria implorou seu perdão, e os dois permaneceram por algum tempo assim prostrados um diante do outro, dizendo cada um: “Abençoe”. Como todos sabemos, a Virgem Maria, reconhecendo o sacerdócio do Padre Zósima, desejou-lhe a bênção. E que lição podemos aprender com o resultado! Ela exclamou: “Bendito seja o nosso Deus, que vela pela salvação das almas e das pessoas”. E o santo ancião respondeu: “Amém”.
Vergonha, portanto, para cada um de nós que proclama o homem ou a mulher como superiores, ou finge conhecer o papel e a natureza próprios de cada um. Isso é arrogância, imoderação, pompa intelectual e usurpação de juízos que somente Deus pode conceder. Na verdadeira espiritualidade, as distinções, tanto formais quanto informais, desaparecem. Isso não significa que devamos, de forma alguma, negligenciar nossas responsabilidades sociais em nome da liberdade humana e da ilusória liberdade mundana. Certamente, não devemos, em hipótese alguma, nos identificar com movimentos que ameaçam a ordem social e espiritual. Mas também não devemos presumir que existam cargos e posições definidos na vida que, a partir de uma compreensão inadequada do mundo espiritual, determinem absolutamente o papel de qualquer pessoa, seja senhor ou servo, livre ou escravo, homem ou mulher. Vivemos entre os dois antípodas de nossa existência futura: a separação de Deus, fruto de nossa jornada mortal, e a união com Deus, fruto da jornada espiritual — entre o Inferno e o Céu. Devemos nos enxergar corretamente nesse estado intermediário, que reflete nossas noções de homens e mulheres. Se formos extremos demais no sentido mortal, diminuímos a imagem de Deus no homem. Se formos extremos demais no sentido espiritual, sofremos a ilusão de aspirar ao que somos sem a devida transformação de nossa condição decaída.
Orthodox Life, Vol. 31, No. 1 (Jan-Feb, 1981), pp. 34-41
tradução de monja Rebeca (Pereira)







