O jejum é uma ação teológica, e o pecado tem uma hipóstase teológica. Não evitamos o pecado porque ele perturbará nosso sistema nervoso ou porque é melhor para nossa saúde fazê-lo. Um Deus que precisa de coisas assim não é o Deus dos Evangelhos, mas sim Zeus ou Cronos e todos aqueles que, quando se enfureceram, lançaram raios e praticaram o mal no mundo. O verdadeiro Deus tem outra dimensão e seriedade. Então, este jovem [ver parte 2] leu livros nos quais um certo psiquiatra lhe disse que, se cometesse esse pecado da carne, sofreria uma série de doenças. Ele foi ver um Ancião no Monte Athos e lhe disse que simplesmente não conseguia evitar pecar dessa maneira. Em sua simplicidade, o Ancião lhe disse para não pecar porque o corpo é um templo do Espírito Santo e seus membros são membros de Cristo. Ele acrescentou que este corpo seria ressuscitado e ascenderia ao lugar onde Cristo está e se sentará à direita do Pai. O corpo é sagrado e deve ser tratado com reverência e honra, assim como honramos os corpos dos santos. Devemos refletir que nosso corpo foi batizado e ungido com o Santo Crisma, participa do Corpo e do Sangue do Senhor e toda a pessoa é santificada. Portanto, como o próprio Cristo habita no corpo, não podemos entregá-lo à impureza. O jovem compreendeu e percebeu qual é o propósito do corpo humano, dentro da graça da glorificação. E o problema que ele tinha há tantos anos foi resolvido. É por isso que eu disse que isso tem consequências práticas.
Entendemos que os pecados da carne nos corroem por dentro e que são mortais e graves porque corrompem a pessoa por completo. Isso também se aplica à nossa aparência e à maneira como nos vestimos. Houve um tempo em que chegamos ao ponto de existirem modas cristãs. Houve discussões e todo um conjunto de ensinamentos sobre como uma mulher cristã deveria se vestir. E qual foi o resultado? Acabamos com um tipo formal, de modo que, se você visse uma mulher à distância, poderia dizer com segurança: “Ela dá aulas na escola dominical”. Mas se ela não usasse o cabelo de uma determinada maneira, estava fora da Igreja, destinada ao inferno. Claro, isso era risível, porque não se pode reduzir nossa salvação a esse nível. Isso não significa, porém, que devamos ignorar a preocupação com nossa aparência, mas sim que devemos dar-lhe outra expressão. Reconhecemos que nossa existência como alma e corpo precisa de edificação espiritual e que devemos ser o mesmo por dentro e por fora, porque um afeta o outro. Devemos manter o equilíbrio e evitar a provocação e o pecado. Em vez disso, que nossa aparência externa influencie nosso refinamento interior. Se uma funciona independentemente da outra, então teremos resultados prejudiciais à saúde. Devemos considerar isso em seu contexto teológico, que é o de que tudo já foi feito por nós, que herdamos a glória eterna de Deus e que nosso corpo e alma permanecerão na bem-aventurança eterna do reino de Deus. Se, então, tivermos essa experiência e consciência dentro de nós, refletiremos seriamente sobre como vestimos nosso corpo, como nos comportamos com ele e como o respeitamos. É por isso que a Igreja não pode compactuar com desfiles de carnaval ou qualquer outro sistema moderno que altere e distorça as pessoas não apenas em relação à sua alma, mas também ao seu corpo.
No Livro dos Padres, há uma história sobre uma jovem de moral duvidosa que antes ajudava os monges. Quando ela caiu nas armadilhas da prostituição, um grande Ancião foi vê-la para libertá-la do pecado. Quando ele chegou, sua serva não o deixou entrar, mas ele insistiu. A moça imaginou que ele tinha algo valioso para lhe dar, talvez uma pérola que tivesse encontrado na estrada. Ele foi autorizado a entrar e ela arrumou a aparência, como faria para qualquer outra pessoa, e esperou por ele. Abba João entrou e começou a chorar. Disse-lhe: “O que tens contra Cristo para acabares neste estado?”. Imediatamente, o véu do pecado se rasgou em dois e ela lhe perguntou se havia arrependimento para ela. Ele respondeu que sim. Naquele instante, ela abandonou a vida que levava e voltou com ele. No caminho, porém, ela morreu e foi salva.
Se hoje tivéssemos o coração e a alma dos santos e víssemos toda a promoção da carne do corpo humano em anúncios e filmes, ficaríamos muito tristes ao ver o corpo, chamado à glória por Cristo, exposto de maneira tão humilhante e pecaminosa. Certa vez, um jovem contou a um Ancião que fora a uma boate e vira mulheres nuas dançando. O Ancião perguntou-lhe como ele conseguia suportar, sem chorar, a visão daquelas mulheres, visto que Cristo morreu por elas e elas foram chamadas a se tornarem deuses. Essas pessoas têm o potencial de ascender até Deus, então como pode haver alegria ou satisfação em ver o quão baixo elas caíram?
Se somos pessoas que sabem, mesmo que minimamente, o que significa o corpo humano e como Deus nos glorificou e continuará a nos glorificar, então choraremos e lamentaremos o estado em que as pessoas se encontram. Todos nós deveríamos viver conscientes de que Cristo nos chamou para a glória eterna, que nos assentaremos à direita de Deus Pai, assim como Ele ascendeu e está assentado à direita de Seu Pai.
Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)







