SINCERIDADE E HONESTIDADE DA FÉ: O DOMINGO DE TOMÉ

Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

Este domingo, queridos irmãos e irmãs, é chamado de Anti-Páscoa ou Domingo de Tomé. Há algo muito profundo no fato de que, neste domingo que se segue à Semana da Luz, um tempo em que simplesmente nos alegramos e buscamos descanso de nossos trabalhos quaresmais, a Igreja nos lembra novamente, com firmeza – e enfatizo, com firmeza –, da necessidade da luta da fé. Também nos lembramos do Santo Apóstolo Tomé. Infelizmente, a memória deste Santo Apóstolo, preservada ao longo dos séculos pela Igreja, nem sempre nos transmitiu a compreensão da Igreja sobre o significado de sua confissão de fé em Cristo. Ouvimos com muita frequência que houve um “Tomé sem fé”. Quando vemos alguém que não crê profundamente em Deus, ou que não crê profundamente em nós mesmos, chamamos essa pessoa de “Tomé sem fé”.

Contudo, a compreensão da Igreja sobre o ministério deste grande Apóstolo é completamente diferente.

Sim, de fato, os Santos Apóstolos, por medo dos judeus, haviam se trancado em seus aposentos; sim, de fato, muitos deles foram assolados por dúvidas, embora seu Divino Mestre, Jesus Cristo, lhes tivesse prometido a Ressurreição.

Cristo lhes prometeu a Ressurreição. Se não tivessem tido dúvidas, não teriam rejeitado ou abandonado Cristo, como fizeram durante a Sua agonia na Cruz. Mas agora, estando todos reunidos, oraram mais uma vez para que seu Divino Mestre lhes concedesse ao menos algum sinal da Ressurreição. E o Salvador apareceu a eles de uma maneira que não haviam previsto. Apareceu em Seu corpo transfigurado e ressuscitado, no mesmo corpo em que as marcas dos pregos, abertas como feridas, ainda estavam presentes; contudo, era também o mesmo corpo que já havia sido transfigurado, não impedindo o Salvador de atravessar a parede do aposento para aparecer aos Apóstolos. Era terrível imaginar que uma aparição pudesse ter surgido diante deles, tentando-os. Mas o Salvador, vendo a sua falta de fé, também aqui se dignou a compartilhar uma refeição com eles. E quando viram que não se tratava de um espírito, mas sim do seu Divino Mestre encarnado – isto é, que Ele havia cumprido a Sua promessa até o fim – regozijaram-se.

Mas o Santo Apóstolo Tomé não estava com eles. Quando soube disso, proferiu palavras que, mais uma vez, não eram grandiosas palavras apostólicas, mas simples palavras humanas: que não acreditaria na Ressurreição do Salvador até que tivesse colocado os dedos nas feridas do Seu corpo. Parece que, de uma maneira simples e humana, ele havia começado a duvidar novamente – mas os outros Apóstolos também duvidaram. Nas palavras do Apóstolo Tomé havia algo mais, além da dúvida: ele não queria simplesmente ver ou ouvir o Cristo Ressuscitado, ele insistiu em colocar corajosamente os dedos nas feridas dos pregos.

Lembro-me de que muitos filósofos que desenvolveram uma teoria do conhecimento nos séculos subsequentes enfatizaram que o meio mais confiável e convincente para o homem perceber a realidade é o tátil: tocar algo com as próprias mãos. De fato, vivemos numa época em que as pessoas acreditam principalmente naquilo que podemos tocar com as próprias mãos. Aliás, o apóstolo Tomé exigiu a prova mais clara da ressurreição de Cristo: que Ele tivesse ressuscitado no corpo, no próprio corpo em que fora pregado na cruz.

Refletimos sobre isso durante os dias festivos que se seguem à Páscoa, quando não nos sentimos particularmente inclinados a refletir sobre nada difícil; durante dias em que a alegria da celebração pascal por vezes gera em nós a ilusão de um profundo apego a Cristo; durante dias em que não temos dúvidas quanto ao Salvador Ressuscitado porque geralmente não estamos inclinados a nos esforçar para refletir sobre Ele. Portanto, uma lembrança do apóstolo Tomé, o incrédulo, pode até mesmo introduzir certa dissonância em nossas almas. Tendo em mente as palavras da Epístola dos Patriarcas Orientais do século XIX, sobre como eles não podiam mudar nada na Igreja porque os guardiões da fé são o povo de Deus (palavras que soavam ambíguas vindas da boca dos hierarcas da Igreja), lembramos da designação popular do apóstolo Tomé como o Tomé infiel. Ao fazê-lo, essencialmente descartamos a necessidade de uma reflexão séria sobre esta passagem do Evangelho. É como se cada um de nós se considerasse um Tomé fiel. Entretanto, uma apreciação cuidadosa do relato do Evangelho revela-nos um homem da mais absoluta sinceridade e pureza. Não é por acaso que ele foi um dos Apóstolos; não é por acaso que ele confirmou a Igreja de Cristo neste mundo por meio de seu subsequente ministério apostólico e morte martirizada por Cristo.

O próprio Santo Apóstolo Tomé, em certo momento, duvidou do que seus companheiros Apóstolos lhe haviam dito. Por que, a rigor, deveria ele acreditar neles incondicionalmente? Deveria acreditar no mesmo Apóstolo Pedro que declarara que, mesmo que todos os outros negassem a Cristo, ele não o negaria; mas que, no entanto, negou a Cristo três vezes, sendo o primeiro a negá-Lo? Por que deveria acreditar nos outros nove Apóstolos, que também abandonaram a Cristo? Por que deveria acreditar em si mesmo, pois ele também havia abandonado a Cristo? É bem possível que a dúvida tenha surgido na alma do Apóstolo Tomé: talvez seus companheiros Apóstolos, reunidos por medo dos judeus, tivessem visto uma aparição, e apenas lhes pareceu que Cristo havia ressuscitado e os visitado?

Na maioria das vezes, percebemos a dúvida do Santo Apóstolo Tomé como um sinal de fraqueza e falta de fé. Além disso, ao final da leitura do Evangelho, afirma-se que bem-aventurados os que não viram e creram. E nós, certamente, nos incluímos na categoria dos bem-aventurados que, não tendo visto, creram. Nesse caso, para nós, o Apóstolo Tomé se destaca como um exemplo marcante da falta de fé em contraste com a nossa própria fé, a fé daqueles que não viram e, talvez, nem mesmo veem agora a Cristo, porque nós também simplesmente afirmamos que somos cristãos e nos referimos a nós mesmos como cristãos.

Assim, o Apóstolo Tomé nos lembra da verdade óbvia de que os cristãos são obrigados a duvidar: a duvidar de si mesmos, a duvidar de sua experiência com Deus e a duvidar de sua fé em Deus. Não há absolutamente nenhum pecado nisso. Afinal, fé não é o mesmo que credulidade. Ao nos lembrarmos da descrição popular do Apóstolo Tomé como o Tomé infiel, devemos também nos lembrar de nossa própria história, quando nossa nação, que conferiu a designação de “infiel” ao Santo Apóstolo Tomé, expressou sua própria infidelidade da maneira mais terrível em tempos não muito distantes.

A credulidade com que nossa nação seguiu aqueles que a incitavam a destruir sua própria Igreja e seu próprio país demonstra que, naquela época, ela não tinha a capacidade de duvidar daqueles que lhe ofereciam o fácil caminho para a impiedade. Assim, a história recente nos mostra a importância da experiência do Santo Apóstolo Tomé. Além disso, se lermos o Evangelho com mais atenção, encontraremos o seguinte: o Apóstolo Tomé não exigiu nada de especial para si. Afinal, o próprio Jesus Cristo havia Se mostrado repetidamente aos Seus discípulos, provando-lhes que havia ressuscitado ao mostrar-lhes as marcas dos pregos. O Apóstolo Tomé se diferenciava de seus companheiros apóstolos apenas no sentido de que, não tendo visto essa evidência, a desejou, a esperou e a recebeu de Cristo.

Este é um tema muito importante na vida espiritual de um cristão. Quando nós, por indiferença ou medo, não duvidamos nem questionamos a Deus, estamos mentindo. Deus aguarda nossas perguntas. Ele não precisa de fantoches piedosos. Ele aguarda qualquer uma de nossas perguntas e está pronto para respondê-las todas. Quanto mais tentadoras e sedutoras, mas essencialmente honestas, forem as nossas perguntas a Deus, mais apreciáveis ​​serão as respostas de Deus. Deus não teme as nossas dúvidas. Ele está preparado para ouvi-las e dissipá-las completamente.

O Santo Apóstolo Tomé nos lembra, nestes dias em que a alegria pascal começa a diminuir, assim como por vezes acontece com os nossos pensamentos e sentimentos, do trabalho que nos aguarda ao longo de todos os anos vindouros das nossas vidas. Ele nos chama a seguir Cristo, a viver em Cristo e a refletir sobre Cristo de forma responsável e consciente; e não a amá-Lo e crer n´Ele cegamente, como tantas vezes fazemos nesta vida, tanto em relação aos nossos entes queridos como ao próprio Senhor Deus.

É uma pena que o Apóstolo Tomé não tenha ocupado o lugar que lhe cabe na nossa tradição. Refiro-me à nossa tradição cultural e histórica, não à Tradição da Igreja, que elevou este Apóstolo a um lugar tão sublime uma semana depois da Páscoa, dedicando uma atenção tão notável às dúvidas deste homem tão sincero e puro. A sinceridade na crença é a chave para a sua autenticidade; a fé autêntica, de fato, realiza milagres e pode conceder a qualquer pessoa, mesmo à mais frágil, todos os talentos espirituais restantes. Mas é preciso começar precisamente com essa mesma sinceridade e honestidade, a mesma sinceridade e honestidade com que o apóstolo Tomé iniciou o que às vezes nos parece uma conversa ímpia com Cristo.

De fato, muitos de nós não nos dispomos a abordar sequer um sacerdote com as mesmas perguntas e dúvidas com que Tomé abordou Cristo; muitos de nós não nos dispomos a apresentar nossas dúvidas nem mesmo aos nossos próprios irmãos e irmãs em Cristo. O que eles pensariam de nós? E se, de repente, decidissem que temos pouca ou nenhuma fé? A falsidade, assim, se acumula em nossas almas e relacionamentos; falsidade que, oculta sob a ilusão de uma fé sincera, irrefletida e, portanto, aparentemente firme, essencialmente nos transforma em pessoas que verdadeiramente não conhecem nem a si mesmas nem ao seu próximo. E viver em ilusão sobre nós mesmos e sobre o nosso próximo é, afinal, uma grande tentação e uma grande falsidade.

Portanto, permitamos que esta inesperada intervenção do Santo Apóstolo Tomé em nossa alegria pascal não só nos alerte quanto a nós mesmos, mas também nos tranquilize quanto ao fato de que Deus aguarda cada uma de nossas perguntas. E cada uma de nossas perguntas sinceras receberá uma resposta d´Ele, uma resposta que, a longo prazo, nos introduzirá na autêntica alegria pascal, não apenas nos dias que se seguem à Páscoa, mas por todos os dias de nossas vidas. Amém.


Arcipreste George Mitrofanov
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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