A GRANDEZA DO CAMINHO INVERTIDO DO SENHOR (At. 20:16-18, 28-36) – PARTE 2

Pergunta: Podemos dizer que o Pentecostes de cada um se encontra no topo da pirâmide invertida? Como o alcançamos em nossa vida diária?

Arquimandrita Zacarias: São Sofrônio expressou isso em uma frase: “Aqueles que são guiados pelo Espírito Santo nunca cessam de descer, culpando-se”; isto é, nunca cessam de se colocar no caminho humilde que Cristo trilhou com Sua descida e Sua ascensão. Portanto, o homem encontrará Deus e o Espírito de Pentecostes, e será guiado por Ele, somente quando conhecer o caminho de Cristo, quando o trilhar e adquirir o Espírito desse caminho. Então o Senhor, que é o próprio Caminho (João 14:6), torna-Se o Companheiro de jornada do homem e lhe concede o Seu próprio estado e graça.

Quando o homem alcança o ápice da pirâmide invertida, seu coração se expande por meio de sua jornada com Cristo, e ele recebe o Seu desejo pela salvação do mundo – um desejo que O trouxe à Terra, O elevou ao Gólgota e O trouxe até as profundezas da Terra. Portanto, aqueles que conhecem este caminho recebem a expansão do estado de Cristo, e então começa em suas vidas outro ministério temível, o ministério dos santos, a intercessão pela salvação de todo o mundo.

Pergunta: É possível viver o Pentecostes sem antes passar por um terremoto espiritual?

Arquimandrita Zacarias: Não é possível. Tanto o Novo quanto o Antigo Testamento dizem que “é necessário que passemos por muitas tribulações para entrar no repouso do céu” (Sl 34:19; At 14:22). As tribulações libertam o coração de todo apego à vaidade deste mundo. Então o homem é capaz, com o coração livre, de se voltar inteiramente para Deus, de Quem espera todas as coisas. Sem um terremoto espiritual, o homem não pode se tornar uma imagem do Pentecostes.

Os monges vivenciam esse terremoto espiritual em sua regra de oração e em sua obediência, mas ele é seguido pela consolação incorruptível do Espírito eterno. Há dois tipos de arrependimento. O primeiro ocorre quando nos conscientizamos de nossa pobreza espiritual e afastamento do Santo dos Santos, e suplicamos a Deus com luto e muitas lágrimas, para que Ele nos purifique da pestilência do pecado. Só então o homem pode se tornar um vaso para os dons do Espírito Santo, que testemunham sua salvação. O homem não pode pertencer ao Corpo de Cristo se não possuir um dom espiritual.

O segundo tipo é completamente diferente. Ele se expressa pelo espírito do período entre a Páscoa e o Pentecostes. Agradecemos a Deus continuamente pela graça da Ressurreição que recebemos na noite da Páscoa, pelo grande sacrifício que Ele ofereceu no Gólgota por nós e por todas as Suas bênçãos, com as quais Ele incessantemente cuida de nossa vida. E quanto mais agradecemos a Deus, mais aumenta nosso desejo de agradecê-Lo ainda mais perfeitamente, porque esta é a única coisa que tem valor em nossa vida.

Chega um momento em que queremos oferecer a Deus uma ação de graças perfeita, mas percebemos que não somos capazes. Nesse momento, começa o arrependimento, nascido da gratidão e do amor por nosso Deus Benfeitor, que também abala o homem até seus alicerces, talvez até mais do que o terremoto do arrependimento ao qual ele se submete para vencer sua pobreza espiritual. Ambos os tipos de arrependimento satisfazem a mesma necessidade: a de oferecer a Deus tudo o que ele tem de mais perfeito e mais precioso em sua vida, para que, em troca, possa receber de Deus tudo o que é d´Ele, a graça da adoção. “Tudo o que tenho é Teu” (Lucas 15:31).

Pergunta: Para o monge, esse terremoto pode ser causado por uma obediência excessiva, ou diz respeito a todos os aspectos da obediência?

Arquimandrita Zacarias: Diz respeito a todos os aspectos. Como o Ancião explicou a uma jovem, devemos transformar em oração toda dor, todo o nosso amor doloroso e nossa contrição trazida pelas lágrimas. Então virá o fim desejado: a consolação divina, um conhecimento preliminar e um vislumbre da perfeita liberdade que o Espírito de Deus concede ao coração do homem. Assim, se o monge receber a sua obediência com espírito humilde e com o objetivo de cumpri-la em nome do mandamento que recebeu, será grandemente beneficiado. Não importa como tudo começa; que venha a dor e que a transformemos em oração.

Pergunta: O que é o “espírito reto” (Sl 51,10) que pedimos ao Senhor que renove em nós?

Arquimandrita Zacarias: É o Espírito Santo. Ele é “reto”, reto, pois não Se inclina nem para a esquerda nem para a direita. Está irrevogavelmente voltado para o cumprimento dos mandamentos de Deus.

Pergunta: Quais são os pré-requisitos para que a palavra de Deus produza frutos abundantes no coração?

Arquimandrita Zacarias: Primeiro, o temor de Deus: a palavra de Deus ama o coração do homem que O teme e não deseja entristecer o Seu Espírito. Segundo, há o espírito de contrição que surge quando o homem se aproxima de Deus com auto-reprovação. Ele continuamente assume a culpa e dá glória a Deus por Sua perfeita e salvadora justiça. Desta forma, ele se torna apto para a habitação da palavra em seu interior. Os santos Padres dizem que quando o homem vive com profundo arrependimento e muitas lágrimas, ele abre a boca e atrai o Espírito de Deus (Sl 119,131). Então o coração é purificado e se torna cada vez mais apto para o conhecimento da palavra de Deus, para a sua habitação no coração, mas também para a sua transmissão aos irmãos.

Aquele que tem o Espírito Santo não profere nenhuma “comunicação corrupta”, mas oferece uma “boa palavra”, que ilumina os corações dos ouvintes com graça para a sua salvação e edificação (Ef 4,29). Veja bem, nós, cristãos, não podemos viver sem teologia, isto é, sem oração. O cristão é um ser teológico. Mesmo quando dizemos: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”, estamos teologizando, pois confessamos a divindade de Cristo e depositamos nossa confiança no dom da Sua salvação. Muitas verdades estão ocultas nesta breve oração. Por isso, os Santos Padres repetiam frequentemente: “Se você é um teólogo, você ora verdadeiramente; e se você ora verdadeiramente, você é um teólogo”.

Pergunta: Por que a Igreja designou este Evangelho para ser lido hoje, que nos lembra do amor supremo de Cristo pela humanidade?

Arquimandrita Zacarias: Após a Sua Ressurreição, o Senhor prometeu que não nos deixaria órfãos (Mt 28,20). E, no entanto, dez dias antes do Pentecostes, a Ascensão intensificou o anseio e a expectativa dos discípulos pela Promessa do Espírito Santo. A leitura dos Evangelhos e do Livro dos Atos dos Apóstolos, os hinos e cada oração da Igreja contribuem para fortalecer esse anseio.

Cristo disse aos Seus discípulos que permanecessem em Jerusalém em oração e que não se separassem uns dos outros até que fossem revestidos de poder do alto (Lc 24,49). Ele desejava fortalecê-los com esse dom, para que fossem perfeitos, movidos pelo Espírito, para que o Seu Espírito os guiasse “a toda a verdade” (Jo 16,13), isto é, à perfeição do amor por Cristo. O Evangelho de hoje fala de tal forma que os discípulos podem chegar ao Pentecostes com desejo e sede, e estar aptos a receber a suave brisa do Espírito Santo, que curará a sua natureza ferida pelo pecado e a capacitará a conter em si a plenitude do amor de Cristo.

Pergunta: O que significa que, ao conhecermos o nosso propósito maior, vencemos as tentações?

Arquimandrita Zacarias: Quanto mais elevada for a nossa visão da perfeição de Deus e do Seu amor, e quanto mais conhecermos o destino perfeito que Ele nos reservou – tornarmo-nos filhos do Pai sem princípio e reinar eternamente com Ele no Seu Reino – maior se torna o nosso desejo. Por esta razão, todas as coisas deste mundo parecem insignificantes ou insípidas, sem substância. Em “Nós O veremos como Ele é”, Santo Sofrônio escreve que, se mantivermos diante de nós o grande destino da nossa adoção divina, então todos os pensamentos do inimigo se dissolvem imediatamente, e somos libertados da constante conversa com eles e do seu ataque implacável. Pois somos atraídos por algo infinitamente superior, do qual já experimentamos. “Tendo vivido a Ressurreição”, diz o Troparion; mas também podemos dizer: “Tendo vivido a vinda do Espírito Santo”.

Pergunta: Será que Pentecostes é por vezes negligenciado em comparação com o Natal ou a Páscoa?

Arquimandrita Zacarias: Pelo contrário. A Igreja ordenou que não se jejuasse durante doze dias após o Natal, demonstrando que Aquele que nasceu é o Deus preeterno. Após a Páscoa, não jejuamos durante uma semana. A Igreja estabelece o mesmo para Pentecostes: não há jejum durante uma semana após esta festa, o que demonstra que tanto Cristo como o Espírito Santo são Pessoas Divinas de igual honra. Cristo vem no Natal e torna-Se homem entre nós. Em Pentecostes, o Espírito Santo vem para fortalecer a nossa natureza, para que possamos realizar obras piedosas e conter a plenitude do amor de Cristo. A Igreja Ortodoxa é totalmente pentecostal, porque todos os seus santos enfatizam continuamente que o propósito da nossa vida é a aquisição do Espírito Santo.

Pergunta: Por que a Igreja instituiu as Vésperas de Genuflexão no dia de Pentecostes?

Arquimandrita Zacarias: A autocondenação e o arrependimento geram ousadia e ajudam o homem a encontrar contato com o Espírito de Deus. Cada vez que ele recebe a suave brisa do Espírito Santo, especialmente naquele dia em que a graça é tão densa, ele se ajoelha diante do Senhor que lhe concede tão grande bênção. As orações que lemos nas Vésperas do dia de Pentecostes carregam uma expansão divina. Por meio dessas orações, o espírito do cristão abrange toda a criação, tanto os vivos quanto os que adormeceram. O contato com o Espírito de Deus lhe confere um estado em que nasce nele o desejo e a oração pela salvação do mundo inteiro.

Vemos isso também no ato de ajoelhar. Ajoelhamo-nos, como dizem essas orações, diante de Deus, nosso Benfeitor, e Lhe damos graças por todos os homens. Este é um ato de reverência e gratidão para com Deus. Por essa razão, os fiéis gostam de se ajoelhar, porque querem mostrar a Deus que O adoram não apenas com a mente e o espírito, mas também com o corpo. Assim, o corpo também aprende a orar. O Ancião disse-me certa vez: “Faça prostrações, para que o corpo também participe da oração. Não quero que se esgote de prostrações, mas faça-as o suficiente para que o corpo também se acostume a orar em conjunto com o espírito.”

As grandes orações das Vésperas de Genuflexão contêm uma profunda sede de Deus e mostram a postura mais perfeita do homem diante Dele: “Contra Ti pecamos, ó Cristo nosso Deus, mas só a Ti adoramos.” Este é o verdadeiro significado da vida cristã; este é o espírito dos fiéis ortodoxos: confessam seus pecados contra Deus, mas não cessam de adorá-Lo de todo o coração, até que sua adoração consuma todos os seus pecados.


Arquimandrita Zacarias (Zacharou)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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