O que é o livre-arbítrio humano? É a capacidade de escolher entre o bem e o mal? Ou a liberdade humana se limita a uma escolha entre coisas, por exemplo, escolher entre uma xícara de café e uma xícara de chá? Os seres humanos têm, de fato, alguma liberdade? Quando fazemos essas perguntas, não temos nada político em mente. Não perguntamos aqui sobre direitos humanos ou civis — que podem ser concedidos ou retirados pelo Estado — mas sim sobre a questão maior a respeito das faculdades da natureza humana.
Introdução
O que é o livre-arbítrio humano? É a capacidade de escolher entre o bem e o mal? Ou a liberdade humana se limita a uma escolha entre coisas, por exemplo, escolher entre uma xícara de café e uma xícara de chá? Os seres humanos têm, de fato, alguma liberdade? Quando fazemos essas perguntas, não temos nada político em mente. Não perguntamos aqui sobre direitos humanos ou civis — que podem ser concedidos ou retirados pelo Estado — mas sim sobre a questão maior a respeito das faculdades da natureza humana.
1.
Os filósofos geralmente discordam sobre a definição de livre-arbítrio e sobre a capacidade humana de usá-lo. Alguns disseram que o homem é uma máquina, que deve seguir as leis de sua natureza; portanto, ele não é livre para escolher nem entre o bem e o mal (seja lá o que forem), nem mesmo entre coisas. Mesmo que pudesse superar as leis da natureza, ele estaria, como disseram alguns gregos antigos, sujeito ao “destino” (moira, eir mene) cujas decisões devem ser cumpridas. Assim, a escolha é uma ilusão.
Agostinho, o Bispo de Hipona do século V, parece ter adaptado a ideia grega de destino. Ao discutir a “predestinação”, isto é, antes da criação do mundo, Deus decidiu quem viveria com Ele para sempre, e quem habitaria no fogo penal por toda a eternidade. Agostinho chamou aqueles que Deus predestinou ao céu de eleitos, e ao inferno, de réprobos. Assim, apenas os eleitos têm o capacidade de escolher entre o bem e o mal, pois somente a eles foi dada a graça para fazer tais escolhas. Esta é uma teoria revolucionária.
É contrária aos ensinamentos da Igreja, que ensina, nas palavras de São João Damasceno, que Deus “conhece todas as coisas de antemão, mas não as predetermina. Embora Ele saiba o que está em nosso poder, Ele não o predetermina” (De Fid. Orth., II, 30). O homem é livre porque foi criado “à imagem de Deus”.
Os materialistas postularam que o homem é uma máquina sem alma e sujeito às leis da natureza. A liberdade é uma ilusão. Comemos o que comemos, pensamos o que pensamos, vivemos como vivemos, de acordo com as leis férreas do universo.
Outros filósofos rejeitam a ideia dos materialistas. O filósofo do século XVIII, Immanuel Kant, disse que não só devemos acreditar que o homem é livre, mas também que ele tem uma alma imortal e que Deus existe. A ideia de liberdade não pode existir sem a ideia de Deus e da imortalidade. Sem tais crenças, a vida feliz e a civilização são impossíveis.
Alguns filósofos modernos argumentam que Kant não foi longe o suficiente. Ele deveria ter dado maior atenção ao homem como um organismo vivo com espírito. Seu corpo pode estar acorrentado à lei de causa e efeito, mas sua alma ou espírito é livre. Nas palavras de Nikolai Berdiaev: “O homem é um ser enigmático porque não é o produto de processos naturais, mas é filho da liberdade que brota do abismo do não-ser.” O homem possui um elemento divino dentro de si e, portanto, ele é livre, com o poder de criar beleza, de fazer o bem, de amar a justiça. Certamente, o corpo do homem é controlado pelas restrições do tempo e do espaço, mas seu espírito é livre para transcender todas as leis de sua natureza finita. Seu espírito o leva aonde seu corpo não pode ir.
Curiosamente, os pensadores modernos ignoram o fato de que suas teorias sobre Deus, o homem, sua alma e a liberdade não são nada novas. Elas foram primeiro afirmadas pelos gregos antigos e reafirmadas na Idade Média Latina pós-Ortodoxa, apenas para reemergirem na modernidade sob diferentes disfarces. O que a Igreja Ortodoxa ensina sobre o livre-arbítrio? Nenhuma das opções acima. Ela nunca se preocupou com as chamadas descobertas da razão humana. Em vez disso, ela confia nas Sagradas Escrituras e em seus Santos Padres.
2.
Permita-me introduzir o ensinamento cristão sobre o livre-arbítrio com algumas observações preliminares.
Primeiro, deve-se entender que livre-arbítrio não significa a capacidade de fazer o que quer que desejemos. Não podemos parar de comer e respirar sem eventualmente terminar nossa existência. Não podemos impedir o processo de envelhecimento, nem erguer uma montanha, nem engolir o oceano. Somos limitados — não paralisados — por nossa natureza, pela força das circunstâncias, pelas leis da Natureza.
Segundo, somos restringidos pelas paixões. As paixões limitam o alcance de nossas escolhas. Assim, uma pessoa viciada em drogas não tem a mesma liberdade que uma pessoa livre delas. O pecado limita nossas escolhas. Em outras palavras, nossa liberdade se expande com a pureza da alma e do corpo. Na era vindoura, diz São Gregório de Nissa, os salvos terão um número infinito de escolhas. No inferno, os condenados não terão escolha alguma.
Terceiro, nossa liberdade é restringida pela ignorância. O que não conhecemos, não podemos escolher, exceto, talvez, por acaso. Mas isso não seria uma escolha livre. A liberdade envolve deliberação. A ignorância é uma desculpa apenas para aqueles que não têm capacidade ou oportunidade de aprender, por exemplo, um bebê não tem conhecimento e, estritamente falando, não tem liberdade para escolher. Mas então ele não conhece nem o bem nem o mal. O mesmo não pode ser dito do adulto normal. Em todo caso, Deus nos julgará de acordo com a maneira como exercemos nossa liberdade.
Quarto, há assuntos inteiramente além do nosso controle, como aquelas coisas que Deus reservou para Si mesmo. Somente Deus tem autarkeia ou é autossuficiente, absolutamente independente; somente Deus é autexousios ou tem completa “autoridade própria”, “poder próprio”, sem qualquer autoridade sobre Ele.
3.
Como a Igreja define “livre-arbítrio”? Ele tem dois significados e eles estão inter-relacionados. É a capacidade de escolher entre o bem e o mal e entre uma coisa e outra. Em toda escolha há o risco do pecado, a menos que invoquemos a Graça de Deus para nos auxiliar.
Nenhuma escolha, que exclua a Graça de Deus, contribui para a nossa salvação, pois “pela graça sois salvos” (Ef. 2:8), declarou São Paulo. A Graça também expande nossas escolhas, purifica-as e as dirige, especialmente as escolhas que levam à nossa salvação. Mas quer escolhamos entre coisas físicas ou espirituais, nossas escolhas sempre envolvem o poder de escolher entre o bem e o mal. No mundo de hoje, por exemplo, há muitos que acreditam que o alcoolismo é uma doença. O alcoólatra não é um pecador, mas uma vítima.
No entanto, na verdade, o alcoolismo é o resultado de escolhas cumulativas que impactam o corpo e causam nele mudanças químicas. Embora o alcoolismo possa compelir uma pessoa a beber, foi a livre escolha, em primeiro lugar, que levou à sua escravidão ao álcool.
4.
Agostinho de Hipona ensinou que o “pecado original” torna impossível para nós escolher entre o bem e o mal e, portanto, tomar qualquer parte em nossa salvação. Antes da criação do mundo, Deus sabia que Adão cairia e mergulharia sua posteridade no pecado, na morte e na corrupidade. Sabendo disso, Deus arbitrariamente predestinou alguns à salvação, outros à condenação. Por que Ele decidiu salvar alguns e não outros, não podemos saber. Aos poucos escolhidos – os eleitos – Ele impôs a graça de forma irresistível. Eles têm a capacidade de escolher entre o bem e o mal. O resto da raça humana se ilude pensando que tem as mesmas escolhas.
Ora, embora ele esteja errado sobre a predestinação e a graça compulsória, há alguma verdade no que Agostinho disse. A liberdade dos cristãos difere da liberdade do incrédulo, daquele que está fora da influência da Graça salvadora de Deus. No entanto, ele também foi feito à imagem de Deus e, por essa razão, sempre tem o poder de escolha, limitado que seja por suas paixões e ignorância.
Certamente, a escolha depende do conhecimento; e do conhecimento da Revelação de Deus, que apresenta o maior número de escolhas. Ninguém pode dizer que não teve a possibilidade de conhecer a Vontade de Deus — não hoje, não com a explosão das comunicações, não com todas as escolas, bibliotecas, televisão, etc.
Mais do que isso, como afirma São Paulo, a própria natureza nos ensina sobre Deus (Rom. 1); ou, como diz São João Damasceno (De Fid. Orth. 1,2), o conhecimento de Deus está implantado em nós por natureza. E conhecendo a Deus, mesmo que de forma limitada, ninguém pode dizer que lhe é impossível voltar-se para Deus.
Dito de outra forma, com o conhecimento de Deus vem o conhecimento do bem e, por implicação, o conhecimento do mal; e, consequentemente, a possibilidade de escolher entre eles. Sem esse conhecimento e as escolhas que dele resultam, ficamos sem explicação para a existência humana, exceto o destino ou a predestinação, algum destino desconhecido. Entender a nós mesmos dessa forma é privar a escolha e a ação humanas de todo significado. Pior, se houvesse um Deus, precisaríamos culpá-Lo por todo o mal. Nem mesmo o diabo poderia ser responsabilizado por sua conduta. Assim, os Padres declaram que Deus existe, que o homem tem uma alma. Ele é livre para escolher, e nem mesmo a Graça de Deus é compulsória.
A cooperação entre a Graça de Deus e o livre-arbítrio do homem, a Igreja chama de “sinergia” ou o agir conjunto de duas energias, a humana e a Divina. O que Deus dá livremente, somos livres para aceitar ou rejeitar. Ao mesmo tempo, há algumas coisas que Deus não nos dará nem nos permitirá conhecer. Pois, como escreveu o Apóstolo Paulo: “As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” (1 Cor. 2:9).
Conclusão
Os filósofos não podem nos ajudar a saber se temos livre-arbítrio. Eles não concordam entre si. Suas teorias, baseadas em suposições não comprovadas, estão abertas a críticas sérias. Também as doutrinas religiosas sobre predestinação e destino apenas colocam a culpa do mal em Deus e privam os seres humanos de louvor e culpa por suas escolhas, por seus vícios e virtudes. O conhecimento do livre-arbítrio vem pela fé e pela experiência. Deus criou o homem à Sua Imagem, o que significa que o homem tem livre-arbítrio. A liberdade que foi implantada por Deus na natureza humana criada é restringida apenas pelo pecado e pela ignorância. Sem liberdade, a vida não tem sentido.
St. Nektarios information on the Orthodox Faith
tradução de Lidiane Moura Tomich






