Extratos de Catequeses Monásticas de São Teodoro Studita
Irmãos e pais, os sofrimentos de nosso Senhor Jesus Cristo têm o poder de gerar sobriedade em nossas almas sempre que refletimos sobre eles, mas especialmente nestes dias, quando se desenrolam gradualmente, um após o outro: a reunião para matá-Lo, a prisão pelos judeus, o julgamento perante Pilatos, a condenação, os açoites, os cuspes, as zombarias, a crucificação, a perfuração de Suas mãos e pés, o banho de vinagre, a perfuração de Seu lado e muito mais que nem as línguas humanas nem todas as línguas angélicas podem descrever adequadamente.
Ó grande e maravilhoso mistério! O sol viu o que estava acontecendo e se extinguiu, a lua viu e escureceu, a terra sentiu e tremeu, as rochas sentiram e se espalharam. Então, se os elementos sem alma e insensíveis se curvaram e mudaram diante do temor do Senhor e da visão do que está acontecendo, então nós, aqueles honrados com o pensamento por quem Cristo morreu, permaneceremos distraídos e indiferentes nestes dias? Como podemos nós, mais insensíveis que os animais e mais desprovidos de compaixão que as pedras, permanecer indiferentes ao que acontece? Não, meus irmãos, não! Mas adquiramos uma sobriedade piedosa, derramemos lágrimas, sejamos transformados pela boa mudança e mortifiquemos as nossas paixões.
Não é evidente o quanto o amor divino nos impulsiona a fazer isso? Alguém já foi preso por seus amigos ou se sacrificou por seus entes queridos? No entanto, nosso bom Deus suportou não um ou dois, mas miríades de sofrimentos por nós, condenados. E como os Santos não tinham nada com que retribuir esse amor, ofereceram-Lhe seus corpos e sangue, tornando-se ascetas e mártires e cantando o Cântico de David: “Que darei eu ao Senhor por todos os seus benefícios?” (Salmo 116:3)
Nós, irmãos, repetimos esse cântico incessantemente, servindo ao Senhor com um insaciável senso de amor. E nos esforçamos incansavelmente para alcançar o mais alto, para nos tornarmos imitadores de Cristo e dos Santos.
***
Chegou a Santa Ressurreição. Sejamos diligentes em celebrar esta festa com alegria e devoção, pois é a Páscoa — o primeiro e maior dom da providência de Deus. Com reverência, disciplinemos nossos corpos para que, embora nossa alimentação possa mudar, nosso estado espiritual permaneça inalterado.
A alma se alegra com a chegada da Páscoa, pois ela lhe traz paz e alívio de seus muitos trabalhos.
Por que, então, aguardamos com tanta ansiedade a Páscoa, que vem e vai? Não a celebramos muitas vezes antes? Esta também virá e irá — nesta era presente, nada é permanente, mas nossos dias passam como uma sombra, e a vida corre como um corredor a galope. E assim segue até chegarmos ao fim desta vida presente.
“Então”, alguém perguntará, “não devemos nos alegrar na Páscoa?” “Não, pelo contrário, alegremo-nos muito mais, mas na Páscoa que se celebra todos os dias.” Que tipo de Páscoa é essa? “A purificação dos pecados, a contrição do coração, as lágrimas da vigília, a consciência limpa, a mortificação dos membros terrenos: imoralidade sexual, impureza, paixões, desejos impuros e todo o mal. Aquele que é digno de alcançar tudo isso celebra a Páscoa não uma vez por ano, mas todos os dias. Mas aquele que não possui nada disso, sendo escravo das paixões, é incapaz de participar da festa. Como pode alguém que tem o ventre voltado para Deus, ou alguém inflamado por desejos carnais, ou alguém obcecado pelo amor ao dinheiro, escravo da vaidade e cativo de outras paixões, celebrar? Contudo, irmãos, creio que vocês não são essas pessoas.” Nossa vida nada mais é do que uma preparação para a festa: salmodia após salmodia, conhecimento após conhecimento, ensinamento após ensinamento, oração após oração — como um círculo que nos conduz e nos une a Deus.
Oh, quão bela é a vida monástica! Quão abençoada e três vezes abençoada! Portanto, irmãos, apressemo-nos a encontrar a Páscoa e a celebrá-la cada vez da melhor maneira possível, mortificando as paixões e renovando as virtudes, imitando o Senhor, que sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, para que sigamos os seus passos (1 Pedro 2:21).
Com a ressurreição, a criação também, libertando-se da sua melancolia invernal, como uma espécie de morte, floresce e revive. E assim vemos a terra verdejante, o mar calmo, os animais saltando e tudo mudando para melhor.
Mencionei isso por um motivo. Desejo enfatizar que, se até mesmo os sem alma e sem mente celebram e adornam a radiante ressurreição a tal ponto, quanto mais nós, que somos considerados dignos de razão e de sermos a imagem de Deus, devemos nos adornar e nos tornar perfumados! O verdadeiro perfume de Cristo é aquele que se adorna continuamente com virtudes, como nos assegura o apóstolo, dizendo: “Porque para Deus somos o aroma de Cristo” (2 Coríntios 2:15).
Acrescentemos também que Adão, antes da sua queda, era um aroma perfumado para Deus, adornado com imortalidade e incorruptibilidade e habitando em contemplação celestial. Portanto, como um limoeiro perfumado e multicolorido, ele foi plantado no paraíso.
Irmãos, sejamos também perfumados com a fragrância espiritual com a qual cada um de nós, como o mais habilidoso perfumista, pode se perfumar, reunindo virtudes. Essa fragrância é abençoada; essa fragrância agrada a Deus; essa fragrância atrai anjos e repele demônios.
***
Quando a Páscoa passa e a festa termina, não pensemos que a alegria e a celebração acabaram, pois temos a oportunidade de nos alegrar e celebrar continuamente. Como isso é possível? É possível se mantivermos sempre viva a memória da Paixão de nosso Salvador Cristo, isto é, que o Senhor da Glória foi crucificado por nós, desceu ao túmulo e ressuscitou ao terceiro dia, nos ressuscitando e nos dando a vida juntamente conosco, para que possamos dizer com o Apóstolo: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e Se entregou por mim” (Gl 2,20).
Este é o significado do sacramento para nós: morrer para o mundo e viver somente para Deus. Portanto, mesmo depois da Páscoa, é necessário permanecer vigilante, rezar e ser sóbrio, chorar e ser iluminado, morrer voluntariamente a cada dia, desapegando-se continuamente do corpo e consagrando-se ao Senhor, mortificando os desejos carnais. Não diga: A Quaresma já acabou. – Para o asceta, a Quaresma é eterna. Não diga: Venho praticando o ascetismo há muitos anos e agora vou descansar um pouco. – Não há descanso nesta vida. Não diga: Já envelheci em virtude e não temo nada. – Há sempre o perigo de cair. Satanás já levou muitos que envelheceram em virtude ao pecado num instante.
Aquele que pensa estar de pé, cuide para que não caia (1 Coríntios 10:12).
Portanto, cautela e moderação são necessárias no sono, na comida, na bebida e em tudo o mais, para que o corpo não se torne escravo e nos lance — como um potro selvagem que mordeu as rédeas — no abismo do pecado.
Se alguma vez cairmos por desatenção, voltemos imediatamente o nosso olhar para Jesus crucificado, o Senhor da glória, e a nossa alma será curada. Assim como os israelitas, quando mordidos por serpentes venenosas, olharam para a serpente de bronze e foram curados. Você sabe que os maus pensamentos picam como serpentes, introduzindo veneno na alma que deve ser removido imediatamente, pois, se permanecer, enfrentaremos a morte.
Além disso, você mesmo vê como a primavera dá à luz o sangue e os desejos no homem.
A carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne (Gálatas 5:17).
E se um vence, o outro sofre a derrota. Portanto, tenhamos cuidado para que nossas almas não se tornem escravas da carne, mas triunfem sobre ela. Um corredor não é considerado vitorioso se percorrer uma ou duas etapas, mas sim toda a jornada. E não basta lutarmos apenas durante a Quaresma ou Pentecostes, pois, a menos que vivamos toda a nossa vida na luta, evitando as armadilhas do diabo, não receberemos a coroa da vitória.
Portanto, meus irmãos, continuemos o bom combate, suemos ainda mais, adquirindo virtudes, temperemos ainda mais a carne, subjuguemos o corpo, ponhamos em fuga as paixões,levando sempre no corpo o morrer do Senhor Jesus (2 Coríntios 4:10).
E que a memória da Páscoa não cesse só porque a festa passou, mas que sempre tenhamos diante de nós a paixão salvadora de nosso Senhor — Sua crucificação, sepultamento e ressurreição — para que, por Sua memória incessante, permaneçamos livres das paixões.
Toda a nossa vida olha com esperança para a Páscoa eterna, porque a Páscoa presente, embora grandiosa e importante, é, como dizem os Santos Padres, apenas um tipo daquela Páscoa. Esta Páscoa é celebrada num só dia e passa, enquanto aquela Páscoa é eterna.
Não haverá mais luto, nem choro, nem dor, pois o passado já passou (Ap 21:4).
Há alegria, júbilo e júbilo eternos; há o som dos que celebram, o rosto dos que celebram e a contemplação da luz eterna. Há o banquete bendito de Cristo com abundância de bênçãos eternas.
Lembrando-se de tudo isso, os Santos suportaram corajosamente todo sofrimento, transformando a privação em felicidade, a dificuldade em consolo, o tormento em prazer, a luta em prazer, a morte em vida.
E nós, buscando essa Páscoa eterna, eu vos suplico, irmãos, suportemos o presente com serenidade e coragem. E nosso Benfeitor e Mestre Deus, se o servirmos fielmente até o fim, nos concederá o gozo dessa Páscoa eterna e celestial, que todos podem desfrutar pela graça e amor pela humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo, crucificado, sepultado e ressuscitado, a quem pertence o poder e a glória, com o Pai e o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. AMÉM!
Venerável Teodoro o Studita
tradução de monja Rebeca (Pereira)







